quarta-feira, 19 de junho de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

Primavera do Ônibus: uma encruzilhada

PRIMAVERA DO ÔNIBUS - Rio de Janeiro, 15 de junho de 2013

Encruzilhada do Brasil
entre Sujeitos Sociais e punk-vândalos
 


Vejo três Sujeitos Sociais no fenômeno  que desde ontem cedo, 14 de junho de 2013, caricaturei com o nome de Primavera do Ônibus. Sujeitos Sociais são forças políticas de tamanho desigual, mas cujos enfrentamentos entre si produzem resultados imprevisíveis. Claro, em cada uma desses três Sujeitos Sociais, tão desiguais, há uma miríade de nuances. A polícia, por exemplo: não importa a variação de sua capacidade, em termos de treinamento ou truculência, não é Sujeito Social no sentido amplo maior. Sujeitos Sociais amplos são os governadores, que controlam a polícia, e governadores são resultado de uma combinação de  ferramentas como tropas, votos, lideranças, orçamentos, organização burocrática etc.

  O governador é o representante de uma força maior, uma força social, representante de um Sujeito Social. Polícia, não, aqui não discuto tecnicalidades. Insisto: polícia obedece, é estamento menor, é tecnicamente o braço tipo varejo das Forças Armadas, braço por sua vez da Força Social Maior, do Sujeito Social Maior que no caso é Dilma Rousseff.

 A polícia, em suas diversas variações estaduais, e mesmo a Polícia Federal, são meras ferramentas de uma das três complexidades que aqui chamo de Sujeitos Sociais. Nada a ver com Marinha, Exército e Aeronáutica. Este conjunto, essa tríade clássica do Século 20, já constituiu um Sujeito Social em algumas ditaduras do Século 20, mas hoje as três armas são mera força ou ferramenta de atacado, ferramenta de um dos três segmentos que compõem o Sujeito Social Maior, o Poder Federal, ou os Três Poderes na última instância instalada em Brasília. Poder Federal e suas ferramentas não entram nessas questiúnculas internas como a Primavera dos Ônibus, questiúncul sim, mas uma baita crise.

Bem, parece complicado, é complicado, mas não muito. Resumindo: a força bruta na rua de cada cidade vivendo a Primavera do Ônibus é apenas um apêndice empírico de um dos três Sujeitos Sociais nessa crise política, ou seja, as polícias são itens à disposição dos governos estaduais. Trato aqui cada governador como um dos três Sujeitos Sociais desse fenômeno da Primavera do Ônibus apenas porque é algo interno, não envolve Relações Exteriores, não envolve diretamente anda a Dilma nem as suas ferramentas gloriosas, que são as nossas queridas Forças Armadas. Então o cenário é provinciano, apesar dessas comparações com protestos no Cairo e na Turquia.

Bem ,vejamos os três Sujeitos Sociais nessa Primavera do Ônibus. Claro, tudo parece confuso porque assim como existem várias corporações policiais em cada região do Brasil vivendo a Primavera do Ônibus, existem várias forças menores compondo o vigor, para o bem e para o mal, nos outros dois Sujeitos Sociais, que são basicamente um núcleo inicial de jovens irritados com uma série de iniquidades e mazelas das administrações públicas, e a maioria, o terceiro Sujeito Social, o grosso da sociedade que tenta compreender a complexidade da crise, porque claro é uma crise que já envolve a Federação esse fenômeno da Primavera do Ônibus.

O Sujeito Social que vai às passeatas é um animus, um Zeigeist (ou espírito de época ou fantasma do tempo em alemão mais literal). Esses grupos crescentes de jovens ainda não têm noção do que representam. Não há partidos políticos que os comandem, não há causa específica em cada cidade. Há até demandas divergentes entre os jovens manifstantes de uma mesama cidade. Jovens do Sujeito Social que sai às ruas de Porto Alegre, Natal ou Sorocaba, nada têm a ver com angústias cariocas sobre uma sensação, não comprovada judicialmente, de que o governador aqui, o Sérgio Cabral, envolveu-se nebulosamente com empresários e licitações de cartas marcadas.

O lance dos 20 centavos da passagem de ônibus é apenas um start, um estalinho, uma espoleta, uma estrela, um símbolo a avisar: há que se mudar a forma de políticos no poder se dizerem honestos e transparentes. Não basta dizer, não basta mais parecer aos olhos técnicos do Judiciário que é honesto e transparente, tem que ser clara e politicamente aceito nesta condição de ficha limpa aos olhos de número crescente dos dois outros Sujeitos Sociais.

Embora o fenômeno da Primavera do Ônibus não tenha nada a ver com a Turquia nem com o Cairo, existe sim um ponto em comum que é o start, a estrela, a espoleta, o estalar de uma explosão misteriosa nesses contatos digitais imediatos via internet, o tempo, o big bang contemporâneo. Mas temos, bem ou mal, uma democracia, uma integração da identidade nacional que nem de longe Egito e Turquia podem dizer que possuem. Parece que sonham em ter lá pelo menos uma melhor democracia. Mas lá eles ainda se matam por etnia e religião.

Nós, no Brasil, não. Nós nos amamos do rio Oiapoque ao rio Chuí. Não tem religião nem cor de pele que nos desuna em todos os campos afetivos. Baiano negro casa com carioca branca, carioca negra casa com ucraniano paranaense. E muito ao contrário do nosso costado hispânico de 13 países, aqui somos 27 unidades felizes do ponto de vista da esperança em cada olhar, em cada possível cara metade.

Mas estamos mal, a Primavera do Ônibus nos mostra isso: existem dois Sujeitos Sociais muito insatisfeitos com o outro Sujeito Social, o dono do orçamento advindo dos impostos e o administrador das ferramentas, os governantes comandando as corporações policiais e militares, estaduais e federais. Os jovens dão a cara a tapa. O terceiro Sujeito Social, a grande maioria da sociedade, analisa, com frieza e distância das ruas, sobre como proceder a cada movimento desse fenômeno crítico e com toda cara de vertiginoso.

A maioria que não vai às ruas nem precisa ir, só a ameaça de ir já muda a configuração de possibilidades de resultados desse encontro brasileiro de três Sujeitos Sociais nesse lance já histórico da Primavera do Ônibus.

Assim como o lance dos 20 centavos é o pretexto da Primavera do Ônibus, os punk-vândalos são ou foram o pretexto de uma tentativa inicial fracassada de um Sujeito Social matar os protestos no nascedouro do fenômeno. Os punk/vândalos estão sendo varridos pelo número crescente de pacifistas do Sujeito Social composto inicialmente por estudantes. Os punks-vândalos se desmoralizam com tantas câmeras digitais da polícia e da própria galera jovem nas ruas. O grito de ordem desse Sujeito Social iniciado por jovens é paz e grito. Os punk/vândalos, e entre estes estão também os agentes infiltrados dos governantes, querem não o grito, mas o agito, levam armas, até foguetes, são jovens radicais torcendo para que a grande maioria pegue em pedras, sucumbindo às provocações.

Como não há lideranças visíveis nem demanda específica nas várias manifestações de rua da Primavera do Ônibus, paira uma sensação de anarquia. Ilusória sensação.

A grande mídia, que é uma ferramenta de um dos três Sujeitos Sociais, os governantes, não é cão, não é fidelidade incondicional. A grande mídia vinha sendo isso, mas desapeia, desembarca, vira ferramenta dos outros dois Sujeitos Sociais. Nas passeatas das Diretas Já foi assim, a grande mídia desapeou com o crescimento das manifestações.

