quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Solidariedade a José Dirceu e Genoino

Fui contra o projeto Ficha Limpa e com isso só arrumei desavença e deselegância nas ferramentas sociais. Comigo estavam os juízes Marco Aurélio e Celso de Mello; mas foram votos vencidos. Não tiveram
a audácia de considerar um brasileiro como ficha suja enquanto a ação não tiver transitado em julgado. Mas seus pares preferiam destroçar o brocardo romano do in dubio pro reo. Sob pressão da sociedade, o Supremo decidiu que bastará para ser ficha suja quando uma pessoa tiver sido condenada por um colegiado de instância inferior. O Supremo abriu mão de seu próprio direito de dizer: Roma locuta, causa finita.
O Supremo já fez muita lambança neste país e continua fazendo. Já chancelou o Estado Novo, entregou Olga Grávida aos fornos crematórios, apoiou os atos institucionais da ditadura de 64 etc e tal.

Só pra dar um exemplo do mais implacável dos judiciários de nações democráticas: A Justiça dos EUA permitiu que um assassino famoso, um negão do beisebol, ficasse livre das grades e da pena capital não por falta de provas. Toda a sociedade americana queria a prisão de OJ Simpson por matar a sua mulher, uma lourona, mas os juizes preferiram deixá-lo ao largo porque as provas contra o réu tinham sido colhidas de forma criminosa. Preferiram deixar um assassino solto do que absolver uma afronta à ordem jurídica.

Aqui no Brasil estamos vivendo o mesmo drama hoje: o Supremo por exemplo diz que juiz que absolve não vota na apenação do condenado. Uns três ou quatro ministros não votaram por exemplo a favor de uma punição mais pesada para determinado réu condenado. E os outros votos vencedores conseguiram apertadamente a condenação mais severa. Sim, quem absolve não vai condenar a uma pena específica de prisão pouco depois. Mas o simples fato de um juiz ter absolvido devia ser considerado como voto a favor do réu na dosimetria. Os votos de absolvição deviam ser computados como contra a pena maior. Ou seja, não é nem desrespeito ao in dubio pro reo que está rolando nessa Ação Penal 470, é pior: é a aceitação de convicção de inocência por parte de um magistrado como causa subsequente de aumento da pena de prisão.

 
 José Dirceu nos anos 60
Para a Judiciário alemão, Hitler era inocente enquanto mandava exterminar nossos irmãos judeus em1939. Para o nosso Judiciário, o Poder Executivo era legitimo enquanto José Dirceu arriscava a vida matando e vendo amigos morrerem em nome de idealismo político nos estertores do comunismo soviético, e tudo isso num momento em que a grande mídia apoiava o operação militar que empalmou o poder na marra.

José Dirceu blindou Lula no Mensalão. Foi blindado por Delúbio e por Pizzolato. Mas o Supremo, diante do fracasso da Mídia em mostrar que Lula sabia do esquema, optou por sancionar de novo os tubarões da imprensa e condenar na base da presunção, base dos indícios. O Supremo abriu mão, como no caso do projeto feicibuquiano da Ficha Limpa, de mais uma máxima romana e universal: o que não está nos autos, não está no mundo do Direito.

Barbosa, ungido a herói, já lançado a candidato presidencial, prefere tratar da coluna nos melhores hospitais da Alemanha. Para ele e seus pares, o SUS é coisa nossa. Para mim, Barbosa, sim, no uso de suas atribuições, tem se excedido no linguajar, constrangendo seus pares, mesmo aqueles que acompanham o seu voto sempre inclemente, aparentemente eivado de ressentimentos históricos. Sem nada de pessoal, Barbosa está me saindo um verdugo, um capitão de mato ao contrário, caçando e humilhando o maior amigo de Lula como se José Dirceu fosse um bandido comum.

Napoleão dizia que pra ganhar uma guerra você precisa de três coisas:dinheiro,dinheiro e dinheiro. Um coronel baiano dizia: em política não existe crime,só existe eliminação de obstáculo, que pode ser1: a lei, que se burla, e que também condena. 2: a imprensa, que denuncia o escândalo, e 3: o candidato adversário.

Zé Dirceu não está sendo condenado pela legislação brasileira, mas pela imprensa que incensa a presunção de culpa em detrimento de uma Justiça Universal. Por tradição, nosso Supremo prefere ficar sempre bem ao amparo de algum tipo de poder, ora do Poder Executivo, ora da grande mídia.

