terça-feira, 29 de julho de 2014

Para entender a crise na Ucrânia em 29 de julho de 2014

Deu no site lusitano Público


Opinião
Um olhar histórico-geopolítico sobre o conflito da Ucrânia

José Pedro Teixeira Fernandes
29/07/2014 - 12:51

Não é líquido até onde vai o grau de influência russo sobre os separatistas.

1. Vista a partir da imprensa europeia e norte-americana, a actual crise política e militar na Ucrânia parece ter um responsável óbvio: a Rússia de Vladimir Putin.
Não é a Rússia que fornece equipamentos militares e instiga os grupos separatistas na luta armada contra o poder democraticamente eleito de Kiev, no leste da Ucrânia? Não foi a Rússia que forneceu aos separatistas o míssil terra-ar que terá abatido o voo MH17 das linhas Aéreas Malásia? Não tem a Rússia ambições imperialistas de recuperar os territórios perdidos com o fim da União Soviética? A anexação da Crimeia não é uma prova clara dessas intenções expansionistas, tal como foi a guerra com a Geórgia em 2008? Não teceu Putin uma “rede de mentiras” como intitula a capa da revista britânica The Economist desta semana? Não é Putin um “pária” da comunidade internacional e o “inimigo número um do Ocidente”, como intitula a norte-americana Newsweek?

2. As interpretações simplistas e a-históricas de um problema complexo e multifacetado, como é a crise da Ucrânia, podem ser politicamente nefastas. Tendem a gerar uma sensação de (falso) conhecimento do problema e a dar um suposto fundamento moral para a actuação política. Todavia, tais certezas não resistem a uma análise mais minuciosa. Vamos por partes. Olhemos, primeiro, para a realidade geopolítica da Ucrânia. Estamos perante um Estado de grande dimensão para os padrões europeus/ocidentais - mais de 600.000 km2, com a península Crimeia, actualmente sob o poder de facto russo. (A fronteira terrestre entre os dois Estados é de mais de 1.500 km). Seria o maior Estado da União Europeia se fosse membro. Já a população não é muito significativa para esta dimensão geográfica. Desde o final da União Soviética que tem decrescido, rondando actualmente os 45 milhões de habitantes. Mas, neste conflito, o principal problema da Ucrânia não é a dimensão do seu território, nem a dimensão da sua população, mas a falta de coesão interna. A isto acresce um Estado com crónicas dificuldades em fornecer segurança, justiça e bem-estar aos seus cidadãos. Levanta-se, aqui, uma questão sensível: existe uma nação ucraniana com a qual a generalidade da população se identifica? É a identidade nacional ucraniana inclusiva para grupos minoritários substanciais, como os mais de 17% de russos étnicos e os cerca de 24% de falantes de russo como língua principal? Estas faixas da população sentem-se reflectidas na ideia oficial de nação ucraniana?

3. A heterogeneidade e falta de coesão interna da Ucrânia explicam-se essencialmente pela sua história. Um Estado ucraniano independente, com as atuais fronteiras, é uma realidade nova. A parte mais ocidental do país esteve ligada, sucessivamente, à Lituânia, à Polónia e ao antigo Império Austro-Húngaro. Só com os ajustamentos de fronteiras após a II Guerra Mundial esse território foi integrado na Ucrânia. Por sua vez, a parte a leste do rio Dniepre (desde meados dos século XVII) e a Crimeia (finais do século XVIII, sob Catarina a Grande), têm uma ligação histórica muito mais enraizada à Rússia. O caso da Crimeia é um exemplo disso. Em 1954, sob o poder soviético liderado por Nikita Khrushchev, passou de região autónoma da República Soviética da Rússia, para região autónoma da República Soviética da Ucrânia. Na altura, comemoravam-se os trezentos anos do Tratado de Pereyaslav, de 1654. O Tratado garantia a protecção do czar da Rússia aos cossacos ucranianos que se sublevaram e combateram o domínio polaco. Marcou o início de uma ligação política entre os dois povos, mas sob crescente domínio russo. Na propaganda soviética da época simbolizava a “amizade eterna” entre os povos russo e ucraniano. Teve consequências imprevistas. Com desmembramento da União Soviética, em finais de 1991, as antigas fronteiras das repúblicas soviéticas passaram a ser as novas fronteiras internacionais.