Nos dias de hoje, se dois desses três Sujeitos Sociais se unirem, aí já não importam as diversas ferramentas de cada um dos três. Aí é avalanche, é ou revolução ou continuísmo.

Sim, temos leis, democracia, o pior sistema de todos sendo o único que aceitamos, ó Winston Churchill! Sim, ordem judicial se cumpre. Leis são ordenamentos, a lei é dura, mas é lei, a lei é legal, mas por vezes pode não ser legítima. A democracia demanda aprimoramento. Por vezes, este aprimoramento demanda violência. Hoje temos o primado das leis, que são decisões legais, cumpram-se todas elas, mas que nem sempre são legítimas, pelo menos aos olhos e sentimentos de integrantes de dois dos três Sujeitos Sociais. Não sei se esse sentimento de afronta a leis por serem episódica e eticamente ilegítimas vai ocorrer, ou se já está ocorrendo. Mas, apesar de sermos cordiais na brasilidade, as injustiças estão machucando no dia a dia, e os 20 centavos valem não mais que uma vida, 20 centavos compram uma nova história.

Na Passeata dos 100 mil em 1968, o grande dramaturgo Nelson Rodrigues fez a mesma coisa que hoje faz o grande cineasta Arnaldo Jabor. Desprezar um Sujeito Social no nascedouro. Nelson disse na ocasião: não vi nenhum negro nem mulato na multidão na Cinelândia. Ambos são gênios e a um só tempo, idiotas.

Onde tudo isso vai parar? Não tenho a menor ideia de nem onde eu mesmo vou parar com essas reflexões. Em Paris e Praga não havia lideranças, havia espírito de época. O Muro de Berlim começou a cair em Praga duas décadas antes...

No dia 20 próximo, quinta-feira, haverá mais um teste no Rio de Janeiro. No último, o do Dia de Santo Antônio, a manifestação foi relativamente pacífica se comparada à semelhante paulistana, e a grande mídia televisa mostrou ao vivo, sem dizer números de manifestantes cariocas. Sites e jornais falaram em 200 jovens, depois, centenas. Vinte e quatro horas depois, o site de um pequeno grande jornal em crise chamado O Dia falava que foram três mil jovens. Mas havia mais de um quarteirão cheio na Avenida Rio Branco. Eram de 10 mil a 20 mil.... No próxima quinta-feira talvez sejam de novo 100 mil, ou talvez não vá ninguém, você que acredite no palpite que você quiser.

Condoreira, a cúpula do Judiciário segue entre vestimentas ridículas e cacoetes eruditamente linguísticos ainda mais ridículos. Trinta mil por mês e ar refrigerado. Nada de SUS. Mas talvez o SUSTO já esteja aí.

O susto pode virar sujeira, sangue, e a primeira vitima, Geraldo Alckmin, já foi pro vinagre da história. Ainda tem mídia no seu lado de Sujeito Social. Mas bem menor do que ontem, e amanhã, será ainda menor ou nada com relação a anteontem.

 O maior Sujeito Social nessa crise, o silencioso, não teme nenhum dos dois Sujeitos Sociais nas ruas. Ainda vai arbitrar. Espero que sem sustos mais desagradáveis do que esses primeiros.

As polícias e as Forças Armadas, a exemplo das mídias mais poderosas, também não guardam fidelidade incondicional aos Sujeitos Sociais aos quais servem.

Rezo e torço: se esses três Sujeitos Sociais hoje numa encruzilhada não puderem se entender, que vençam os dois que se unirem em nome do melhor para a justiça, sinônimo de rapidez contra a incompetência, rapidez contra a roubalheira e contra a própria morosidade do fazer valer a verdade. Já dizia Ruy Barbosa, sinônimo da contradição – porque ele pregou e conseguiu incinerar a história da escravidão de africanos no Brasil -: Justiça lenta não é justiça. E jovens sempre foram apressados.

Como coroa que já sou, não sonho mais com pressa nenhuma, nada de afobação, sou apenas um grão, apenas mais um no terceiro, e aparentemente, só aparentemente sossegado Sujeito Social. Talvez eu esteja lá pessoalmente no dia 20. Talvez não precise estar. Nada de partidarismo nessa reflexão. Votei no Sérgio Cabral, vou votar, salvo engano, no Pézão. Mas hoje o que aqui se discute não é o Rio de Janeiro, é o Brasil.

Dilma, o tal preço da governabilidade, os quase 40 ministérios, está desabando. Abre o olho. Se depender de nós, o terceiro Sujeito Social, você está reeleita, mas a paciência está acabando. Pode amolar a adaga, descê-la. Em caso de dúvida entre Gilmares e Joaquins, convoque as ruas, se é que elas já não foram convocadas.
(Por Alfredo Herkenhoff )

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Primavera do Ônibus

 A Primavera do Ônibus 1/6
 




A grande imprensa, depois de mais que uma omissão, uma covardia modorrenta, qualificando generalizadamente os manifestantes como vândalos, acordou. Ou melhor, os chefes das redações foram acordados não pelos vidros quebrando num ponto de ônibus na Paulista, mas pelos choros de dor de repórteres atingidos pelo terrorista Geraldo, foram acordados por não-manifestantes levados na pancadaria de roldão, foram acordados não pelos seus últimos velhos leitores, a maioria de gente bem sucedida e conservadora, mas foram sim acordados pelos seus repórteres e principalmente pela sociedade que está vendo o óbvio: os manifestantes apenas imploram por ética, muito mais abaixo os 30 dinheiros do que abaixo os 20 centavos.
 
A Primavera do Ônibus continua aceitando novos passageiros. Ninguém sabe do ponto final.
 
Sérgio Cabral se portou bem ao manter a sua polícia em calma ontem na hora que rolava pancada em Sampa. Lá e cá no Rio os jovens manifestantes não querem nenhuma violência, querem ter voz, é rito de passagem. Embarcaram na vida política. A importância dada pela grande mídia a meia duzia de punk-vândalos que tentaram o quebra-quebra já foi reduzida ao que sempre foi, foi nada, pequeno transtorno politizado pelos desesperados no poder e politizado e anatemizado ou demonizado pelos granfinos da grande mídia.

 

Sérgio Cabral deve se preparar não só para continuar mantendo a paz, mas apoiar as manifestações, claro, surgem sempre frases ofensivas a governantes, fiquemos apenas com as mais criativas, as mais bem humoradas, as mais inteligentes.
 
Não tendo nenhum caráter partidário, a Primavera do Ônibus pode ser aproveitada por políticos mais sensíveis.
 
Os candidatos Pezão e Lindberg sabem que não devem se meter, mas podem sim manifestar solidariedade aos jovens, devem se manifestar pelos manifestantes. Cabral deve aproveitar a frota do transporte de massa para promover mudanças no ano e meio final do seu segundo mandato, deve aproveitar também a tropa e mostrar: vamos agir como se age no mundo civilizado, vamos proteger essa rapaziada. Estamos no mundo das Confederações, estamos no esforço hercúleo de uma parada olímpica. Vamos nos comportar. E o governador poderia aproveitar a anunciar um aumento salarial para os policiais, que estão entre os mais mal pagos do Brasil,
 
Geraldo Alckmin já não tem essa chance, perdeu o bonde da Primavera do Ônibus. Este governador não tem mais chance de conhecer o ponto final. A viagem dele já terminou, Geraldo terrorista vai padecer no inferno ao lado do seu sócio oculto, o próprio capeta.
 