Pessoalmente, creio que Dirceu sabia de tudo o que rolava. Mas ele estava fazendo a guerra suja da política, não estava assaltando nenhum cidadão na esquina nem brincando de fazer a política limpinha no ar refrigerado dos Três Poderes. Ele estava ajudando Lula como nós, eu e a maioria, fizemos dando-lhe o segundo mandato e aceitando Dilma como a melhor delfim. Milhões de pessoas deixaram de morrer de fome ou de outra míngua qualquer graças à ação desse belo porra-louca chamado José Dirceu.

O linguajar quase ininteligível que os ministros usam entre si dá bem a dimensão de quão distantes estão da realidade das ruas. Por presunção, poderiam ter condenado também Lula, o Metalúrgico. Mas não tiveram culhão ou não quiseram superar (PF e MP) a blindagem heróica que José Dirceu armou para o maior líder brasileiro dos últimos tempos.

Na guerra suja da política, Nixon se envolveu com meia duzia de cubanos pra arrombar o escritório do concorrente Partido Democrata em Washington. Impeachement à vista, Nixon renunciou. Mas teve antes a humildade de ir a Pequim reconhecer a liderança de Mao e a humildade de sair derrotado do Vietnam ao som do ricocheteio das metralhadoras que Moscou enviava a Ho Chi Min. Hoje Nixon é homenageado em todas as universidades americanas.

De público declaro a minha solidariedade a Dirceu e Genoíno. O componente político falou nas tecnicalidades desse Supremo com um histórico de execrável tradição, tanta absolvição e tanto omissão diante de verdadeiros verdugos da população pobre do Brasil.

Temo que, embora não seja nossa tradição, que o raro caso de Getúlio possa estar prestes a novamente acontecer na esteira do Mensalão: sangue, suicídio e mar de lama, honra e homenagens da História. Não da parte de Dirceu, que prefere morrer matando a sair da luta. Mas da parte de outros levados de roldão nessa forma enxovalhada de promover justiça de ocasião.

Antevejo num futuro não muito distante o nome de José Dirceu sendo homenageado como um político brasileiro, com um pouco de Maquiavel, um pouco de Roberto Jefferson, um pouco de Policarpo Quaresma, e quase nada de Dom Quixote. Sim, prós e contras, mas um homem que ajudou Lula e o povo mais pobre que todo dia sofre os maus-tratos da classe governante. legisladores, executivos e magistrados. Um homem que ainda será estátua, um homem, mais um raro que não foge à luta.

Por Alfredo Herkenhoff

Cinco lições nesse início do escândalo sexual envolvendo o general Patreus

Frida Ghiti, colunista do The Miami Herald and World Politics Review e ex-correspondente da CNN, autora do livro "The End of Revolution: A Changing World in the Age of Live Television", escreveu artigo sobre o escândalo sexual que derrubou o general David Patreus da chefia da CIA e no qual ela faz cinco resumos das primeiras lições de um caso do qual pouco ainda sabemos, enquanto detalhes vão surgindo e prometem animar a mídia nas próximas semanas ou meses. Eis as cinco pensatas de Frida:



                   O general e sua biógrafa e amante Paula Broadwell



 1 - Homens poderosos, não importa quão brilhantes e talentosos sejam, podem sofrer de uma forma de insanidade temporária causada pela interação entre a arrogância e a libido.

2 - Qualquer coisa que você escrever num e-mail poderá ser usada contra você.

3 - O FBI pode investigar praticamente qualquer pessoa nos EUA, até mesmo o diretor da Central de Inteligência.

4 - Os americanos estão profundamente divididos sobre a questão da moralidade na vida pessoal na esfera pública.

5 - Um escândalo sexual calliente vai produzir um caminhão de manchetes de primeira página, num momento que o desafio mais imediato do novo mandato de Obama é o "abismo fiscal", um tema árido e velho que fará com que a maior parte da população americana mude de canal ou vire a página .

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Gonzagão não era o pai biológico do Gonzaguinha

Gonzaga é 
mesmo 
universal!


