quinta-feira, 25 de junho de 2009

Polvo, o rei da traição, Santo Antônio. Mares e Estrelas. Ecologistas no futuro





No futuro, ecologistas num resort, restaurante natural, pedirão peixe que comeu gente. O maître perguntará: Desejam peixe que comeu carne de madeireiro? Carne de desmatador ou peixe que comeu corrupto que derramou óleo no mar? Trilhões de estrelas ameaçam os mares da Terra. No Sermão aos Peixes, ou Sermão de Santo Antônio, Padre Viera dá lições e adverte: O polvo é o rei da traição, rouba até a luz.


Peixe do Livro... A seguir trechinhos do inédito de Alfredo Herkenhoff


(...) Físicos e astrônomos estimam que o Sol brilhará ainda por mais ou menos 4 bilhões de anos, até que se esgote o estoque de hidrogênio da estrela. A Terra, portanto, numa aritmética híbrida das estimativas sobre o início da vida e o fim da luz solar, estaria na metade da trajetória de vida hoje possível. (...)



(...) Os mares têm, entre outros inimigos, eventuais visitantes do espaço sideral, marcianos de outras galáxias, meteoros. Se você multiplicar um trilhão de trilhões por outro trilhão de trilhões, ainda assim estará, provavelmente, aquém do número possível de estrelas existentes logo ali acima de nós. A olho nu, podemos ver, no máximo, de uma vez, entre 2 mil e 3 mil estrelas em noite linda. Ao todo, entre as rotações e as rotas percorridas pelos astros, cerca de 7 mil estrelas são avistáveis da terra sem uso de telescópio. Antes que tudo isso se transforme num decepcionante “você sabia?”, lembremos que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Invasores imaginários? Marcianos na mente ou no espaço tão vasto de William Shakespeare? (...)



(...) Os mares têm como ameaça, além desses inimigos estelares, astros com força siderada, as bombas de pescar, redes enormes e rastreadores digitais das posições dos cardumes.



Hoje, no Brasil, fala-se mais de caça submarina. E de caçada humana. (...)


(...) A impressão hodierna de que os ecologistas fazem só barulho, enquanto os lucros industriais e o consumismo seguem à solta, é ilusória do ponto de vista do tempo em escala geológica. A impressão vai mudar na medida em que os ecologistas se tornarem mais poderosos. As estrelas da proteção ambiental serão incensadas à condição de semideuses, pajés, conselheiros de influência internacional, mandatários de fato.



Hoje, por exemplo, a chance de se comer casualmente um peixe que comeu gente de verdade é rara, mas esses peixes ficarão menos raros no futuro. Prazer dos ecologistas mais poderosos será passar um fim de semana num resort e, no restaurante natural, pedir peixe que comeu gente. O maître perguntará: Deseja peixe que comeu carne de madeireiro? Carne de desmatador de floresta ou peixe que comeu carne de político corrupto ou dono de embarcação que derramou óleo no mar? Deseja carne de acionista majoritário de tal empresa poluidora? Ou de acionista minoritário mesmo?(...)



(...) O homem só começou a performance como serial killer da natureza, nesse palco iluminado sob estrelas, há 12 mil ou 15 mil anos, graças à estabilidade geológica e regularidade climática, com os grandes continentes de gelo concentrados nos pólos Norte e Sul. (...)


Trecho do Sermão de Santo Antônio, proferido por Padre Vieira e incluído no Peixe do Livro -


(...) Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que São Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão.

E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu (Deus marinho, na mitologia grega. Mudava de forma) são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!


Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor! (...)