4. Não é só a questão territorial que explica a falta de coesão da Ucrânia. Esta resulta, entre outras coisas, das memórias de um passado, frequentemente marcado por grande violência e horrores no último século. O problema é, sobretudo, a maneira como este é lembrado e incorporado no presente. Uma parte da Ucrânia recorda a memória trágica do holodomor, a morte provocada pela fome de alguns milhões de pessoas durante o período Estalinista dos anos trinta. Outra parte da Ucrânia lembra a luta contra os nazis durante a ocupação da II Guerra Mundial e os crimes hediondos cometidos por estes, com a colaboração de parte da população ucraniana. O nacionalista Stepan Bandera, é o símbolo extremado das memórias que dividem no presente: herói nacional e defensor de uma Ucrânia soberana e independente para uns; fascista, xenófobo e colaboracionista para outros. A clivagem na selectividade das memórias do passado acompanha, grosso modo, a fractura geográfico-política entre a parte ocidental e parte leste do país.

 Vamos agora ao caso da Rússia e à sua memória histórica.

 Na Europa ocidental é bem conhecida expansão russa para ocidente, seja na versão dos czares, ou na versão soviética, feita sobretudo à custa da Polónia e dos Estados Bálticos. O que já é mal conhecido é que a Polónia, tal como a Suécia, foram grandes potências do leste europeu até ao século XVII e XVIII, com ambições imperiais. No seu apogeu de poder, atacaram várias vezes a Rússia, ameaçando a sua existência como Estado. É, aliás, isso que os russos comemoram no actual feriado nacional de 4 de Novembro, mantendo viva a memória levantamento popular de 1612, que expulsou as forças da Polónia-Lituânia. A data tinha grande simbolismo durante o tempo dos czares e foi reintroduzida na Rússia pós-soviética em 2005, como “dia da união”. Isto ocorre em contraste com a União Europeia, onde se vive uma era pós-nacional, na qual as ideias clássicas de nação, de estado e de soberania tendem a ser vistas como coisas do passado. Todavia, na Rússia atual, como noutras partes do mundo, estão bem vivas e nada indicia entusiasmo por uma via pós-nacional. Mas há, pelo menos, mais outro acontecimento que alimenta o ressentimento histórico dos russos contra a Polónia, também ocorrido num período crítico da sua história. Com o fim império dos czares em inícios de 1917, a revolução bolchevique de Outubro e o Tratado de Brest-Litovsk de 1918, a Rússia saiu da I Guerra Mundial com grandes perdas territoriais. A Segunda República da Polónia, que emergiu na Paz de Versalhes de 1919, viu na fragilidade russa uma oportunidade de ganhar território. Avançou militarmente para leste, tentando conquistar o actual território da Ucrânia ocidental e da Bielorrússia ao poder bolchevique. As suas tropas chegaram a ocupar Kiev em 1920, só retrocedendo pela contra-ofensiva do exército vermelho.

5. Tudo isto seriam meras curiosidades históricas se a União Europeia e a Rússia estivessem num mesmo tempo histórico pós-nacional. Não estão. Por isso, não é difícil imaginar como a iniciativa da Parceria Oriental da União Europeia, foi vista sob o prisma russo à medida que foi ganhando contornos palpáveis no terreno. Lançada em 2009, após a guerra da Rússia com a Geórgia de 2008 e o conflito sobre o gás natural entre a Rússia e a Ucrânia de inícios de 2009, teve como destinatários países do espaço ex-soviético: Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Geórgia, Moldávia e Ucrânia. O facto de ser promovida pela Polónia e Suécia - com o apoio entusiástico dos Estados Bálticos – deu argumentos aos nacionalistas russos para vê-la como uma manobra dos seus inimigos históricos, nomeadamente da Polónia.

A crescente presença de um poder estrangeiro no espaço ex-soviético e ex-russo, levou Putin a desencadear a contra-iniciativa de uma União Euroasiática, a partir de finais de 2011. A Ucrânia, o principal Estado em disputa, ficou no meio destas duas iniciativas antagónicas. Independentemente das intenções, a União Europeia avaliou mal a previsível reacção russa de forte oposição. Vista da Rússia, tratava-se de uma “invasão” do seu espaço de influência tradicional. Tem, por isso, a sua quota de responsabilidades na cadeia de acontecimentos.

 Por outro lado, a crise ucraniana não parece ter solução sem entendimentos pragmáticos com a Rússia. Mesmo que o poder de Kiev readquira o controlo sobre o leste do país, as forças separatistas podem transformar-se num movimento de guerrilha, com apoio do outro lado da fronteira. Se o conflito evoluir dessa forma será uma ferida permanente para a Ucrânia e um ponto de instabilidade crónica internacional.

 É compreensível a indignação europeia e ocidental subsequente à trágica queda do voo MH17, bem como a pressão política sobre a Rússia. O que é menos compreensível é a atitude política de culpabilizar unicamente a Rússia. Não é líquido até onde vai o grau de influência russo sobre os separatistas.