Sobre o filme De pai pra filho

Belo e comovente,

mas com falha de

verossimilhança

 

Por José Nêumanne Pinto

A fila à porta do cinema em que é exibido o novo filme de Breno Silveira, Gonzaga, de Pai para Filho, é um excelente sinal. Ídolo da diáspora nordestina pelo Brasil e pelo mundo, o Rei do Baião, que conheceu a glória na carreira quando introduziu no mercado fonográfico e nos meios de difusão o cancioneiro do semiárido e inventou a música regional nordestina, mas caiu no ostracismo sob os reinados da bossa nova e do rock, volta no ano do centenário do nascimento a interessar e comover o grande público.
O aviso dado no começo da projeção - “baseado em fatos reais” - avisa honestamente ao espectador que aquele não é um documentário nem uma biografia, mas uma narrativa que tem como ponto de partida a vida de um astro - mais do que isso um dos pilares da Música Popular Brasileira. Trata-se da filmagem da história pungente de amor e rejeição entre pai e filho, este também um compositor e intérprete talentoso e popular. O rei fundou uma estética de raízes fincadas no solo seco do sertão e com público nostálgico da cultura original. O príncipe não pode ser considerado herdeiro porque sua obra tem fontes urbanas e público cativo e apaixonado, criado em apartamentos de classe média na metrópole.
A fita mostra a difícil reconciliação do filho sempre relegado a segundo plano pelo pai pródigo em proteção material, mas avaro em afeto. Há insinuações de que nas veias do filho pode não correr o sangue do pai. Este constata a dúvida à própria mãe, que não a contesta. Depois Helena, mulher de Gonzaga, faz uma pergunta sem resposta: como ele não repete em seu ventre o milagre da concepção com o qual fora abençoado o da mãe de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, herdeiro até do nome do rei?
Aí se revela uma falha de verossimilhança: Gonzaguinha não podia ser filho biológico de Gonzaga, que era estéril. E sabia. A biografia factual é outra história: o sanfoneiro em começo de carreira se apaixonou pela dançarina das boates da Lapa carioca a ponto de perfilhar o rebento dela, dando-lhe o próprio nome, que se tornaria famoso. A moça, Odaléa, morreu e obteve do artista o compromisso de cuidar da sobrevivência do filho em sua ausência. Mesmo sabendo que não era o pai, o sertanejo cumpriu à risca a promessa e financiou o “anel de doutor”: Gonzaguinha se formou em economia, mas nunca exerceu a profissão. Gonzaga deu o filho para a comadre Dina criar e tentou forçar o convívio dele com a madrasta, Helena, mas Gonzaguinha optou por ficar no morro de São Carlos no lar em que foi criado.
O filme é belo, pungente, chega a comover. Mas a verossimilhança falha cria problemas para o roteiro. O Rei do Baião não foi um pai ausente e insensível, mas um provedor atento, embora frio. Essa falha gera uma certa dificuldade para compreender a reconciliação. A onda da bossa nova e a febre da Jovem Guarda tiraram Lua das paradas e o astro chegou a viver em dificuldade. Foi salvo pela amiga Tereza Souza, que fez dele protagonista de campanhas das sandálias Havaiana no Nordeste e pelas atenções que recebeu de Caetano Veloso e, principalmente, Gilberto Gil, negro e sertanejo como ele.
O talento de compositor e intérprete e o carisma popular de Gonzaguinha pegaram Gonzaga no contrapé. Ele não contava com isso: um herdeiro em cujas veias não corria seu sangue. Mas foi humilde para reconhecer o talento artístico do moço que ele tentou fazer doutor. Vida de viajante, o velho sucesso de Hervê Cordovil na voz do pai, tornou possível na voz dos dois a entrada do mais velho no palco do mais novo. É bom que as plateias lotadas do Brasil se reencontrem com o autor de Asa Branca sob os holofotes do criador de Explode Coração. No escurinho de cinema os egressos do semiárido bebem a seiva de sua raiz e os cidadãos urbanos se deparam com a beleza rústica da cultura sertaneja. É importante que o Brasil das cidades se reconcilie com os grotões rurais de suas origens. Mas talvez seja conveniente lembrar que a obra, embora bela, nada tem de biográfica.

(Publicado na página D3 do Caderno 2 do Estado de S. Paulo 
 de terça-feira, 6 de novembro de 2012)


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Nara Leão e um erro de identificação de foto na revista Veja


NARA LEÃO
ROBERTO MENESCAL
MIGUEL BACELLAR
E
MARCO ANTONIO BOMPET...


 ERRO DE IDENTIFICAÇÃO NA FOTO DA VEJA DESTA SEMANA:

Foi com surpresa e susto que me deparei na edição desta semana da revista Veja com uma foto da Nara Leão feita nos anos 80 durante uma excursão ao Japão em que a cantora aparece acompanhada do meu amigo Miguel Bacellar e do Roberto Menescal. Miguel, porém, foi erroneamente identificado como Marco Antonio Bompet, namorado da artista capixaba, mas que nunca foi a Tóquio com Nara.