Em um ano e meio, Cabral, você ainda consegue melhorar o seu governo. Abre o olho. Desafie os manifestantes a botar 100 mil na Rio Branco pacificamente pedindo ética na administração pública. Muitos eleitores seus irão. Irei. Mas quero garantias de respeito mútuo.
 (Por Alfredo Herkenhoff)

Seguem mais cinco takes sobre o tema neste Correio da Lapa

A Primavera do Ônibus e os estímulos para a repressão cruel (2/6)














A Primavera do Ônibus
 e os estímulos para a repressão cruel (2/6)

 

Estimulada pela Folha, pelo Estadão, pela Abril e outros mais, com endosso de nomes consagrados de cronistas hiper conservadores na TV como José Nêumanne e Arnaldo Jabor, a polícia baixou o pau covardemente em jovens manifestantes que tinham percorrido um trecho inicial da passeata gritando "não à violência". Queriam apenas protestar. Mas aí a polícia, qual horda de vândalos obedecendo a bordões fascistas do governantes e de uma imprensa arrogante, uma polícia mal paga, mal treinada do general Geraldo Nazi-sim, a mesma que já mostrara suas garras contra gente pobre em Pinheirinhos, naquele terrenão do banqueiros e dos Nagi Nahas da vida, entrou em ação com sanha SS. Vexame.


 

 
 
E ficam tentando derrubar o governo federal com piadas de mau gosto. Mesmo com a inflação da comida nos últimos meses, não dá nem pra pensar em tucanos. A Folha sentiu a paulada e o haraquiri e mudou a manchete envergonhada que era favorável à repressão oficial. Os repórteres das Organizações Globo com depoimentos impressionantes sobre o ânimo e a premeditação da violência das tropas do governo ontem em São Paulo. A tropa tinha de estar lá protegendo os manifestantes e contendo apenas aqueles grupelhos de punk/vândalos que ontem já não tinham nem mais clima para prosseguir estragando um sentimento coletivo de não rotundo a tanta injustiça, a tantas mazelas administrativas.
 Agora tenho certeza: é hora de mais protesto. Protestar pedindo também uma polícia com melhor remuneração e um mínimo de civilidade. A violência policial no Brasil estimula a violência social a se tornar mais violenta.
Emoção no link:
 
(Por Alfredo Herkenhoff)
 

A Primavera do Ônibus - RITO DE PASSAGEM (3/6)

 A Primavera do Ônibus - RITO DE PASSAGEM (3/6)

Geraldo partiu e a UNE sumiu. Os protestos nao são partidários, não sao partidaristas, são um rito de passagem. E

stamos, nós, pobres, ricos e remediados, todos mal das pernas. A sociedade está podre. Geraldo é terrorista.

Vejam as faixas no Rio e em Sampa, nao tem vermelho PT, nao tem verde amarelo, tem sim uma diversidade... Vejam só os dizeres dessas três imagens!






(Por Alfredo Herkenhoff)

A Primavera do Ônibus – Geraldo Verdugo (4)


A Primavera do Ônibus – Geraldo Verdugo (4/6)
 
Repórteres, manifestantes e não-manifestantes levando tiros disparados pelo governador e por editoriais de uma imprensa arrogante.

(Por Alfredo Herkenhoff)

 

A Primavera do Ônibus sob supervisão da Opus Dei (5)

 
A Primavera do Ônibus sob supervisão da Opus Dei (5)

Ele se diz católico, vai com sua primeira-dama à missa e comunga. Desconfio que seja ateu ou sócio do capeta. Como São Paulo vota tão mal! E não é de hoje. Por que isso?

(Por Alfredo Herkenhoff)

 

 

 
 

 

A Primavera do Ônibus - QUO VADIS, SEU COVARDE? (6/6)


A Primavera do Ônibus - QUO VADIS, SEU COVARDE? (6/6)

 
Os tucanos tiveram duas semanas de altíssima exibição na TV em rede nacional. Mas, dias atrás, a pesquisa no auge do efeito dessa megaexposição deu a Aécio apenas um pouco mais do que os dedos das mãos. Para os tucanos, cientes que estão de que a batalha para derrotar Dilma nas urnas está mais que perdida, interessa qualquer estocástica randômica, como o caos das ruas, torcer para que o imponderável do caos em algum momento se volte contra Brasília. Promover essa repressão fascista é como embaralhar as cartas para ver se rola algo melhor. Torcer para que essa repressão desproposital produza um caos desconhecido. O conhecido são eles mesmos, os tucanos, que não se notam, não percebem o quão longe cada vez mais ficam de mim.

 

Na democracia, a polícia é para proteger manifestantes e não-manifestantes. Se eu fosse a Dilma, eu visitava as vítimas da Rota e de outras forças policiais maldosamente usadas por um governador infernalmente cruel, ignorante, não vale nenhum dos votos que teve. Vade retro, Geraldo, repressor moralmente sem nenhum amor, nenhum valor, nenhum respaldo!

(Por Alfredo Herkenhoff)

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Vai, Victor, a Vitória é tua.Tchau,Tijuana! Parabéns, Galo, mas abre o olho!


 
Eu assisti atentamente ao jogo da noite histórica que foi o 30 de maio em que o Atlético Mineiro passou um dos piores sufocos de sua trajetória mais que centenária, viveu talvez uma emoção equivalente ao instante do rebaixamento para a Segundo Divisão. Eu torcia levemente para os mexicanos porque ainda ando com o Ronaldinho meio atravessado na garganta, não engoli aquela desfeita que fez ao nosso Mengão numa crise que parece sem fim. E quando Ronaldinho cobrou aquela falta para a bola pentear o cabelo de todas as cabeças da zaga do Tijuana e cair magicamente nos pés de Réver no segundo pau, vi que com aquele gol o time estava numa noite de sorte, não de merecimento. O cruzamento na cobrança de falta foi mágico ou foi sorte? Ronaldinho, mais ou menos quase na mesma posição de onde fez aquele gol antológico contra a Inglaterra na Copa de 2002, estava inspirado ou a zaga falhou ao não perceber o suave pombo sem asa na balística da pelota? E detalhe: o juiz parece que inverteu a falta. Entendeu que o defensor mexicano, ao tentar cabecear,  se atirou sobre o atacante atleticano, quando na verdade vi que este não só não saiu do chão, como ainda se inclinou, aplicando uma clássica cama de gato. Bem, deu ou não falta invertida e deu no que deu.
 
 Fora isso, Ronaldinho sumiu ontem no Horto da Grande BH. O Tijuana mandou no jogo, foi melhor quase o tempo todo. Mandou paulada no travessão e tudo mais. Não merecia perder, mas mereceu. Não merecia nem estar na Libertadores porque o clube pertence a outra associação, é um alienígena. Mas mostrou um belíssimo futebol.
 
 Mas mesmo com a espinha atravessada na garganta, curti, aplaudi e sorri em ver a dor total de uma torcida apaixonada se transformar na alegria total quando, na cobrança do pênalti aos 48 do segundo tempo,  o goleiro Victor pulou para longe da bola, mas pulou com tanto impeto que nem teve aquela chance de defender com um último esforço da perna ou do pé. A bola simplesmente bateu com força estúpida na ponta do pé de um goleiro já totalmente na horizontal, corpo no ar. Bateu e espirrou para longe.
 
