

O biólogo Mario Moscatelli, um dos ícones da defesa ambiental no Rio de Janeiro, desolado com os estragos que o esgoto não tratado causa nas lagoas da Cidade Maravilhosa, comentando o mau cheiro exalado das águas degradadas, fez o seguinte desabafo no seu endereço eletrônico boca do mangue, isso ai abaixo uns anos atrás, ao tempo do casal Anthony e Rosinha Garotinho:
“(...) Quando a empresa Y joga esgoto sem tratamento no rio é porrada nela, com multa, jornal etc., etc., pelo menos lá na teoria. Muito bem, agora quando é o Estado que joga merda para todos os lados em todas as lagoas e cobrando por esse "belo" serviço, tenho fazer de conta que a merda está vindo do céu? Achar que está tudo ótimo e continuar aceitando a história que a culpada foi a outra administração? Acabo de concluir que a culpa mesmo foi do Mem de Sá! Não preciso de administrador público, o que eu preciso é de fazer um centro de mesa e meter porrada no tal de Sá”.
Prossegue Moscatelli: “A situação é gravíssima na saúde, na educação, na segurança e no meio ambiente. Experimente dar uma voltinha de helicóptero sobre o canal da Joatinga na baixa-mar após a ressaca. É cheiro de podre que se sente até 330 metros de altura”.

De acordo com o ecologista, “A pergunta que não quer se calar aos biólogos de plantão é: Qual é a política de meio ambiente da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de nosso governo estadual a respeito dos recursos hídricos e ecossistemas associados ? Será que é de continuar jogando ou deixando jogar merda nos rios, lagoas, manguezais, baías e praias? Por que esse filme eu continuo vendo forçado nas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon pelo canal do Jardim de Alah, São Conrado e Barra, nas lagoas e na baía de Guanabara, Sepetiba e Ilha Grande sob as mais variadas bandeiras partidárias”.
Para Moscatelli, dando sinais de impaciência, é hora de se recorrer à justiça para “obrigar o Estado a fazer o saneamento ou deixar que alguém o faça em virtude de algum tipo de impedimento do primeiro dentro do contexto de devastação ambiental que ocorre na baixada de Jacarepaguá”.

O jovem escritor Antonio Prata, que tem sido elogiado pelos colegas craques Ruy Castro e Fernando Morais, escreveu, no site Releitura-textos, um artigo espirituoso, intitulado Privada I: o homem e sua obras (extraído do livro Douglas e outras histórias, publicado pela Azougue Editora, em 2001). Eis como Antonio Prata conclui sua advertência escatológica: “(...) Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo. Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as baratas sobreviverão”.