Miguel Bacellar Chaves, de quem comprei aquele famoso Corcel quando trabalhamos na Polygram (botei a história aqui na internet outro dia), era e é até hoje assessor de produtores musicais e artistas da melhor MPB.

Nara Leão era a grande amiga do Miguel Bacellar, como até hoje ele é amigo do mestre Menescal. Eu não exagero ao dizer aqui que Miguel, Nara e Menescal formavam uma trinca de amigos. Aliás, quem dizia que formavam uma trinca era o próprio Menescal, ele como diretor da Polygram, ela como uma das estrelas da gravadora e Miguel como uma espécie de pau pra toda obra.


Pelo intenso convívio com Menescal e Nara – os dois eram vizinhos em apartamentos térreos com um jardim em comum em Ipanema –, Miguel foi, durante os últimos anos de vida da artista capixaba, talvez o amigo mais constante, mais presente no dia a dia da Nara, que lhe permitiu viver situações maravilhosas e outras profundamente difíceis, como ser a primeira pessoa a saber que ela tinha um enorme tumor no cérebro.


Graças a Nara, Miguel pôde conhecer Ásia, Europa, América do Norte e do Sul num tempo em que viagens internacionais não eram tão banalizadas como hoje.


Depois que acabou o casamento com Cacá Diegues, Nara teve dois grandes amores: o Paulinho Gentileza, que morava em Brasília e, segundo Miguel, era uma pessoa super extrovertida, e depois teve o Comandante Bompet, oficial da Marinha, hoje almirante reformado. Ele era, sempre segundo Miguel, um boêmio apaixonado por música e em especial pela Bossa Nova. Bompet era fã incondicional de João Gilberto.


Nara ficava muito surpresa de estar namorando alguém das Forças Armadas e sempre falava pro Miguel que gostaria de ser um inseto para poder ver o seu amor no quartel. Imagem estranha na voz delicada da dona do joelho mais encantador da Bossa Nova.

Menescal está prestes a completar 75 anos de idade e vai fazendo um show comemorativo... Se Nara estivesse entre nós, estaria lá com Menescal e Miguel... E estaríamos todos mais felizes...

Você concorda comigo?
 
Por Alfredo Herkenhoff
Rio de Janeiro, Correio da Lapa, 25 de setembro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Samba do Bellini, um dia histórico no Rio de Janeiro



AVISO IMPORTANTE sobre a festa deste sábado, 22 de setembro de 2012: Eugênia  Rodrigues (foto), editora do melhor site de samba no país, o Agenda Samba & Choro, é a jornalista - mulher - que mais está por dentro do melhor samba feito hoje no Brasil. E ela está promovendo como ninguém a mega-roda de samba batizada como Samba do Bellini. Mas eis que ocorreu agora na tarde desta sexta-feira o seguinte: a carnaval da paz, marcado para rolar amanhã entre 13h e 17h, vai ser ampliado, isto é, antecipado, porque a TV Globo, via RJTV, vai dar flash ao vivo. E como o telejornal vai ao ar ao meio-dia, Eugênia pede aos mais animados que cheguem por volta das 11h, porque a televisão vai começar as filmagens às 11h30. Ah! A Band já deixou claro que  também vai comparecer. O site da Rede Bandeirantes também está badalando o evento histórico contra a violência no futebol brasileiro.

 Para quem não é chegado ao futebol, explico: a estátua do jogador Bellini (comemorando com a taça erguida a conquista do Mundial) fica diante do portão principal do Maracanã, que está em obras. Essa estátua há décadas serve como ponto de encontro de torcedores, pessoas amigas, casais de namorados etc. Muitas pessoas se conheceram ali, muitas também se separaram por ali... 

 Zagueiro vascaíno,  Bellini era tido como o jogador mais bonito da Copa de 1958. A família do craque estará presente neste sábado. Já são cerca de 50 artistas com presença confirmada. E no Facebook, só hoje cerca de 100 pessoas confirmaram presença, o número vai logo bater nos 300.
  
O evento é histórico por configurar um protesto musical contra torcidas organizadas para o crime em diversas capitais brasileiras. O evento tem apoio das autoridades, mas nada de partidarismo. A única condição, como mero gesto de civilidade, é que os convidados compareçam com a camisa de seu clube de futebol. Assim, em vez de brigas, haverá beijos e abraços, música e alegria, e os brigões de longe pela TV verão que estão com os dias contados. A cidade não os aceita. 