A classificação inédita do Atlético Mineiro para uma semifinal da Taça Libertadores encerra várias lições para o clube e para o futebol brasileiro. Para o Atlético, uma sandalinha da humildade é fundamental agora que vai para a fase realmente mais complicada. Com o que jogou ontem, não deve nem sonhar em título. E o pior, o Atlético vai parar, todo o futebol brasileiro vai parar por causa dos 15 dias de Copa das Confederações a partir de 15 de junho. Ou seja, o Atlético vai ficar sem ritmo de jogo. E vai pegar os Old Boy, os meninos de Rosário tinindo. Como a Argentina não está nas Confederações, o futebol lá não vai parar. E os Boys são fogo na roupa, como demonstraram na eliminação do tradicionalíssimo Boca. Os Boys têm larga experiência em jogos dramáticos, em Libertadores. É um clube de elite do futebol de raça total, de qualidade total.
 
A lição para todo o futebol brasileiro nesta Libertadores é que o nosso país já é o grande derrotado, reflexo da péssimo momento dos nossos treinadores, quase todos ultrapassados. Na Europa, nos últimos 20 anos, importaram tudo, nossos craques e melhores técnicos. Mas hoje só quem os nosos jogadores. Scolari, Luxemburgo e Parreira, ninguém lá no Velho Continente quer nem de graça.
 
 Resumindo, temos bons jogadores, talentos excepcionais surgindo aqui e ali. Mas rola impunidade para os incompetentes. Ou seja, quanto mais os nossos treinadores fazem bobagem, mais são premiados. Eles botam cláusulas, não apostam no próprio sucesso. Vivem de um passado remoto, sim, glórias tiveram, mas hoje não levam a lugar nenhum. O Brasil está mal ranqueado. O Corinthians, recém-eliminado, é uma exceção pelo título em Tóquio, sua torcida fundamental no Japão. Mas também não anda lá essas coisas. Mereceu cair. Fluzão não jogou nada, decadentésimo, mereceu dançar. São Paulo, idem.  Resta apenas  uma dúvida: Quem tem o pior elenco hoje? Meu Mengão ou o seu Vascão? Minha/nossa única missão em 2013 é não cair.
 
Parabéns, Galo! Mas abre o olho, que nas semifinais não tem galinha ciscando no teu terreiro não! A barra pesada está só começando.
 
Por Alfredo Herkenhoff, Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 31 de maio de 2013. 

 
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

Tia de Angelina Jolie morre de câncer da mama


DEU NO THE NEW YORK TIMES
 
Tia de Angelina Jolie morre de câncer da mama

By ADAM W. KEPLER


Menos de duas semanas depois de Angelina Jolie descreveu, em um artigo no New York Times, sua decisão defazer uma mastectomia dupla para evitar câncer de mama, sua tia Debbie Martin morreu da doença em Escondido, na Califórnia, informou a Associated press. Ela tinha 61 anos e morreu no domingo.

Debbie Martin era a irmã mais nova da mãe de Jolie, Marcheline Bertrand, que morreu de câncer de ovário em 2007. Ms. Jolie escreveu no The Times em 14 de maio que era a morte da mãe e a presença de um gene defeituoso BRCA1, que aumenta o seu risco de desenvolver câncer de mama e câncer de ovário, que a levaram a uma cirurgia preventiva.

Ron Martin, marido da Sra. Martin, confirmou à AP que ela também tinha o gene BRCA1, mas não estava ciente até depois de seu diagnóstico de câncer 2004. "Se soubéssemos, certamente ela teria feito exatamente o que Angelina fez", disse ele.

Ele acrescentou que, depois de saber que tinha câncer de mama, sua esposa removeu o ovário porque, como várias outras mulheres de sua família, ela tinha um alto risco genético para câncer nesta região.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Bin Laden Baby Boom! A islamofobia chegou

TERRORISTA DE FACA NA MÃO DISCURSANDO DEPOIS DO ATENTADO AO SOLDADO
 
BIN LADEN BABY BOOM?

Especulando: as bombas de Boston numa data patriótica americana denotam mais que uma ação de terror individual ou de família, perpetrada que foi por dois irmãos chechenos. Com os dois atentados de ontem, em Londres e Orlando, Florida, já penso numa Al Qaeda Juvenil, uma Al Aqaedinha

Ontem, quase ao mesmo tempo em que na Florida era morto um muçulmano que atacava a polícia, e este muçulmano era amigo de Tsarnaev (aquele checheno morto e irmão do que foi preso pelo crime em Boston), em Londres outro muçulmano matava um soldado britânco que havia servido no Afeganistão.
...

Não importam as nacionalidades desses jovens radicais do fundamentalismo . Se checheno, nigeriano ou paquistanês. Parece, pelas datas e momentos dos ataques, haver uma articulação maior por trás desses jovens.

Em 2011, aniversário de dez anos do terror das Torres Gêmeas, ou melhor no dia 12 de setembro de 2011, três americanos foram mortos num apartamento perto de Boston. A polícia investigava o possível envolvimento de cara que morreu na Florida, o tal do Todashev. Este muçulmano era amigo de Tsarnaev; Agora os americanos investigam se há DNA do terrorista de Boston na cena do triplo homicídio.
Meu palpite é que há.

E mais... Se o crime na manhã de ontem na Flórida ocorreu horas antes do crime de Londres, é possível que os nigerianos radicais tenham recebido a ordem para esfaquear o soldado Rigby na capital inglesa. Se o crime na tarde de Londres ocorreu momentos antes da visita do FBI à casa do Todashev na Flórida, é possível que este checheno tenha recebido a ordem para tentar esfaquear os interrogadores. 

 Não sei os horários exatos dos ataques a faca de ontem, não sei os reais motivos, mas tá na cara que é terror religioso.

 E na Europa cresce a sensação de que, no estilo do imediato pós 11 de setembro, errar é humano, matar ou morrer é muçulmano.  A islamofobia chegou, trazida de propósito por meia dúzia de jovens fundamentalistas: Bin Laden Baby Boom!
 
(Por Alfredo Herkenhoff)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Grêmio caiu da Libertadores por um conjunto de falhas

O Grêmio caiu na Libertadores, despencou por um conjunto de falhas, mas basicamente despencou da altura permitida pela Fifa, Bogotá está a mais de 2 mil 500 metros acima do mar. De qualquer forma, confesso que gostei da eliminação. Tenho um...a pinimba de torcedor contra o belo clube gaúcho, pelos anos 90 quando estes tricolores infligiram alguns revezes ao meu Mengão, em boa parte por uma conjunção de fatores, Mengo numa fase ruim, Grêmio na fase boa, e juízes costumam errar mais a favor dos times em fase boa. Mas não fosse o goleiro Dida ontem à noite, a vitória do Santa Fé teria sido ampla. O gremista Vargas perdeu um gol incrível a dois minutos do fim. E o chileno Barcos está de malas prontas para o Napoli, detentor de seu passe... E o treinador Luxemburgo, bem, boto no mesmo barco do Scolari, bananeira que já deu cacho. O futebol evoluiu, os dois, não, apenas se tornaram ainda mais arrogantes. Há ainda quem lhes permite régia remuneração. Eu os desprezo. E temo pelo Brasil nas Copa das Confederações. Quero queimar a língua, vou torcer apaixonadamente por Neymar e Huck (estes dois garantiram que a nossa Seleção Olímpica ganhasse prata em Londres com um trabalho do Mano Menezes que começava a frutificar, dar cara ao elenco), mas sem o Ramires vejo a Seleção sem um jogador tipo talismã. Duvido que se o Grêmio tivesse ontem um Ramires no lugar de Fernando (que foi convocado pra jogar na frente da zaga da Seleção) o Santa Fé encontraria a facilidade que encontrou. Com Ramires não tem altitude, tem atitude. Ele foi pedreiro até a adolescência tardia. O jogo ontem foi uma pedreira anunciada. A Copa das Confederações será ainda uma pedreira mais pesada. Leve como aqueles cachorros magros que apostam corrida em Londres e Miami, Ramires nos fará falta, como fez no único jogo em que não atuou na Copa da Africa do Sul, justo a quinta partida, quando fomos eliminados pelos holandeses. Com Ramires no Chelsea, até o Barcelona de Messi chorou na Champions League...

