domingo, 5 de julho de 2009

Reação de Obama ao golpe em Honduras foi cautelosa

Deu na Folha Online

Por Claudia Antunes
da Folha de S.Paulo, no Rio

A reação do governo de Barack Obama ao golpe em Honduras --de condenar a deposição do presidente Manuel Zelaya, sem adotar sanções além da anunciada suspensão da cooperação militar-- foi "apropriada, cautelosa e construtiva", defende Abraham Lowenthal, veterano estudioso americano das relações entre Estados Unidos e América Latina.

Nos EUA, a posição da Casa Branca sofre críticas à esquerda e à direita.

Para os conservadores, as Forças Armadas hondurenhas agiram preventivamente após as acusações de abuso de poder feitas contra Zelaya, e Obama capitulou diante das pressões regionais, favorecendo o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aliado do presidente hondurenho deposto.

Para a esquerda, o governo Obama tenta pressionar Zelaya a fazer concessões políticas internas e com isso envia sinais aos golpistas que são ambíguos e ameaçam frustrar os esforços da OEA (Organização dos Estados Americanos) para reinstalá-lo no poder.

Lowenthal, porém, diz que "não cabia aos Estados Unidos assumirem a liderança contra o golpe, mas apoiar a Presidência constitucional".

Abaixo, trechos da entrevista feita por telefone com o professor da Universidade do Sul da Califórnia e autor, entre outros livros, de "Parceiros em Conflito: os EUA e a América Latina nos anos 90".

Folha - Como o senhor avalia a reação do governo Obama ao golpe em Honduras?

Abraham Lowenthal - A reação foi apropriada, cautelosa e construtiva. O governo deixou claro que considera a deposição do presidente inaceitável e inconstitucional, mas preferiu deixar que a OEA tomasse a liderança na resolução da crise, apoiando iniciativas de outros países da região.

Folha - Alguns críticos consideram a reação ambígua.

Lowenthal - Não acho que o governo americano tenha de assumir o papel de liderar o movimento contra o golpe, mas sim de apoiar a Presidência constitucional. Não é a mesma posição, digamos, do governo da Venezuela, que é um entusiasta de Zelaya. Acredito que a posição majoritária é a de que Zelaya deve ser reinstalado, mas que certamente há o que ser negociado em termos de sua volta. Afinal, havia uma crise constitucional em Honduras antes do golpe.

Folha - À parte o governo, haveria grupos americanos em Honduras --empresários, militares-- favoráveis ao golpe?

Lowenthal - Não acho que o país seja hoje uma arena de muitos investimentos ou de interesses econômicos relevantes dos Estados Unidos. Há conexões militares, que permaneceram depois que Zelaya se voltou à Venezuela.

Ocorre com frequência com países pequenos e vulneráveis que atores externos projetem sobre eles seus próprios interesses internos e posições internacionais. Aconteceu com os EUA nos anos 1980 em El Salvador, na Nicarágua. No caso de Honduras, Chávez vem usando a situação para avançar sua própria agenda. Isso é uma complicação a mais.

Folha - Ao final da crise, a posição dos EUA sairá fortalecida em Honduras e na região?

Lowenthal - Em Honduras, vai depender do que acontecer em termos de compromissos políticos, mas é possível.

De modo mais amplo, o fato de os Estados Unidos sob Obama estarem sendo menos arrogantes, mostrarem uma abordagem razoável, isso muda a dinâmica imediata.

Mas, se você estiver olhando para o longo prazo das relações entre EUA e América Latina, acho que as histórias mais importantes não são Honduras ou Chávez, mas os investimentos consideráveis do atual governo em mudar a natureza de seu relacionamento com o México e em construir uma parceria estratégica com o Brasil.