 Como o evento é de apoio ao Rio de Janeiro, e de apoio ao próprio futebol brasileiro, as autoridades locais estão garantindo a ordem total, a paz carnavalesca com samba. Espero que não tenham esquecido de duas coisas fundamentais: um bom sistema de som e banheiros químicos. O pessoal do Cordão do Boitatá é bom nesses lances de show a céu aberto com ritmo de múltiplas rodinhas de gente alegre e feliz cantando o melhor do Rio. É necessário um som com bom volume para que as pessoas possam ouvir, papear, dançar, enfim, numa mega confraternização.
  
Paulinho da Viola, Martinho e Zeca ainda não confirmaram presença. Não precisam confirmar, tudo vai depender da agenda de cada um. O que sei é que estrelas irão se apresentar rapidamente e rapidamente vão se misturar aos cidadãos comuns, em rodas de bate-papo... A lista de artistas convidados é bem grande. Quem quiser ver, vá no endereço “Samba do Bellini” no Facebook.  
  
 Se chover amanhã, vai aparecer camelô vendendo guarda-chuva chinês a exorbitantes dez reais. Se fizer sol forte, leve protetor solar número 15, 25 ou 50. Chova ou faça sol, o carnaval da civilidade vai rolar neste sábado...

 Eu já soube que serão oferecidas verdadeiras iguarias de botequins e pousadas, com participação de cozinheiras baianas de primeira linha operando em alguns points gastronômicos do Rio de Janeiro.

 Quem gosta de carnaval do tipo família, tipo Cordão do Boitatá na Praça 15, vai gostar da festa em torno da estátua do Bellini, porque é mais ou menos isso o que vai rolar. Só que na base do samba, o melhor samba que se fez e que se faz no Brasil.

 Os organizadores do evento precisam ficar bem antenados com as autoridades e com algum possível plano B caso o evento cresça excessivamente nas próximas horas. Por plano B entenda-se: seguranças não só em torno da estátua, mas nas proximidades...  

Por Alfredo Herkenhoff, Correio da Lapa, 21 de setembro de 2012
Rio de Janeiro

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fifa 2014 Copa ganha mascote escroto - uma análise

MASCOTE ESCROTO, misto de um Topo Gigio japonês com um Kiko amigo do Chávez, mexicano balofo, e ainda querem apelidá-lo de Amijubi, Fuleco ou Zuzeco, estes dois últimos palavrões à guisa de saudar o meio ambiente através do sufixo “eco”.
Eca! Que nojo!
 
Este ai pode ter qualquer nome, molambo, maracutaia, balacobaco, babaquara. escrotinho. Isso aí tá mais parecendo resultado de política de jurados em concurso de Miss Pior Desenho. Tatu Bola é o caralho, um horror...

Um mascote brasileiro tinha de ter qualidades macunaímicas, o herói sem nenhum caráter. Tinha quer ser intrinsecamente tanto o masculino quanto p feminino, tanto o preto, quanto o branco, uma coisa bem brasileirinha, bem universal.

Sugestão de nomes? Mas com este design aí da foto não há solução... Mas eu preferiria nomes comuns a todos os gêneros como Alcione, Darcy, Pereira, Pereirinha, Pereirão... Ou mascotes com nomes mais sofisticados remetendo a nosso cancioneiro ou às nossas artes, um mascote chamado “Beleza Pura”, “Alegria”, “Diadorim”, “Deita-e-Rola”. “Bom-de-Bola”, “Vamos Nessa”... Enfim, um nome bacana qualquer, não esses palavrões neologísticos que envergonham a terra de Hélio Oiticica, Lygia Klark e Pape, Beatriz Milhazes, Vik Muniz e outros bambas. Aliás, ”Bamba”, outro nome bom.... 
 
(Por Alfredo Herkenhoff, Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 18 de setembro de 2012)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Como foi o primeiro dia da ArtRio 2012... Uma festa!


O primeiro dia da

 ArtRio 2012

!
SHOW
!

Texto Alfredo Herkenhoff
 Fotos de Ed Sartori


Presentes na abertura da ArtRio pessoas incríveis, entre famosas e anônimas, todo mundo muito bem vestido, cariocas, brasileiros e estrangeiros. Elegância a dar com o pau...