(Devo ter escrito muita bobagem, mas é o que penso, o que recordo e o que temo... Por Alfredo Herkenhoff)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Íntegra do artigo de Angelina Jolie no The New York Times


Minha opção médica
 

Por Angelina Jolie *



(Artigo publicado em 14 de maio de 2013 no jornal The New York Times,
 tradução de Alfredo Herkenhoff)


Minha mãe lutou contra o câncer por quase uma década e morreu aos 56 anos de idade. Ela teve tempo suficiente para curtir o primeiro de seus netos, pôde embalá-lo em seus braços. Mas meus outros filhos nunca terão a chance de conhecê-la e saber quão bela e amorosa ela foi.

 Em casa com as crianças falamos muito da “mãe da mamãe”, e volta e meia eu tento explicar a doença que a tirou de nós.  Meus filhos me perguntaram se a mesma coisa poderia acontecer comigo. Eu sempre disse a eles que não se preocupassem, mas a verdade é que eu tenho um gene "defeituoso" chamado BRCA1, que aumenta terrivelmente o risco de desenvolver câncer de mama e câncer de ovário.

Meus médicos estimaram que eu tinha 87% de chance de ter câncer de mama e 50% de ovário, embora o risco varie de mulher a mulher.
 
Apenas uma fração dos casos de câncer de mama resulta de uma mutação genética herdada. Pessoas  com um defeito no gene BRCA1 têm  65% de chance de contrair a doença.
 
Assim que eu soube que esse era o meu caso,  decidi ser proativa e minimizar o risco da forma mais radical possível. Tomei a decisão de fazer preventivamente a dupla mastectomia. Comecei pelos seios porque a chance de câncer de mama era maior do que a de câncer de ovário, e a cirurgia é mais complexa.

Em 27 de abril,  terminei os três meses de procedimentos médicos que as mastectomias exigem. Nesse período, pude manter tudo isso em segredo e continuei trabalhando.

Mas estou escrevendo sobre isso agora porque espero que outras mulheres possam se beneficiar da minha experiência. Câncer ainda é uma palavra que provoca medo nas pessoas, produzindo um sentimento terrível de impotência. Mas hoje é possível descobrir com um exame de sangue se você é muito  suscetível a a contrair o câncer de mama e ovário, e assim começar a enfrentar o risco.

No meu caso, tudo começou em 2 de fevereiro, com um procedimento chamado “atraso de mamilo”, que tira a  doença nos ductos mamários atrás do mamilo e leva um fluxo extra de sangue para a área. Isso provoca  um pouco de dor e vários hematomas, mas aumenta a chance de salvar o mamilo.

Duas semanas depois, fiz uma grande  cirurgia com retirada do tecido mamário e com enchimentos temporários. A operação pode demorar oito horas. Você acorda com tubos de drenagem e expansores em seus seios. Parece uma cena de filme de ficção científica. Mas dias depois da cirurgia, você pode voltar a levar uma vida normal.

Nove semanas depois,  a operação final é completada com a reconstrução dos seios, com um implante. Houve muitos avanços neste campo nos últimos anos, e os resultados podem ser até bonitos.

Eu quis escrever  sobre isso para dizer a outras mulheres que a decisão de fazer uma mastectomia não foi fácil. Mas o fato é que  estou muito feliz por ter feito. Minha chance de desenvolver câncer de mama caiu de 87% para menos de 5%. Posso dizer a meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder por causa de câncer de mama.

É reconfortante saber que meus filhos não vão ver nada que os deixe constrangidos. Eles podem ver as minhas pequenas cicatrizes, e é só isso. O resto é apenas oi, mamãe, é o de sempre. E meus filhos sabem que eu os amo e que farei qualquer coisa para estar com eles o maior tempo  possível. Em caráter pessoal,  eu me sinto apenas uma mulher, poderosa sim porque fiz uma escolha pesada, mas que não diminui em nada a minha feminilidade.

Tenho a sorte de ter um parceirão, o Brad Pitt, que é tão amoroso e foi tão solidário. Então, para quem tem uma mulher  ou uma namorada passando por esse problema, saiba que você é uma parte muito importante nesse processo de transição. Brad estava no hospital Pink Lotus Breast Center, onde fui tratada, o tempo todo durante as cirurgias. Conseguimos até momentos para rirmos juntos. Sabíamos que essa era a coisa certa a fazer para a nossa família e que isso iria nos deixar ainda mais unidos.  E nos deixou.

Para qualquer mulher lendo isso, espero que isso ajude você a saber que você tem opções. Quero incentivar toda mulher, especialmente você, que tem um histórico em família de câncer de mama ou  ovário, a procurar se informar e a buscar os especialistas. Esses médicos podem ajudá-la nesse momento  de sua vida a fazer suas próprias escolhas baseadas em informação.

Reconheço que há muitos médicos holísticos maravilhosas que trabalham com alternativas para a cirurgia. Meu próprio caso vai ser divulgado oportunamente no site da hospital Pink Lotus Breast Center. Espero que ele seja útil para outras mulheres.

Só o câncer de mama mata 458 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde, principalmente em países de baixa renda e média. É uma prioridade implantar políticas para garantir que mais mulheres possam fazer os testes genéticos e tratamentos preventivos que salvam vidas, independentemente da forma como essas mulheres vivam ou da renda que tenham. O custo dos testes para os genes  BRCA1 e BRCA2 é de mais de 3 mil dólares nos Estados Unidos, e isso continua a ser um obstáculo para muitas delas.

Optei por não manter discrição sobre a minha história porque há muitas mulheres que não sabem que podem estar vivendo sob a sombra de um câncer. Tenho esperança de que elas também possam ter acesso ao teste genético, e que, se elas tiverem uma chance elevada de contrair o câncer, saberão que têm opções fortes de enfrentamento.

A vida tem muitos desafios. Os que não devem nos aterrorizar são aqueles que nós podemos assumir e controlar.

* Angelina Jolie é atriz e diretora.