Nem é compreensível a falta de pressão pública europeia sobre o governo ucraniano para um entendimento de paz no terreno. A coberto da onda de indignação internacional, este parece ter aproveitado a ocasião para intensificar as operações militares. Neste contexto, a escalada da retórica de condenação e das sanções económicas arriscam-se a ser mais um passo mal calculado e a intensificar o conflito.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Pour Naomi Campbell

quarta-feira, 11 de junho de 2014

domingo, 8 de junho de 2014

Musica da Copa... In my lips In that way It's getting better







Paradise
I love you
Night & Day
I see and say
Something is there
Somewhere
in the universe
In my lips
In that way
It’s getting better
Better
Better
Better
Have a nice trip
but come back soon
cause I am down here
waiting for you
Brazilian..
American way
 I wanna drink a cup
of tea
Café
Café

domingo, 1 de junho de 2014

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um russo que nos conhece bem e rala para nos conhecermos mais


“Sou um daqueles russos que leem José Martí e Mario Benedetti no original”


Por Elena Nóvikova, da Gazeta Russa

   

Nascido em Havana, filho de funcionários da câmara de comércio soviética, Sergey Brilev é vice-diretor do canal estatal "Rossiya" e, agora, diretor do Instituto Bering-Bellingshausen para as Américas (IBBA).


O principal objetivo da organização não governamental baseada em Montevidéu é estreitar os laços entre Rússia e América Latina, sejam eles econômicos ou culturais. Para tanto, a instituição quer promover um maior conhecimento mútuo dos principais mecanismos de integração regionais dos quais esses fazem parte: o Mercosul e a União Aduaneira.

A primeira reunião do IBBA está marcada para o dia 14 de julho na capital uruguaia. Sergey Brilev falou à Gazeta Russa sobre os planos para o instituto:

Você é conhecido na Rússia principalmente por ser vice-diretor do canal estatal "Rossyia", pelo qual entrevistou Pútin, Obama, Bush, Tony Blair e David Cameron, entre outros. Onde fica a América Latina no meio disso tudo?

Realmente, as pessoas me associam mais com a agenda do hemisfério Norte. Mas não podemos esquecer de dois pontos: em primeiro lugar, a Rússia pertence geograficamente ao Norte, mas tem uma agenda mais parecida e próxima às dos países em desenvolvimento do hemisfério Sul, e compartilha pontos em comum com esses não só na economia, como até no modo de pensar. Além disso, sou, tecnicamente, um latino.

Por que tecnicamente?

Sou russo, considero-me moscovita, mas nasci em Havana e cresci entre Quito e Montevidéu.

Não foi uma escolha sua, em outras palavras...

Foi e não foi. Meus pais trabalharam na América Latina dos anos 1970 até os anos 1990. E eu sempre tive um profundo e constante interesse na região. Fiz muitas entrevistas com os presidentes de países latino-americanos: Bachelet, Chávez, Sanguinetti, Ortega, Morales, Correa e outros. Além disso, escrevi dois livros sobre a América Latina e inúmeros artigos científicos. E sim, sou um daqueles russos que leem obras de José Martí e Mario Benedetti no original.

O que é Bering-Bellinsghausen?

Bering e Bellinsghausen foram dois marinheiros russos dos séculos 17 e 19, respectivamente. Foram eles que completaram o mapa do Hemisfério Ocidental, das Américas: do Alasca à região antártica de Bellinghausen. As letras que formam a abreviatura da nossa organização, IBBA, parecem formar o desenho de um barco com asas. É preciso deixar que os ventos da contemporaneidade movam essas asas...

E quais são esses ventos?

Gostaria de citar um exemplo específico: o conhecimento da comunidade empresarial russa sobre a legislação das zonas francas do Mercosul. Mencionei o assunto durante conversas com diversos empresários russos que já operam no mercado sul-americano e percebi que eles nada sabem sobre os benefícios desses regulamentos. E a maioria deles não têm analistas especializados em assuntos regionais. Vêm para a América do Sul como para Europa ou Estados Unidos.

Por outro lado, os sul-americanos também não sabem sobre a existência da nova União Aduaneira, formada por Rússia, Bielorrúsia e Cazaquistão. Um dos objetivos do IBBA será apresentar orçamentos a empresas privadas e publicar relatórios detalhados elaborados pelos melhores especialistas nessa agenda. O relatório inicial será apresentado durante a primeira conferência do IBBA, em 14 de julho, em Montevidéu.

Como empresários que participam de fóruns como Davos não sabem sobre esses projetos?

É uma ironia, mas em lugares como Davos, russos e sul-americanos se reúnem para discutir a agenda global, mas quase não falam da própria agenda. Eles sabem mais sobre a União Eeuropeia e o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio do que sobre os projetos de seus próprios países. Falta um formato bilateral, e é preciso criar um fórum especial para tanto.

Além dos projetos voltados ao empresariado, em que áreas atuará o instituto?

Já iniciamos, em nome do IBBA, dois projetos relacionados à área de História. O primeiro será a organização de eventos comemorativos do 70º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial, e o segundo, uma conferência com historiadores russos e latino-americanos sobre cooperação durante a guerra.

Houve trabalho conjunto entre Rússia e América Latina na Segunda Guerra Mundial?

É disso que trata meu último livro, “Os Aliados Perdidos”. Mais de 50% do açúcar consumido na URSS durante a guerra, por exemplo, era importado de Cuba. Então, diziam que isso era parte do Lend-Lease, ou seja, o programa de empréstimos norte-americano, mas, na verdade, o açúcar era cubano. Outro exemplo foi a defesa dos submarinos soviéticos no Pacífico, que foi efetuada pela Força Aérea hondurenha em 1942.

Quais outros projetos serão realizados pelo IBBA?

Tentaremos estrear na América do Sul três ou quatro filmes russos produzidos pelo meu canal. São documentários de interesse geral relacionados às explorações geográficas atuais, além do filme "Stalingrado", que foi a grande estreia do ano passado e contou com a participação de grandes estrelas russas e alemãs. A legendagem está em fase de finalização.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

quinta-feira, 1 de maio de 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

Será que posso votar e eleger João Vicente Goulart presidente do Brasil?



Eu gostaria de ajudar a eleger João Vicente Goulart 
para a Presidência da República Federativa do Brasil.
 
  Eleger o filho de João Goulart seria um desagravo monumental do país pelo golpe de 1964, golpe que compreendo como consequência da polarização da Guerra Fria, consequência da radicalização das esquerdas excitadas com a Revolução Cubana, consequência da radicalização das forças conservadoras, que já tinham sido abortadas na primeira tentativa de derrubar um presidente eleito na base da mesma presunção de culpa, em 64 a invenção de que Jango fosse comunista,  em 54, a de que Getúlio soubesse  do Gregório no mar de lama, o atentado a Lacerda em Copacabana .Vingou nas duas situações o domínio do fato, como vinga agora no Supremo também sob influência de uma mídia que, já mais calejada, promove edições de olho numa possível reviravolta que tire Dilma do poder e recoloque no Planalto  quem já por lá esteve por muito tempo.

Golpe de 64 que compreendo ainda como consequência também de medo até da Igreja Católica, que do púlpito  insuflou fieis a se levantar contra o governo federal. E claro, medo de Washington de que a moda cubana se alastrasse.
 
 Nesse balanço dos 50 anos do golpe, militantes  e professores dizendo que o golpe não contou como apoio do povão, apenas da classe média e dos poderes liberais e conservadores presentes na classe política e nos grandes meios de comunicação, exatamente como hoje... Mas vejo que a massa, na ocasião do golpe, estava simplesmente alienada ou anestesiada pela mídia.  E sim, houve as passeatas conservadoras maiores em São Paulo,mas houve também em muitas dezenas de cidades, houve até no Meu Pequeno Cachoeiro...

Por isso concordo que o golpe foi civil e militar. E Jango, ao recusar a fidelidade do setor sulino do Exército, evitou um banho de sangue inútil. Nesse sentido, ele foi um herói, um herói em silêncio, como Getúlio também foi em silêncio, ao se matar de forma premeditada. A carta-testamento bem escrita, datilografada, revisada até por aquele assessor, como  é mesmo nome dele, é  Lourival?

Bem, só não vou votar em João Vicente em duas situações: Se a vitória da Dilma Rousseff estiver ameaçadíssima por essa campanha que apenas começa a rolar na grande mídia e, se, claro, o Carlos Lupi, na chefia do PDT, conseguir impedir que o filho de João Goulart saia candidato.

 
 Mas votar  nele é uma necessidade que vem do fundo da minha consciência. E nessa levada, imagino que se, milagrosamente, a candidatura de João Vicente  explodisse, como a de Barack Obama explodiu via internet em 2008, as ruas do Junho em Chamas sorririam como há muitas décadas não sorri. Sonhar não custa nada... As ruas soariam vitoriosas...

O Brasil anda meio triste, as Olimpíadas estão por um fio, o Maracanã virou um espaço fashion, não
 há mais negritude na arquibancada. Ninguém fala em enfeitar as ruas a seis semanas do início do Mundial. Tudo muito estranho. Só João Vicente parece não perder a calma, parece sim que ele herdou foi a serenidade do pai.
 (Por Alfredo Herkenhoff)