 Luciano Huck sem a sua Angélica e sem ninguém a lhe pedir autógrafo ou a lhe encher o saco, como apenas mais uma estrela no meio de 5 mil brilhando no primeiro dia da segunda edição da grande festa carioca das artes visuais.

O técnico Carlos Alberto Parreira, que nas horas vagas é pintor, chegou e foi direto pro primeiro Armazém, aquele que fica mais perto da Praça Mauá, e é naquele espaço que estão digamos as obras mais clássicas, as telas mais caras. 

De A a Z, todos os grandes saudosos pintores brasileiros do Século 20 presentes, de Di Cavalcanti a Guignard, de Pancetti a Iberê Camargo, um luxo só. 

 
Painel de galeria dentro da Feira de 2012

 Mas a peça mais valiosa sem dúvida era uma viva, que ficou lá o tempo todo neste primeiro Armazém, ficou recebendo artistas, amigos  e curiosos. É o marchand Jean Boghici, mas uma fênix renascendo das cinzas do nosso colecionismo.

A feira em sua segunda edição mais que triplicou com relação à do ano passado. Ontem foi das 16h às 22h. E foi bem bacana o lusco-fusco, o anoitecer, as luzes naturais da cidade, do mar da Baía de Guanabara, barcos pequenos e grandes singrando as águas, a silhueta da Ponte rio Niterói... Depois as luzes noturnas, uma beleza, charme no ar.

O casseta de la Peña, o Ruy Campos da Livraria da Travessa, o casal de curadores Rafael e Rafaela Correa, a produtora Suzy Muniz, artistas como Iole de Freitas, Antônio Dias, Nelson Félix.... Equipes dos grandes jornais como Globo e Folha, a jornalista-curadora Daniela Name, coleguinhas de imprensa a granel....

A secretária estadual de cultura do Rio, Adriana Rattes...  Emílio Kalil, o secretário municipal de cultura do Rio, também presente...
Ao contrário do ano passado, o prefeito Eduardo Paes não compareceu na abertura. Mas não foi por falta de apoio, muito pelo contrário, foi pela campanha para a reeleição certa. Podia ter ido. Não ganharia nem perderia voto.

 Curioso é que a Feira de Arte, embora evento privado, conta com grana pública, municipal e estadual, conta com apoio até federal. Mas por ser algo particular, um compra-e-vende, a feira não tem pruridos democráticos ou corporativos.  Noutras palavras, a feira decide quem estará à venda... 

 Assim, artistas cujas peças não puderam ser exibidas na ArtRio devem ter ido lá não com inveja, que eles  se sentem todos como gênios, mas com raiva da tal comissão avaliadora de quem entra e quem não entra.

Galerias importantes que foram convidadas no ano passado e fizeram desdém estão presentes na edição de agora. Algumas tiveram de pagar  por seus estandes, algumas ainda contempladas por convites generosos.

Curioso que vários grandes eventos no Rio dos últimos anos têm tido lideranças femininas, como a Fashion Week, aquele lance lá no Forte em Copacabana na recente cúpula ecológica... E assim acontece  com a ArtRio, tendo à frente a Elisângela Valadares e a Brenda Valansi, ambas estão de parabéns, sem nenhum demérito pros seus novos e dinâmicos sócios do sexo oposto... o Alexandre... Sei lá mais quem... O Bradesco, o grand monde... O Sistema Globo... A ArtRio já deixa a feira de São Paulo comendo poeira. 

Performance na ArtRio: mulher é sempre mulher

Uma ausência notável no primeiro dia foi a do colecionador e marchand Cláudio Valansi, que também está de parabéns porque sempre foi um homem de feiras e porque sempre defendeu a ideia de que o Rio de Janeiro merecia o que agora tem. E a ArtRio tem o dedo do intrépido e meio porra-louca do nosso querido Valansi. Me disseram que ele está em Miami... Sei lá...

 No ano passado, a ArtRio abriu num feriado, e sobrou elogio por isso. Desta vez inaugurou numa tarde de quarta-feira comum. Daqui de casa em Botafogo até a Praça Mauá, de táxi, foram 55 minutos de engarrafamento. Porra... Assim não dá...

  Mas a data escolhida, ontem, foi excelente. Ah! Sim, havia o feriadão da semana passada, mas os organizadores não queriam nem essa concorrência da possibilidade do ócio ou do passeio do 7 de Setembro. A data é ótima porque está coincidindo com a Bienal de São Paulo. Então as duas maiores cidades do Brasil estão em chamas, um frisson no ar, nunca se viajou tanto artista entre as duas metrópoles.  Estava todo mundo lá ontem no cais do Porto. Gente que faz. Gente criativa do Brasil inteiro.