(Tradução de Alfredo Herkenhoff_- Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 14 de maio de 2013)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Morre o dono do jornal centenário Monitor Mercantil

Com grande tristeza recebi há pouco a notícia da morte do querido colega Acurcio de Oliveira. Tive a honra de trabalhar com ele no Monitor Mercantil num sonho que ele cultuou por anos e que por uns dez meses se concretizou com a publicação diária do jornal  impresso chamado Correio da Baixada, levado de roldão na crise de fins de 2008 e na desídia da burguesia  que vive entre os 4 milhões de habitantes das 13 cidades que compõem a área metropolitana do Rio. Os ricos da Baixada não anunciaram, não compreenderam que o jornal era independente, o Correio da Baixada não estava a serviço de nenhum partido nem candidato, mas da sociedade. Foi bom enquanto durou. Acurcio enterrou ali mais de hum milhão de reais. Uma pena acabar...
 O centenário Monitor Mercantil fica agora a cargo do filho do Acurcio, o jornalista Marcos de Oliveira, que herdou as qualidades do pai e com quem também tive a honra de trabalhar ao longo daquele 2008. Meus pêsames ao colega e a todos os demais integrantes dessa bela família chamada Monitor Mercantil. (Por Alfredo Herkenhoff)

Morre Acurcio de Oliveira
02/05/2013


Faleceu neste dia 1°, o jornalista Acurcio Rodrigues de Oliveira, diretor-presidente do MONITOR MERCANTIL, aos 82 anos.
Acurcio de Oliveira comprou o jornal em 1985, tendo antes trabalhado com Samuel Wainer na “Última Hora”. Trabalhou depois na revista de arte Senhor e em um jornal esportivo.
Ficou na “Manchete” por 10 anos, mais envolvido na administração. Depois, foi para “O Globo”. Desde 1955, manteve também uma empresa de comunicação e, com ela, teve muito contato com publicações internacionais:
Segundo ele próprio, sua “experiência mais marcante foi com a Revista Forbes, para a qual trabalhei como representante no Brasil por 33 anos”.
Para Wagner Victer, presidente da Cedae e ex-secretário estadual de Desenvolvimento, Indústria Naval e Offshore, “Acurcio de Oliveira era um grande amigo que me ajudou muito. Esteve presente e ajudou o MONITOR MERCANTIL no desenvolvimento econômico do Estado do Rio de Janeiro. A retomada do setor naval teve em Acurcio, através do MM, o primeiro órgão que mergulhou de cabeça e acreditou no setor e em nosso trabalho. Lamento muito a sua ausência. Mas ele fica marcado por ser alguém que foi decisivo para o momento que o Rio vive atualmente.”
Amigo de muitos anos, Sérgio Barreto, jornalista e colunista do MM conheceu Acurcio em “O Globo”.
- Eu atuava na Redação e ele era gerente de publicidade; em geral, profissionais desses dois setores têm pouco relacionamento, em uma empresa grande, mas o Acurcio sempre mostrava simpatia com todos e era muito popular. Mais tarde, Acurcio foi para “Última Hora”, sob o comando de Ary Carvalho - na época dono do influente “O Dia”. Ocorre que Ary era também dono do MONITOR MERCANTIL, mas não parecia ter aptidão para investir nesse jornal econômico. Ao que sei, Ary lhe fez um convite para assumir o MM, que já teria sido recusado por outros. Se Acurcio abrisse mão do desafio, possivelmente Ary pensava em fechar o jornal, o que seria uma pena, devido a sua tradição e por não haver muitos jornais econômicos no país.
Ainda de acordo com o colunista, “Acurcio me contou que, com um pouco de temor e muita confiança, aceitou a dura empreitada. Com capital restrito, fez tudo o que lhe era possível para superar os primeiros meses. Pode-se dizer que, mais do que capital próprio, usou como alavanca sua respeitabilidade no mercado para tirar a empresa da inércia. Conseguiu apoio publicitário, ativou a área jornalística e, em cerca de um ano, o MM se tornou viável, após muitas noites sem dormir de Acurcio que, assim, mostrou que, apesar de seu estilo leve e descontraído, tinha muita garra e decisão. O jornal se viabilizou e, desde então, superou diversas crises, decorrentes da própria economia brasileira, com hiperinflação e várias mudanças de moedas, mas o MM seguiu em frente, ora ampliando, ora reduzindo os gastos. Um fator importante para o MM sempre foi possuir sua própria gráfica, o que solidificou a empresa, que tem duas fontes de receita: o jornal e a gráfica, que atua para o próprio MM e produz para o mercado. Nosso querido Acurcio teve uma grande felicidade, no ano passado, ao comemorar o centenário do MONITOR MERCANTIL. Agora, passa o bastão para seu filho Marcos, que já atuava há longo tempo na redação e, há algum tempo, passou a participar ativamente das funções totais do jornal, envolvendo publicidade e a representatividade na sociedade.”
Para Ranulfo Vidigal, economista e mestre em Políticas Públicas pela UFRJ, “Acurcio de Oliveira foi um grande nacionalista. Foi um defensor das idéias de desenvolvimento com inclusão social. Enfrentou todas as dificuldades por que passou a imprensa nos últimos anos, mantendo-se sempre coerente com suas ideais.”
Amigo particular da família e da empresa, o deputado estadual Paulo Ramos (PDT) disse que “manter funcionando por tanto tempo (100 anos) o MONITOR MERCANTIL, considerando as regras de mercado, é uma demonstração de compromisso com a verdadeira liberdade de expressão. Merece todo o nosso reconhecimento. É realmente uma grande perda. Vamos torcer para que o nosso MM continue da mesma forma em homenagem ao que ele vinha fazendo o Monitor Mercantil

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Romário e taxas cornuárias de ricos e famosos

COLUNA DO CORREIO DA LAPA

Neymar fica ou não fica?

 Nos últimos dias, o Galvao Bueno, o Casagrande, O Caio, o Helena e outros comentaristas esportivos parecem fazer coro defendendo a ida de Neymar para a Europa. Queixam-se da atuação do craque na Seleção. Reclamam de um suposto cai-cai, alegam que o moleque amadureceria entre clubes grandes como Barça, PSG, Milan etc. Mas o jovem namorado da Bruna Marquezine - ele só está no Brasil porque um pool de 17 grandes empresas o patrocinam - responde aos críticos com o que mais sabe: golaços, como o da noite desta quarta-feira. Neymar se livrou de quatro defensores que tentaram em vão atingi-lo à queima-roupa na grande área. Neymar inventou um espaço mínimo com rara destreza para proteger a bola e endereçá-la às redes do Flamengo, ainda bem que do Piauí. Não custa lembrar, no último amistoso da Seleção, Neymar, em apenas 45 minutos, marcou dois gols contra a pobre Bolívia.


Pato pagando o pato. Quem mandou se separar?


A Justiça mandou Alexandre Pato, de 23 aninhos,  indenizar a bela atriz  Sthefany Brito,  de 25 aninhos. Eis a conta: R$ 900 mil de uma só vez e mais 18 suaves prestações mensais de R$ 50 mil durante um ano e meio, tudo isso pra que a ex possa voltar ao mercado televisivo sem pressões nem constrangimentos. O atacante do Corinthians queria dar apenas R$ 5 mil, sem considerar que gastou só na festa do badalado casório em 2009 a bagatela de hum milhão.

Mulher também é despesa. Por isso alguns mais exaltados dizem que casamento é a maneira mais cara de transar com uma mulher de graça.


Romário e taxas cornuárias de ricos e famosos


Quando em 1995 Romário se separou da primeira de suas inúmeras mulheres, a Mônica Santoro, esta mulher, que então levava o caçula Romarinho no colo, disse chorando que não ia querer nada do Baixinho, um tostão sequer. Mas, anos depois, em 2009, Romário passou uma noite preso por atraso na Pensão Alimentícia da Mônica, uma bela grana na ocasião,  RS 80 mil por mês. Ao ser libertado da DP da Barra da Tijuca, Romário foi cercado por repórteres, mas preferiu atender a dois jovens que lhe pediam autógrafo. Assinou assim: "Romário PA".  Pois essas duas assinaturas, devido à raridade de conter as letras iniciais de Pensão Alimentícia, valem hoje uns R$ 5 mil cada. Nada mal, mas nem de longe suficiente para bancar nenhuma taxa cornuária de ricos e famosos.

Não custa lembrar, além de craque, Romário vem se saindo como excelente deputado federal, mestre em denunciar esquemas, esqueminhas e esquemões. Parabéns, Baixinho!


Só para não passar em branco, a venda do jogador vascaíno Dedé ao Cruzeiro, por R$ 14 milhões, rendeu a Romário R$ 1 milhão, Depósito em juízo. O Vasco ainda precisa honrar mais algumas suaves parcelas. 


Maratona do Terror

Com perdão da má palavra, um irmão que jogou bombas em Boston é uma besta e o outro irmão é um bosta. O palavrão é quase sempre censurado na imprensa porque a verdade quase sempre vem com letra miudinha. Cuidado com as grandes manchetes.  Nos jornais, a boa notícia quase sempre aparece de preto. Noticia boa não é notícia. A exceção é: "A Guerra Acabou". A explosão ontem da fábrica de fertilizantes no Texas é uma noticia maravilhosa, é o chamado belo horrível. Liberou mais energia do que a soma de todos os atentados a bomba cometidos no Líbano, Iraque e Afeganistão nos últimos 30 anos.  


 Coreia do Norte com bomba. Coreia do Sul com bamba 


 Enquanto a Coreia do Norte ameaça começar uma guerra nuclear, não se sabendo se isso é piada ou terror, a Coreia do Sul surpreende com música e dança. Nesta semana,  aquele cara do "Gangnam Style", aquela dança meio desengonçada, o rapper sul-coreano Psy, depois de um longo período só curtindo o primeiro sucesso mundial, lançou uma nova música. Em dois dias, o novo video do campeão do Youtube atingiu mais de 200 milhões de visualizações na internet.  


Rômulo Costa de olho nos sucessos repentinos


 No Brasil, fenômeno semelhante ao rapper Psy ocorreu com o video da música Passinho do Volante, 30 milhões de visualizações em quatro meses. Este funk carioca, também conhecido como Ai Leleke, teve os direitos comprados pelo esperto Rômulo Costa, dono da empresa de bailões Furacão 2000. Mas uma briga começou em março, quando o produtor Edimar Pedro Santana, da  Lek Produções, alegou em juízo que era o dono dos Lelekes, a garotada do Jacarezinho que canta e dança "girando, girando" com máxima alegria. Edimar alegou que era dono também da marca MC Federado, ou seja, alegou ser dono dos autores da música que toca o tempo todo em todo canto. Funk sem palavrões, o Passinho do Volante anima o comercial  recém-lançado do automóvel Classic.

Provavelmente, Rômulo Costa, que esta semana recuperou os direitos do Passinho do Volante, estará em breve pilotando essa nova beleza da Mercedes Benz.


Viva o Rio


A Lapa está voltando a ser a Lapa: reduto de grandes artistas, grandes boêmios, grandes jornais...

Por Alfredo Herkenhoff
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Paulo Herkenhoff e o MAR, o Museu de Arte do Rio

Na TV da Folha de São Paulo sobre o MAR
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http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=100762729



E no jornal:



Paulo Herkenhoff, diretor cultural da nova instituição de arte do Rio


- Você tem metas para o aumento da coleção?

PH - Eu sou borgeano, freudiano e warburguiano [referente ao historiador da arte alemão Aby Warburg (1866 - 1929)]. Parar de colecionar é conversar com a morte. O que é a pulsão de vida em um coleção é a coleção viva, continuando. Eu sou warburguiano pelas formas transversais. Estou muito interessado em livros de artistas.
Eu escrevi um artigo chamado "Pum e cuspe no museu" para lidar com os pequenos atos, para quem não entende o conceito de "inframince", de Marcel Duchamp, em que ele fala dos pequenos fatos na vida que nos atordoam, que criam diferença, que nos capturam no estranhamento.
Para isso, ele cita como exemplo o roçar da calça de veludo como um som que se dispara e nos dá uma outra percepção do mundo. Se eu não souber diferenciar um "inframince" de um barulho qualquer, eu posso achar que isso é um pum.
Da mesma maneira, se eu não estudar o informe, certos pequenos gestos, eu vou pensar que o escarro, que é origem da noção de informe, é cuspe. Aí, eu não vou entender a obra do porco empalhado do Nelson Leirner. Eu vou achar que é porco, e a obra é arte, assim como posso pensar que é arte, quando é apenas porco.
E, para terminar com Borges, ele dizia que os argentinos tinham direito a Hamlet e ao cosmos.

- Você diz que o MAR não é um museu de eventos, você acha que os museus no Brasil são muito preocupados com eventos?

PH - Não sei. Posso dizer que este [o MAR] não é um museu de eventos. É o museu necessário. Há dez anos eu quis fazer um programa de educação para atender 200 mil crianças de rede municipal e me puxaram o tapete. Este projeto aqui era para o Museu de Belas Artes. A ideia de um museu para a rede pública era de 2003.

- E por que não aconteceu, quando você era diretor do Museu de Belas Artes?

PH - Porque o dinheiro foi negado. Então qual é missão de um museu no Rio? Primeiro, colecionar. Quais museus do Rio têm missão clara? Acho que o MAM (Museu de Arte Moderna) está construindo uma visão clara, tem um programa de exposições muito importante, um programa de debates, mas não está colecionando. Sem colecionismo não existe ideia de museu.

- Qual era a ideia original? É verdade que se pensou em uma Pinacoteca, ou em um museu para guardar o acervo de Roberto Marinho?

PH - Sobre isso você nunca vai ver algo escrito, apenas intriga. Quem disse isso? Intriga é fácil fazer.

- Mas Pinacoteca era a ideia original...

PH - Não vamos misturar alhos com bugalhos. Esse é um museu da cidade do Rio para a população do Rio, pensado para a rede pública municipal de ensino. Se for bom para a rede pública, será bom para os cidadãos do Rio, e se for bom para o cidadão do Rio, será bom para os turistas. Se a gente fizer um museu que discuta bem o Rio, vai ser bom para nós e para o Rio. Esse é o primeiro ponto.
Esse museu, inicialmente, foi pensando, não por mim, para abrigar, temporariamente, coleções privadas, mas sem nenhuma conexão com os organizadores do museu. Ou seja, era um museu que parecia museu mas não era. Museu sem coleção é centro cultural. Isso foi entendido. A ideia de chamar Pinacoteca não é minha, mas o nome Museu de Arte do Rio de Janeiro é meu. Pinacoteca é coleção de pinturas, então seria inadequado. Temos que ser lógicos na escolha das palavras.
Quando se incorpora o nome museu, incorpora-se tudo que é da civilização de museus: que forma coleção, que estuda sua coleção, que registra. Nós temos trabalhos já começados a serem feitos com universidades para o estudo da coleção.
Não é um museu que tem um penduricalho de gente, mas que trabalha com muita gente. De uma universidade vêm 12 professores, o que é um trabalho de troca mútua, porque não envolve dinheiro. A universidade quer pesquisar, nós desejamos pesquisadores e é a universidade que define a pauta. Nós não vamos substituir a universidade, mas ser um espaço de reflexão.
Mais: não tem "interior decoration", não tem shopping. Tudo aqui tem sentido. Se você me perguntar sobre qualquer obra que você viu, eu vou lhe explicar porque ela está na coleção, porque ela está na exposição e porque ela está naquela posição na exposição. Eu não prego uma obra na parede sem saber que obra é essa, qual seu sentido histórico, qual é sua relação em uma exposição. Eu não faço decoração de interior e nem defendo consumo.