E a sofisticação reflete a força da ArtRio, com a presença das melhores galerias do Brasil, das Américas e da Europa.  Tenho certeza de que a terceira edição vai abarcar ainda mais excelência, a Ásia em maior peso vindo por aí...

 A ArtRio, e ouvi isso de gente categorizada, já não fica nada a dever à Bienal de São Paulo, apesar de propósitos distintos.

 A partir de hoje até domingo, 30 pratas pra entrar. Creio que os organizadores poderiam pensar, nas próximas edições, em ampliar  o prazo de exposição e oferecer possibilidades de visitas agendadas de estudantes a custo zero, claro, essa  adolescentes e jovens especiais seriam selecionados nos meses antecedendo à exibição comercial. Isso porque, além de ser um negócio, a feira é cultura pra caralho.

 
Mulata de Di 
Por ser negócio, a ArtRio não tem pruridos com as mazelas sociais de nossa formação histórica. Ela convidou pra inauguração artistas, jornalistas, intelectuais e gente rica. Das mais de 5 mil que passaram por lá, não havia nenhum negro, como diria e como disse Nelson Rodrigues se referindo à passeata dos 100 mil em 1968. Pra não dizer que não havia negros na feira, esclareço com detalhes:  não havia nem mulatos no cais do porto. Vi três negros e um mulato, digamos assim. Vi duas negras e duas mulatas. E pensar que na Baixada Fluminense tão próxima, na nossa Zona Metropolitana, existem 3 milhões 900 mil brasileiros em 13 cidades, ali  os negros e mulatos perfazendo 70% da população. Sim, você pode dizer que estou exagerando. Talvez houvesse 15, 20 negros. A negritude não estava. Não por culpa da comissão avaliadora com a Juliana Cintra... Esta mulher, a todo-poderosa julgadora, tem critérios para o comércio, não panaceia pra escândalos coloniais.
 
 Salve Mary! Salve Zuenir! O elegante casal Ventura me acenou sorrindo e seguiu entre obras de arte. Que festa, o Rio é uma festa!

Romero Brito, sempre com camisa vistosa da Seleção Brasileira, deu o ar de sua graça. Mas não vi nenhum Monteiro de Carvalho ao lado dele.

 Tunga, sempre forte. Vik Muniz na área, sucesso de mídia. Mas verdade seja dita, embora elite, havia poucos globais na ArtRio. Tenho um palpite: esse pessoal de novela é meio tosco, faz pastiche de Nelson Rodrigues, ganha as massas na Baixada, mas não faz sucesso nenhum nas artes plásticas. Repito, Luciano Huck era um ilustre famoso anônimo. Ele deve ter se sentido muito bem por poder andar no meio da multidão de estrelas sem ninguém a lhe dizer Loucura! Loucura! Loucura!

Sergio Cabral e Sérgio Cabral Filho também não foram na estreia. Mas a família no poder apoiou a já poderosa ArtRio.

Guga Ferraz, Paulo Roberto De Sancti, Carlos Vergara, Waltércio Caldas, Marcio Doctor e Márcio Botner, quanta gente fina! Bruno Miguel, Affonso Costa, Jorge Coli, Franklin Pedroso, Robson Outeiro, Damasceno, os irmãos Augusto e Paulo Herkenhoff...

Fotógrafos se destacando em vernissages como os colegas Ed Sartori (autor de todas essas fotos, todas tiradas dentro da feira ontem, incluindo esta em que ele aparece de chapéu num ambiente vermelho - diante de um espelho - com um bela mulher chamada Fernanda Figueiredo) e Odir Almeida, este seguramente uma referência no mundo das artes plásticas. No Brasil inteiro, é Odir o detentor do maior acervo documentando os principais artistas nas tertúlias  visuais.

Ed Sartori e sua amiga Fernanda curtiram as chamadas obras comestíveis, feitas de balas e doces

Cumprimentei o percuciente Miguel Sayad, mas não vi a sua sócia, a querida Martha Pagy. Também, com tanta gente e tanta arte, ninguém vê tudo nem todos. Mas a ArtRio tem aquele clima gostoso e chique que La Pagy imprime na galeria Largo das Artes no esplendor histórico do Largo de São Francisco... Mas só que na área portuária tudo se dá em escala mega... E o trottoir geral no calçadão entre os armazéns e o trilho do cais... Meu Deus! É ali onde todo mundo se encontra, sorri e desfila elegância entre goles de vinho e água...

 E falando nisso, nessa coisa mais fashion, o que vi de sapato e roupa custando mais de mil dólares pisando aquele chão de estivadores não está no mapa.  Pra não dizer muito mais sobre elegância, entre as cerca de 5 mil pessoas, vi um único cara de bermuda e um outro pior ainda, de sandálias havaianas. São Paulo merece isso: tripudiar dos cariocas, esses “sandaleiros”...

 E falando em Sampa, não vi ontem nem o Ricardo Boechat nem seus amigos Peninha, o Bergamin, e o Fernandão Carlos de Andrade da Bolsa de Arte. Ah! Esses marchands! Mas Boechat, querido irmão, convence a tua Veruska e as filhotas caçulas a fazer um tour na ArtRio...

Vi uma elegante diretora do Museu do Açude, a elegantésima Vera Alencar, vi o papo de Iole de Freitas com Illana Strozemberg e Luísa Duarte ao lado dela... Sim, ao lado da Vera, a rainha do legado operístico de Castro Maia no meio da Mata Fechada no Alto da Floresta da Tijuca...

O crítico-curador Paulo Sérgio Duarte sóbrio, con quel giusto orgoglio della famiglia...  Luisa revelou ao microfone: lá em Milão ele se chamava André, coisa da ditadura, os anos de chumbo... Muito bom o papo da jovem La Duarte sobre a Iole, por sua vez com uma fala  extremamente racional em seus deambulares do fazer fenomenológico. Illana Strozemberg escorando  a empreitada, o desenho editorial de uma trajetória.  Ouvi integralmente os 50 minutos da mesa-redonda. Depois comprei o livro da Iole, saído da gráfica horas antes, chama-se “O desenho da fala”, 220 páginas, muitas fotos, 40 pratas. Eu e mais duas pessoas queríamos um autógrafo. Mas um velhinho, na minha frente, ao pedir a dedicatória a sua amiga Iole, ouviu da artista: querido, hoje não assino nada. Eu saí pela tangente. 

 Escultura ambiente de Iole de Freitas, monumental
 Parabéns para  a Suzy, baiana porreta, caprichosamente miscigenada de carioquices e volteios  capixabas, bela, era ontem só felicidade com o sucesso dos últimos lançamentos como este livro da Iole, que repetiu agradecimentos de público à  Suzy Muniz Produções...

Sim, nem tudo foi nota dez. A fila pra consumir água, café ou álcool foi show de incompetência no primeiro dia. Uma long neck ou latinha a oito reais, tudo bem, podia custar dez, não faria diferença. Mas água a cinco reais é deselegante. A água podia ser de graça. Curioso, a fila era de uns 15 minutos só pra comprar a ficha, pro atendimento, não, não havia, era rapidinho depois de pagar... 

 
Alfredo Herkenhoff diante de painel fotográfico, brincando como se estivesse num helicóptero voando acima da ArtRio

Não vi o professor Henrique Antoun nem o nosso amigo comum, o físico e poeta Luiz Alberto Machado.  Este colega, há cerca de dois anos, me ajudou a vender uma tela chamada O Mastro, do pintor José Paulo Moreira Fonseca. Quem comprou foi o filho do saudoso pintor, pagou um terço do valor do mercado para recuperar uma pequena joia da família. Fosse outro o interessado, eu não me teria desfeito daquela bela marina com riqueza pictórica de nuvens espelhando o mar, quadro pequeno, uns 40 por 50, não me lembro, mas guardei foto no meu computador.

 Aliás, eu não coleciono objetos, eu coleciono memórias. 

Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2012 









segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Incêndios em favelas de São Paulo, CPI do Nero

Mais um hoje... Cinco incêndios em favelas de Sampa nos últimos 30 dias. Cerca de 200 em um ano. A CPI das Favelas incendiadas, criada há cinco meses, não faz nada. E a cidade que não pode parar ergue uma torre de 50 andares por mês. Tem-se a impressão de que a fúria da ganância no setor imobiliário segue a mil por hora na linha do Imperador Nero... Por que noutras metrópoles não ocorre essa loucura de queimar centenas de barracos todo mês? Queimar chama menos atenção do que expulsar como fizeram com 5 mil pessoas na favela do Pinheirinho em São José dos Campos...? Tô cabrero com essa coisa. Onde tem fogo... tem São Paulo!