- Estamos em um momento no Brasil que o mercado define as relações com a arte?

PH - Quais são as notícias que mais saem nos jornais? O mercado é necessário, mas é necessário na instância própria do mercado.
Esse museu é um trabalho onde a sociedade civil participa em um eixo entre o Estado e o mercado, cada um em uma posição. Isso se chama esfera pública na teoria habermasiana. Qual é o lugar da arte na esfera pública do Rio? Quais são os museus que estão introduzindo a esfera pública, pensada como tal?
Quando eu digo que nós temos mais de 40 fundos, isso significa que nós temos mais de 40 decisões de apoiarem a constituição de um acervo para o Rio, para o sistema educacional.
Como eu disse, não é cultura do espetáculo. Não há preocupação com recorde. Eu não disse em nenhum momento o valor de uma obra. Eu não falei de raridades.
Eu digo que a incorporação mais importante no MAR é a aquisição de um Aleijadinho, o que não havia em nenhum museu da cidade. É preciso pensar o que significa uma cidade que não tem Aleijadinho e nem o está buscando, em termos da história da arte brasileira e o que ele representa no presente, como ele alimenta o presente em valores simbólicos e para a população afro-brasileira.

Há uma questão essencial no MAR que é a preocupação com o educativo, mas museus, como o MAM nos anos 1960, tiveram uma papel importante para estimular a produção artística. Existe essa preocupação aqui?

PH - Há alguns pontos que sustentam o arco da educação no MAR, entre esses pontos há um projeto de pequenos cursos profissionalizantes para adolescentes das comunidades, sem grandes oportunidades, que é como ensinar fazer moldura, montar uma exposição, ou seja, preparar jovens que possam adquirir uma profissão. Isso já está em marcha.
Depois teremos também seminários de curadoria, coordenados pela Lisette Lagnado. Isso ainda não começou, talvez no segundo semestre, ou mesmo no ano que vem. Mas a ideia é ter seminários, que durem três ou quatro meses. Primeiro as pessoas passam uma semana no Rio, depois viajam e voltam.
Depois nós vamos ter residências de artistas. Já temos autorização para alugar uma casa no Morro da Conceição, só não está sendo trabalhado agora, porque a prioridade é o processo de institucionalização.
O Rio tem uma dificuldade para criar um sistema de massa de arte e educação. Qualquer capital importante, você pega Belém do Pará, por exemplo, eles levam dez mil crianças ao Arte Pará, com monitoria, ônibus, pessoas que ajudam. Isso em Belém do Pará, na Amazônia, um lugar distante, fora do sistema de lei Rouanet.
Você vai a Porto Alegre e há uma tradição histórica. Há 30 anos eu vou a Porto Alegre, com a Evelyn Ioschpe, e há 30 anos já se trabalha lá com arte e educação.
Na Bienal de São Paulo, eu levei 200 mil crianças, um projeto de massa. E isso é muito importante. Temos dois desafios: um é como você traz, não é fácil trazer, custa dinheiro; o outro problema é como você individualiza, lidando com a massa, quais os sistemas de poder que se estabelecem e precisam ser rompidos.
O professor de arte não é o que não sabe, é o que pode. Se você diz que uma curadoria é um saber superior, você diz que o professor, que rala com a criança, não sabe. Claro que ele sabe, inclusive dar a dimensão da incomunicabilidade.
Nesse sentido, o MAM do Rio tem um trabalho importante, o [Guilherme] Vergara, no MAC de Niterói, tem um trabalho importante, a Casa Daros vai ter um papel importantíssimo. Mas cadê os outros museu? Eles não têm recursos.

- E o papel dos centros culturais, como o CCBB?

PH - É bom, mas eles têm outra dimensão. Há os centros culturais financiados por empresas, que têm uma necessidade de performatividade importante, ligado ao sistema de marketing. O banco fez 150 anos, tem uma campanha vinculada a crianças, então faz uma exposição de novos artistas. Isso não é o que a gente quer. A gente quer independência. A gente não pretende ter a maior visitação do ano.
Nós pretendemos explorar ao máximo o resultado social do custo financeiro que tem um museu. Quanto custa para a cidade produzir um museu como esse? Esse custo tem que ser defendido a cada centavo, ele tem que produzir uma irradiação correspondente. Eu sei fazer uma exposição bonita, mas fazer uma exposição que realmente signifique algo para pessoas que nunca vieram ao museu é o nosso desafio.
Como receber uma pessoa que cruza esse espaço desconhecido, que para ela é uma barreira social, já que ela nem sabe se está vestida corretamente, ela tem medo de se comportar. Isso tudo tem que ser visto com enorme afetividade.

- Mas metade da verba para o funcionamento do museu será buscado no mercado, via Lei Rouanet...

PH - Não uso esse conceito de mercado porque eu não trabalho com produtos. Nunca trabalhei com produtos. Trabalho com livros, curadorias, textos, aulas, visitas mediadas, esse é meu processo.
O mercado é muito importante, mas dentro do MAR há um grupo de empresários que vai trabalhar isso, mas não para desenvolvimento econômico, e sim para desenvolvimento social. E nós seremos avaliados por isso, por instituições como a Fundação Roberto Marinho, que tem a Vera Guimarães, que nos anos 1960 foi assistente do Paulo Freire, e já alfabetizou cinco milhões de crianças.

- Como é a estrutura do MAR?

PH - Nós não queremos uma penca de gente aqui, nós queremos abrir espaço para as pessoas. Por isso, a exposição da coleção Fadel, eu estou fazendo junto com o [Roberto] Conduru, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A exposição do Rio é feita por um professor universitário e um curador da Pinacoteca de São Paulo e professor da USP. Não se trata de criar um corpo burocrático com funcionários donos de seus espacinhos. Isso é um museu onde o pensamento é vivo. A biblioteca vai começar, em julho, com 5 mil volumes. Você tem ideia de como estão as bibliotecas do Rio? O Museu Nacional de Belas Artes tem comprado livros? Comprar livros não dá resultado político!
Eu não vou mudar o mundo, mas com essa equipe a gente pode transformar essa cidade. Eu vou trazer o [filósofo francês Jacques] Rancière, o [cineasta alemão Harun] Farocki, o [historiador francês] George Didi-Huberman, mais os do Brasil, como o Daniel Lins, especialista em Deleuze, no Ceará, isso vai transformar o Rio.
O Rio ficou à margem, o que se passa de importante no Rio de Janeiro, que realmente produza transformação? Eu sempre salvo o MAM, porque acho que ele faz um trabalho sensacional, mas o MAM não esgota as necessidades do Rio.

(FABIO CYPRIANO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO)