terça-feira, 10 de março de 2009
O CORREIO DA LAPA PRECISA DE VOCÊ
O Correio da Lapa tem DNA de blog no sentido blogspot da imposição Google, mas não é blog, é uma tentativa de leitura e produção compartilhadas, de ritual que enriquece e faz bem aos participantes. O Correio da Lapa nasceu com a idéia de se tornar um jornal traficional, nasceu há uma semana e meia, mas ameaça se matar num haraquiri literário dentro de prazo semelhante.
Para que isso não ocorra, embora mesmo com uma estrutura dinâmica de DNA que turbina a sua existência isso possa vir a acontecer, você recebe agora este convite: convite para botar lenha na fogueira. O Correio da Lapa convoca você a sugerir um tema, sugerir e participar de um tema qualquer.
Por exemplo, numa terça-feira, haverá uma consolidação ou sarau à distância: todo mundo "falando" de apelidos. Atenção: "falando" é uma expressão de escolha, não é papo furado, conversa fiada, é escrever sobre um tema com rigor. Aliás, Paul Valery dizia: "A maior liberdade vem do maior rigor". Assim, numa terça-feira, o jornal Correio da Lapa estará todo focado no histórico desse fenômeno que é dar novos nomes, apelidos, a nomes velhos. Por exemplo, uma criança de oito anos que ganha o apelido de Limonada ganhou porque o nome velho, Joãozinho, não era suficiente antropológica e afetivamente. E na quarta-feira estaremos curtindo memória e futurismos, Carmem Miranda ou Carmen Costa E noutra quarta-feira vamos todos, com a ajuda dos especialistas, os universitários, "falar" dos velhos comunistas brasileiros.
E numa sexta, ou quinta-feira, o tema do Correio da Lapa será sobre frustrações sexuais, ou sobre a extinção daqueles cachorrinhos de Copacabana dos anos 50 e 60, ou sobre, em vez do coitado do pequinês, a ascensão atual do labrador como cão-guia de cegos. Oh Ethel...
O brogue é comprexo, por favor, não abandone o amor próprio: pense na oportunidade de ajudar a fazer o ritual dos temas que interessam a você, embora a palavra "tema" já reduza a vertigem, a riqueza, o inesperado. Mas sim, a cada dia, vamos, juntos, tratar de questão específica. Não importa o assunto, cada dia, por mais parecido que seja geologicamente com a véspera, inaugura arte. Você é pessoa convidada de modo especial a produzir essas primeiras consolidações...
Num sábado, estarei de folga, na praia, mas o mote poderá ser você e as pessoas mais bacanas discutindo Cildo Meireles, ou Helio Oiticica, ou Beatriz Milhazes, ou mendicância, ou Jorge Luis Borges, ou Marcelo D 2, ou Gisele, ou ópera, ou a violência entre torcidas de futebol...
O tema é tão livre que poderá ser "Os encerramentos!... Num sábado, você também estará na praia porque a agenda do Correio da Lapa naquele fim de semana não faz a nossa cabeça. Não, não importa: cada consolidação se tornará arquivo permanente para consulta e redinamização posterior. Pouco importa se estivermos distantes daquele tema da quarta-feira ou quinta. Legal é estarmos juntos, comungando o prazer de usufruir a magia das invenções e eventualmente a mesma praia.
Fundamental, além do amor-próprio e amor alheio, é a leitura partilhada, sem falso moralismo, sem Deus ou Deusa, ou com um ou ambos, mas com um aspecto divino maravilhoso, que aqui não se questiona crente, nem agnóstico e nem incréu.... Apenas se valoriza esta idéia de, juntos, armarmos um balanço dos dias, das horas, das águas, das navegações internáuticas...
Solicito, em tom pessoal e veemente, suas sugestões temáticas... Assunto, nomes e convites... Pessoas a pensar, a escrever e ler/ver/avaliar. Leitura partilhada como a leitura daquele jornal da nossa preferência.
Clicou? Ou viu a agenda? Já sabe que, em tal dia, no Correio da Lapa, aquele assunto jamais se esgotará, porém, por mais frágil que seja um simples pacote de textos, sons e imagens, será uma idéia concreta de consolidação, uma realização talvez poética, artística ou científica, mas sempre uma idéia inicial de consolidação graças às colaborações, e por isso talvez venha a ser algo emblemático dos tempos que vivemos...
O futuro se encarregará de avaliar de forma mais consequente o resultado do que fazemos e vivemos...
O Correio da Lapa é uma tentativa de me transformar, e também transformar você, em voz ainda mais ativa sobre determinado corpus, sobre um conjunto de saberes, sobre uma sensibilidade abrangendo uma questão do meu/seu interesse. Talvez o tema que valha a pena caia justamente num sábado. E então você já sabe o que pensar diante do mar. O incansável agitar das águas..
Acordado, alimento sonhos de propiciar com você, com vocês, a produção de uma agenda que nem imagino como ficará na medida em que, paulatinamente, mais e mais gente se dispuser a participar, mais gente topar esta parada poética, musical, visual e ritual, qual leitura de jornal... No fundo, confesso, inventei esse mecanismo de sedução intelectual porque eu não conseguia mais ficar sozinho, cativo de tantas incompetências...
Abraço fraterno e aguardando seus palpites sobre...
Alfredo Herkenhoff
Em tempo: cheguei aqui sem revisão. E sem dúvida, ler é uma forma de revisar, ler, como dizia o velho Borges, é mais fascinante do que escrever... Ler demanda capacidade de escolhas a cada instante e demanda ainda esforço fisiológico... Tom Jobim dizia: sexo é bom, mas às vezes faz mal à coluna... Será isso o começo de um tema?
fim
segunda-feira, 9 de março de 2009
NOTAS FALSAS, CULTURAIS, MUSICAIS ETC
Múltiplas postagens no Correio da Lapa: depois da homenagem às mulheres no domingo, pelo Dia Internacional, a rendição ao dinheiro... Divirtam-se pelos próximos 15 minutos de uma segunda-feira com a água cristalina do Leme ao Leblon. Se você não postar comentários com presteza, contra ou a favor, só vai postar se clicar depois na lista de arquivos... é que o Correio anda meio apressado, eficiente, lembrando o orgulho que é a ECT.
Mas deu no jornal Monitor Mercantil neste dia 9:
Banco Central quer ensinar como identificar dinheiro falso
O Banco Central (BC) pretende disponibilizar este ano material educativo na internet para que a população aprenda a identificar cédulas falsas. Segundo o chefe do Departamento do Meio Circulante do BC, João Sidney de Figueiredo Filho, será "uma auto-instrução", mas ainda não foi fixada a data para implementação da medida.
João Sidney disse que a falsificação de dinheiro tem caído no Brasil. No ano passado, foram apreendidas 560 mil cédulas falsas e, no ano anterior, 670 mil. Para ele, o número não é significativo em relação aos 4 bilhões de cédulas em circulação no país. "As falsificações, em geral, são tão grosseiras que, se a pessoa tivesse o cuidado de pelo menos verificar a marca d"água, o relevo ou o tipo de papel, evitaria recebê-las."
- Cerca de 90% das notas falsas são de R$ 10, R$ 50 e R$ 100, mas a "campeã" é a de R$ 50 - informou João Sidney. O maior volume de fraudes é registrado na cidade de São Paulo, que tem o maior contingente populacional no país e, conseqüentemente, a maior circulação de dinheiro. O estado onde menos ocorrem falsificações é o Acre, pelo motivo oposto - população menor e menos dinheiro em circulação.
O Banco Central realiza anualmente uma campanha para ensinar a população a reconhecer cédulas fraudadas. Cartazes e folhetos são distribuídos com o objetivo de auxiliar na identificação de cédulas falsas. O BC dá também treinamento em empresas sobre o assunto.
João Sidney disse que o Banco Central não tem previsão de fabricar novas famílias de cédulas ou moedas para acrescentar elementos de segurança.
Sobre a falta de troco no comércio, com o sumiço de moedas, principalmente as de R$ 0,01, ele ressaltou que, desde o lançamento do real, em 1994, estão em circulação 3,2 bilhões de moedas de desse valor.
- Observamos que as pessoas realmente desprezam o centavo. Por isso, o BC tem buscado estimular a retirada dessas moedinhas que estão perdidas. Onde estão 3,2 bilhões de moedas? Isso corresponde a 20% de todas as moedas em circulação - questionou João Sidney, informando que circulam atualmente no país 14 bilhões de moedas.
João Sidney disse, porém, que, quando a pessoa insiste, a moeda de R$ 0,01 aparece. "É difícil compreender que haja falta de troco", afirmou. Segundo ele, o custo de uma dessas moedas hoje varia entre R$ 0,12 e R$ 0,13.
BOM DIA AMOR, GRANA: VAMOS A LA PLAYA
http://www.youtube.com/watch?v=pGlqIKT9Er8
Dinheiro é da da dupla Tavinho Paes e Arnaldo Brandão, autores também do hit
Totalmente De +, que foi sucesso com a banda Hanoi Hanoi, sucesso também na voz do virtuose Caetano Veloso e recentemente na da jovem Perlla ou Perla, esta estrela do funk, esta simpatia da simpática Baixada Fluminense.
Rola um tititi, provavelmente fofoca ou mentira deslavada, quase nada, mas instigante para a dupla: a superstar colombiana Shakira estaria prestes a gravar uma versão internacional da música "Totalmente Demais".
Tavinho e Arnaldo, este autor com Cazuza do hit "O tempo não pára" - será que Brandão recebeu os copyrights? - escreveram e musicaram em "Dinheiro": "Devo, não nego e não pago. Devo ao meu amor férias em Honolulu. Devo à empregada uma cozinha americana, devo ao jornaleiro, devo ao meu cunhado, ao padeiro, ao agiota, devo o meu salário, devo ao porteiro, devo pra caralho. Devo, não nego e não pago"
Caetano Veloso cantando "dinheiro não!" e "dinheiro yeah" na canção em que lembra: "A grana que ergue e destrói coisas belas..."
Dinheiro não é tudo, é apenas 100¨ (ditado anônimo, mas propalado pelo cantor Falcão, mais um humorista da terra de Tom Cavalcanti, Ceará, terra de gente guerreira e divertida. Açúcar pode!)
EI VOCÊ AÍ , ME DÁ UM DINHEIRO AÍ
Para imprimir uma moeda de um centavo, o Banco Central reconhece: o Brasil gasta de 12 a 13 centavos de real. Onde vai paar isso?
O Correio da Lapa custa quanto? Custa sua reflexão, não sua alma. Não se irrite.
DINHEIRO PARA O BEM DA EDUCAÇÃO
"A boa educação é moeda de ouro, tem valor em toda parte", afirmou Padre Antonio Vieira, quase 400 anos atrás.
Com a qualidade do ensino comprometida no Brasil, historicamente, pela falta de recursos ou sua má divisão ou aplicação, as famílias estão cientes de que o quadro de penúria não será resolvido da noite para o dia, mas ao longo de gerações, e na melhor das hipóteses, de uma geração. Da creche ao ensino superior, todos estão atentos porque, se educar é preciso, desperdiçar recursos é um erro. Para evitar a falha, o primeiro passo é se informar. Assim como há boas e más escolas particulares, existem boas e más escolas públicas.
É responsabilidade de todos exigir bom funcionamento do ensino. No fundamental e médio, a questão premente é dinheiro. Volta e meia um ministro da Educação, de plantão, lembra que os problemas no ensino fundamental são consequência de políticas de governo ao longo de décadas anteriores. O Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica, Fundeb, dispõe de algumas poucas dezenas de bilhões de reais para o setor. Todo político sabe que seria preciso destinar muito mais para a educação.
Enquanto a democratização do ensino de qualidade não vem, as famílias buscam alternativas, que são muitas, entre elas, matricular jovens em cursos especiais e profissionalizantes. Quem tem condição financeira costuma achar mais depressa os melhores colégios, que encaminham os jovens para as melhores universidades. A busca já não é tão fácil para as famílias que vivem as agruras do cotidiano de salário baixo e desemprego alto.
Nesse universo de preocupações, os mestres têm a palavra: o vice-reitor da Universidade Candido Mendes, professor Antonio Luiz Mendes de Almeida, escreveu: "É tarefa complicada para os pais encontrar uma boa escola com mensalidades acessíveis, pelo menos para aqueles que se preocupam em propiciar uma boa educação a seus filhos. Infelizmente, desde há muito o ensino público está arruinado e a iniciativa privada passa por momentos difíceis em razão da crise que entrava a economia, aliada à má formação docente e também à deterioração dos costumes que atingiu a família e, por conseqüência, o comportamento dos alunos. Temos hoje um professorado desmotivado e um alunado desinteressado, o que afeta o trabalho educacional. Há, contudo, algumas ilhas de boa atuação, e os pais devem checar o projeto pedagógico, a composição do corpo docente e a qualidade das instalações para ver se a mensalidade que pagarão corresponderá à contrapartida devida. A educação melhoraria se mais pais se importassem e fiscalizassem o desempenho das escolas".
POLÍTICOS SE DÃO BEM COM A GRANA, PROFESSORES, BEM MAL
Os professores sindicalistas observam que não é papel de sindicato definir qual escola é boa ou má. As famílias que estiverem passando por dificuldades devem tentar negociar com o proprietário de uma escola um desconto nas mensalidades ou tentar uma bolsa. Nem sempre isso é fácil ou possível.
Todo mundo de bom senso sabe que educação é tão importante que vale a penas sacrificar gastos com produtos supérfluos para destinar o pouco dinheiro na formação escolar. Mas uma família em apuros pode ser ver iludida pela propaganda de escolas privadas. O ensino público vive tão sem grana que não tem como fazer publicidade. Quem tira vantagem são os políticos, e quase sempre mentindo.
Professor ganha mal e quase nunca merece respeito de prefeitos, deputados, governadores, congressistas, ministros e presidentes.
Márcia Poncioni Brandão, diretora do Externato Santo Antônio, uma pequena escola humilde que há quase 80 anos instrui crianças numa das últimas casinhas da Av. N. Sra. de Copacabana, ressalta o aspecto humanitário do magistério. "A educação é bem mais que a simples transmissão de conhecimento. É um processo de formação de cidadãos conscientes e participantes, preparados para ajudar a construir uma sociedade mais justa, sob o ponto de vista coletivo, e aptos a alcançar uma qualidade de vida melhor, sob o ponto de vista individual. A escolha da escola para nossos filhos tem de considerar tudo isso, sobretudo na atualidade, em que os pais têm cada vez menos tempo para o tão necessário convívio familiar."
Todos os anos, no Brasil, uns 700 mil jovens se formam no ensino superior e pressionam o mercado de trabalho que, diante de tanta oferta, passa a exigir mais qualificação. O próprio diploma nem sempre garante colocação. Com muita competição, cresce a busca pelos cursos profissionalizantes e de atualização. Independentemente de paliativos como a adoção do regime de cotas para matrícula de universitários segundo padrões de pobreza e origem étnica, em detrimento de aferição de conhecimento, cada família enfrenta um desafio que se renova periodicamente e é sempre de curto prazo: matricular.
Grandes corporações estão destinando cada vez mais recursos para dar ensino básico a milhares de crianças carentes. A responsabilidade social já é rubrica fixa no orçamento de algumas das maiores empresas do Brasil. Pela internet, pode-se descobrir as oportunidades de aprimoramento que essas instituições oferecem. Esses apoios ajudam, mas não equacionam o problema social. Jovens e adultos contam ainda com a importante contribuição de entidades patronais como Sebrae, Sesc, Senai, Senac etc, oferecendo mil e um cursos de profissionalização e até acadêmicos, nas mais diversas áreas, em cidades grandes e pequenas, e até oferecendo programas de alfabetização no setor rural.
DEBATES PARA REVOLUCIONAR A LEGISLAÇÃO
Fóruns e seminários se multiplicam para discutir os destinos da educação nacional. Não imprta o barulho ou a cobertura da mídia. Sem o apoio maciço dos políticos, de forma apartidária, o problema da boa educação no Brasil está longe de ser resolvido.
Como um caminho para o fortalecimento da cidadania, a educação, como a saúde, é um direito de todos e um dever do Estado. Está na Constituição Cidadã. Mas, na realidade, os congressistas, democraticamente eleitos, matriculam os seus próprios filhos em escolas quase sempre entre as mais caras, enquanto as crianças da maioria dos pais brasileiros enfrentam problemas em escolas com poucos recursos orçamentários.
A propósito, corre na internet uma campanha que parece mais humor ou um sonho idealista do que uma prática concreta de mudança, e tem o patrocínio do senador Cristovam Buarque, uma sumidade na cruzada pela valorizaçção da educação. Trata-se daquela história de obrigar filho de todo político a ser matriculado em escola pública, de verador a senador, de governador a ministro. Nos anos 90, defendi essa tese bem humorada, o que até levou o Professor Antonio Luiz Mendes de Almeida a citar meu nome como autor da pequena loucura inconstitucional de forçar filho de político a estudar em escola pública e assim garantir a grana que faz coisas belas no setor médio e fundamental do ensino: está lá num dos livros do mestre da família maranhense Candido Mendes a minha pensata que nem sei se é orginalmente minha... Pouco importa. Viva o senador Cristovam Buarque...!
Concluindo: há muitos esforços louváveis no governo federal sob o Presidente Lula e em governos estaduais e municipais. Mas como sustenta o Professor Luiz Mendes de Almeida, a educação de qualidade não será alcançada com maniqueísmo nem com dicotomia entre público e privado. Professores, pais e alunos querem a aprovação de mais recursos e melhor legislação. Enquanto isso não vem, as famílias procuram boas escolas ali, boas alternativas acolá. E fica cada vez mais claro: educar é preciso, sim. Mas educar também os poderes: fazê-los trabalhar para um Brasil em que todas as crianças possam ser bem preparadas para a vida, todas as escolas, particulares e públicas, possam pagar salários dignos aos nossos mestres, hoje tão injustamente sacrificados.
NUMERÁRIO, PRUDÊNCIA E IMPETUOSIDADE
Só bebo depois que trabalho. Só trabalho depois que durmo. Não rasgo dinheiro e não entro em favela sem ser convidado.
DINHEIRO À PRIMEIRA VISTA
Primeiro repare o lombo
Depois, beleza do calçado
Se os dentes, todos bons
Nenhum muito errado
Se o corpo for sarado
Não importa a cor da pele
Nem a espessura do cabelo
O desvelo é que revele
tipo, luz e cacheado
A cortesia faz poesia
Não roubou, tá bem achado
Tenha extremo bom humor
Pra você só conta o amor
A vaidade é uma bobagem
Mas claro que nessa viagem
se o caso não for temerário
é melhor com um bom perfume
e que haja muito numerário
FINANCISTA OU CHULICE DE UM MACHÃO
Mulher gosta é de dinheiro
Os olhinhos virados seriam apenas uma leve inveja de falo...
FALTA DE VERBA AMEAÇA TUDO
Jornais e blogs do mundo inteiro podem acabar a qualquer momento por falta de grana e excesso de blogs em meio à crise financeira no mundo inteiro.
Teve três máquinas digitais... Todas foram roubadas de 2005 para cá, mas isso não significa que foi assaltado apenas três vezes. Ele segue sem medo de morrer, mas não é bem verdade. Existe um leve pânico, apenas quando a esperança arrefece... Agora vende obras de arte... Tem Ludolf, Millôr, Sued, Augusto Herkenhoff etc.. Mas não sabe vender nem água no Deserto do Saara e inveja quem vende gota de água salgada no meio do Oceano Pacífico...
Por isso as pessoas já nascem agonizando, mas ainda com força para gritar: Viva a poesia de Nelson Sargento... Viva o Correio da Lapa!
QUEM ROUBA POUCO APANHA MUITO
By Alfredo Herkenhoff
Não gosto de ladrão, não gosto nem de ladrão de rico, aquela história de 100 anos de perdão... Não gosto de Madoff, aquele que deu golpe nos mais ricos do mundo nos EUA... Mas sou contra a pena de morte... Pode matar minha mãe, pode estuprar a minha filha e torturar meu filho... Ainda assim sou contra a pena capital. Foi preso? Agora é custódia do estado. Enjaula o cara, mas os Direitos Humanos valem para todos, incluindo bandidos, ladrões e depravados. Agora... Se roubar o Flamengo, se roubar o meu Mengão, é ripa, é enforcamento na marca central do grande círculo do Maracanã, é execução com banda de música tocando o Hino Nacional, e a TV Globo transmitindo ao vivo para todo o Brasil e mais 114 países deste planeta maluco. Se eu posso morrer pelo Flamengo, uma vez Flamengo, Flamengo até morrer, por que aquele ladrãozinho não pode morrer também? Ouviram do Ipiranga, é ripa com TV ao vivo... Iraque neles...
Aí vem um colega debochando dizendo que sou Flamengo doente. Respondo: cara, não existe essa de Flamengo doente. Eu, por exemplo, sou moderamente MENGÃO!
domingo, 8 de março de 2009
DIA INTERNACIONAL DA MULHER BELA DA BOLA
A MULHER NÚMERO UM DO FLA


Deu no Site Bela da Bola, neste domingo, uma entrevista reverenciando a mulher mais importante do time mais popular do Brasil. O Correio da Lapa endossa a homenagem e republica o texto.
Marlilene Dabus tem na Gávea uma trajetória que deveria ser contada em livro. Aos 69 anos de idade, com 40 de profissão, Marilene anuncia que fica no Flamengo até o fim do mandato de Márcio Braga e que, depois, se aposenta. Sua vida será dedicada ao descanso, aos amigos e ao seu amor mais querido e companheiro: o cãozinho Tererê San. Mesmo assim, nunca deixará de torcer para aquele que, depois de uma vez, sempre será Flamengo.
Pioneira no futebol
Paixão pelo FlamengoPor Pamella Lima
www.beladabola.com.br
No Dia Internacional da Mulher, apresentamos a pioneira, em muitos aspectos e circunstâncias, Marilene Dabus. Com uma trajetória admirável (e até invejável), Marilene sempre conseguiu casar sorte com competência. Dona de um carisma e habilidade social que lhe abriam portas, ela soube retribuir o destino com dedicação e profissionalismo. Apaixonada incondicionalmente pelo Clube de Regatas Flamengo, esta carioca por opção mudou o esporte com seu sorriso e cílios postiços. Guerreira, aos sessenta e nove anos, é a chefe da assessoria de imprensa do Flamengo e do presidente Márcio Braga, a quem considera um grande irmão.
Com vocês, senhoras e senhores, a trajetória no futebol de Marilene Dabus.
BB: Desde pequena, você gostava de futebol?
MD: Eu gostava porque eu tinha um tio, irmão da minha mãe, que jogava bola em Caxambu e que até foi campeão pelo Flamengo em 1939. Eu tinha uma ligação grande com ele e ficava vendo os álbuns que ele tinha com os outros jogadores. O meu irmão mais novo era muito meu companheiro e íamos juntos ao Maracanã, jogávamos na praia. Mais jovem, eu ia à praia no Castelinho e meus companheiros eram João Saldanha, Sandro Moreira, Sergio Noronha, pessoal ligado ao futebol.
BB: E como foi esse pulo para o jornalismo?
MD: Um dia me telefonaram da TV Tupi querendo saber se eu queria responder sobre futebol no programa “Vença com o Vencedor” comandado pelo Blota Jr. Isso foi de 68 para 69, fui aprovada e comecei. Quando comecei, eu assumi que sabia falar sobre Flamengo e não sobre futebol, então a torcida ia toda com bandeiras, com gritaria. Foi o maior sucesso. Dei varias entrevistas, porque passou a ser notícia uma mulher falando sobre o Flamengo, sobre o Futebol. Foi uma novidade que deu muito ibope.
BB: E depois você trabalhou nos principais jornais da época.
MD: A Danuza leão, minha amiga, me ligou falando que o Samuel Wainer da Última Hora queria falar comigo. Eu disse a ele que não sabia se iria funcionar, mas ele me lançou com pompas e circunstâncias, fotos, capa... Depois, eu fui para o Jornal dos Sports e eu fazia muita televisão também. Haroldo de Andrade, da Cidinha campos...
BB: E mudou completamente a sua vida?
MD: Mudou a minha vida completamente. Antigamente, eu jogava muito, tinha uma vida social intensa e eu entrei num outro mundo, outra gente. Passei a conhecer gente de jornal, de imprensa, numa época pré-AI-5 e eu testemunhei a prisão de amigos. A minha visão de vida mudou muito com tudo isso.
BB: E depois veio a FAF - frente Ampla do Flamengo e...
MD: Em 1976, o Magaldi, da propaganda da TV Globo, me telefonou falando que o Walter Clark queria formar um grupo para entrar e ter um presidente no Flamengo. Eu comecei a trabalhar com eles, procurando um nome até que surgiu o do Marcio Braga, que era meu amigo de infância. Fizemos uma linda campanha em uma época que não tinha eleições no Brasil e ela foi acompanhada com muita expectativa. Ganhamos, larguei o jornal e fui fazer uma coordenação social no clube. Fiz o Baile Vermelho e Preto que foi o maior sucesso. O Flamengo virou moda no Rio de Janeiro e vinha numa ascendente no futebol. Eu Fiquei com o Márcio até 1980 quando acabou seu mandato, fui fazer assessoria política para ele quando foi deputado federal.
BB: Essa sua disposição, nunca te atrapalhou na vida pessoal?
MD: No princípio, tinha muito preconceito, não dos jogadores e dirigentes, apenas alguns que achavam que podiam me cantar, mas com jogo de cintura você coloca para escanteio. Eu tive mais rejeição por parte da imprensa, não pelos tops como Armando Nogueira ou João Saldanha que, inclusive, eram meus amigos, mas os setoristas, talvez porque vissem em mim uma ameaça. Eu acho incrível que esse espaço que eu abri, não foi amplamente aproveitado pelas mulheres.
BB: Como você lidava com isso, essa sua relação com os outros jornalistas?
MD: A Desculpa que eles tinham antigamente era a de que mulheres não podiam entrar no vestiário, mas eu nunca precisei disso. Mas, eu tinha jogo de cintura, eu sabia que tinha competência. Além disso, eu tinha as costas largas, o Samuel Weiner me dava todo apoio e os meus editores também. Hoje em dia, uma das facilidades que eu tenho para exercer minha função é que todos eles que trabalharam comigo, se encontram hoje em cargo de chefia ou são colunistas, Fernando Calazans, Renato Mauricio Prado, Marcio Guedes, José Trajano.
BB: Você esteve ao lado dessa geração de ouro do jornalismo esportivo?
MD: O irmão do João Saldanha, Aristides, era casado com minha tia. Então desde os doze anos que eu conheço o João. Então, tínhamos uma relação de família. Uma vez, eu fui fazer o treino da seleção Brasileira, quando cheguei, perguntei que horas poderíamos entrar e ele me chamou para almoçar com ele enquanto o treino não era aberto para entrevistas. Com isso, fiz uma grande matéria exclusiva com o Pelé. Os jogadores estavam dormindo e ele desceu e perguntei se podia fazer uma matéria com ele. Quando cheguei à redação todos ficaram assustados com o fato de eu ter conseguido fazer uma exclusiva com o Pelé. No dia seguinte foi um grande furo de capa. O Sandro Moreira era um grande amigo, íamos à praia juntos, o Fernando Horácio... Mas, eu nunca misturei trabalho com minha vida afetiva, assim não tem briga, não tinha promiscuidade. Eu não sou contra de casar com pessoas do trabalho, mas eu era camarada dos companheiros de imprensa, nunca namorei ninguém.
BB: Mais que o Futebol, a sua paixão é mesmo pelo Flamengo, não é?
MD: Hoje em dia eu nem ligo para o futebol, o que me emociona é a torcida do Flamengo. Sou apaixonada por ela. Eu fico doida. Eu não assisto mais o jogo hoje por dois motivos: porque o futebol ficou muito feio e porque o meu coração não agüenta mais. Durante o jogo, eu passeio com o meu cachorro, Tererê San, na orla da Lagoa. Eu tenho paixão pelo clube, pelas tradições, pela responsabilidade social e afetiva que ele tem na vida das pessoas.
BB: O Futebol também mudou bastante...
MD: Quem viu Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Zico jogar não consegue assistir o futebol de hoje. Esse jogo de choque, de tática sem talento. Às vezes, acho mais bonito uma jogada de efeito do que um gol em si. Eu gosto de futebol arte, futebol bonito. Gostava de ver o Denner jogar, mas infelizmente ele morreu naquele acidente.
BB: Qual foi a matéria que mais te marcou?
MD: Eu fiz a primeira matéria do Zico, na casa dele em Quintino. Desde as divisões de base, ele já despontava como um craque e fui lá pelo Jornal dos Sports. A capa dizia assim: “Hoje ele é o irmão do Edu, amanhã vocês ouvirão muito falar dele”. Acho que essa a do Pelé foram as mais importantes que eu fiz. Mas fiz outras com Jairzinho e Paulo Cesar também.
BB: Como é a sua rotina hoje com a responsabilidade de chefiar a assessoria de imprensa do Flamengo?
MD: Deus foi muito generoso comigo. O dia a dia é muito desgastante. Eu acordo às 7h, o Marcio me liga todo dia para despachar às 7h. Mando email para torcedores, coloco noticias no site. Faço o clipping e só depois faço as minhas coisas. Quando volto, fico à disposição até as oito, nove da noite. Assisto aos programas de TV. Toda a comunicação com a imprensa eu que faço ou por email ou por telefone.
BB: O que o Márcio Braga significa para você?
MD: Ele é um irmão. Nossas mães eram amigas quando éramos crianças e trabalho com ele há mais de 30 anos. Somos parceiros, temos uma identidade de pensamento. É como se fosse um irmão.
BB: Você sente-se realizada por tudo que já fez?
MD: Acho que fiz um bom trabalho, desempenhei um bom papel em várias etapas diferentes. Hoje eu faço o que gosto, principalmente porque o Flamengo me dá muito essa motivação. O Flamengo me dá essa motivação de lutar, até porque trabalhar aqui é uma luta diária, de sobrevivência. Eu luto pelo Flamengo, eu ligo para as pessoas para defender o Flamengo. Eu fico indignada quando eu vejo que uma notícia que não tem procedência e eles não consertam, eu vou à loucura. Tem várias notas oficias que mando para a imprensa, para os sócios, que publico no site.
BB: Que conselhos sobre a profissão você daria a quem está começando?
MD: Integridade e verdade não têm muito mistério. Tem que ter uma boa cultura, ler jornal, se interessar, ter uma boa relação com o texto. Mas, como em qualquer profissão, com respeito, verdade e integridade. A credibilidade é a coisa mais importante que você adquire no seu trabalho. Quando eu passo um email para a imprensa, aquilo é noticia oficial, ninguém refuta, pode ser a favor ou contra. Mas para o jornalista, a credibilidade é a coisa mais importante.
As fotos são do arquivo pessoal de Marilene.
sexta-feira, 6 de março de 2009
DIA INTERNACIONAL DA MULHER? NADA DISSO
Dias de gurufim? Dias de festa no terreiro? Hora de arregaçar as mangas? Vamos então encarar novidades, lembranças, imagens, homenagens, todas democráticas, contemplando homens e mulheres. Sim, porque todo 8 de março é uma eternidade.
Andaram reclamando que as postagens do Correio da Lapa estão muito extensas, que quase ninguém mais tem paciência para ler mais de uma página, mas não é nada disso. Há textos longos em toda parte, no jornal TheNew York Times e na internet. O Dicionário Houaiss, por exemplo, ou uma única frase? Qual a diferença no computador? Nenhuma. O peso de ambos é zero. (E quem não concordar, um aviso: agora está mais fácil postar comentários neste blogue jornal delirante e sentimental)
Quem tem medo de livro grosso não encara nem livro fino. Pois então lá vai um bombardeio de todo tipo de "kaibaite". Uma colher de chá é um sumário: um aviso prévio: nomes e fotografias, novas e antigas, envolvidos nas leituras da próxima meia hora, se espalham de forma meio desorganizada por este Correio da Lapa, englobando, entre outros:
Carmen Costa, Claudio Jorge, Zilmar Basílio, Beto Monteiro, Maria Rita, Cléria Delecrétaz, Bebel Gilberto, Cícero, Paiva, Ana Maria Tornaghi, Chico da Curimba, Alvaro Costa e Silva, o Marechal, Tulio Cordeiro, Marceu Vieira, Alfredinho Bip Bip, Biza Vianna, Zózimo Bubul, Mila Chaseliov, Claudinho Guimaraes, Kelson Montagna, Carmen Miranda, Preta Gil, Tania Machado, João Nogueira, Cravo Albin, Leo Feijó, Evandro Lima, Haroldo Costa, Luiz Carlos da Villa, Jane, Mário Lago Filho, Rita Ferradaz, Vó Maria, Dorina e talvez muito mais, que o samba não se resume ao ritmo.
Boa Leitura e Saudações Rubro-Negras e Ecolibertárias, como gosta de dizer o ministro Carlos Minc!
PARA CARMEN COSTA
Por Alfredo Herkenhoff
Acabo de receber a notícia da morte de Carmen Costa. Hoje é dia 25 de abril de 2007. Decido abruptamente encerrar o trabalho de compilação das informações do almanaque Carrossel da Lapa no calor da emoção desta perda e da lembrança de nome tão emblemático da alegria carioca, alegria brasileira. Viver muito é perder muito. E nesses últimos tempos, andei tirando gente da coluna de vivos ilustres no Colégio de Bambas de Lapa para botar na galeria da saudade imensa.
Vejo amanhecer, vejo anoitecer, e não me sais do pensamento, oh mulher! Tentei mostrar que Carmen Costa não podia passar os últimos tempos na dificuldade em que vivia. Como pode a mulher que cantou com Carmen Miranda, que foi lançada ao mundo da música pelas mãos de Francisco Alves, em cuja casa trabalhou como doméstica, no Leme, que cantou no Carnegie Hall, que imortalizou o hino do Cordão da Bola Preta, que popularizou as belísimas canções e marchinhas do marido Mirabeau? Como pode tanta dificuldade? Onde estão as sociedades arrecadadoras? Onde, os direitos?
Tentamos fazer grande homenagem a Carmen Costa, em 2005, quando ela completava 85 anos de idade. Tive a ajuda da filha Silézia e das sobrinhas Vanusia e Zilmar Basílio. Visitei duas vezes o Bola, falei com a diretoria. Tentei a grande festa no dia do Prêmio Multishow ao lado do Bola, no Teatro Municipal. Mas nada, nada foi possível concretizar. Arranquei dela o número de sua conta corrente e repassei a personalidades num spam de solidariedade. Não sei se rendeu algua coisa.
AQUELE 8 DE MARÇO DE 2005
Carmen se queixou dos governos todos que vêm se sucedendo no Brasil e nunca resolveram a questão dos artistas na terceira idade. A tentativa de fazer uma grande festa no Bola em sua homenagem não se concretizou por inexperiência minha, talvez. Mas ela estava animada. Disse que só queria o violão de João de Aquino a acompanhá-la. "Com ele eu meu ajeito", disse Carmen aos 85 anos.
Carmen, não houve tempo. O pequeno baile acabou e você vai, vitoriosa, ser lembrada para sempre. Você nunca foi A Outra daquele inesquecível samba-canção. Você, como a Miranda, está na galeria de mártires da cultura brasileira, vítimas de uma indústria que, mal ou bem, terá de aprender a ser menos cruel.
UM ANIVERSÁRIO ESPECIAL
Hoje, 5 de julho de 2005, Carmen Costa completa 85 anos de idade. Parabéns. O Brasil muito deve a ela. Mas quem é? Cantora? Torcedora do Flamengo? Torcedora da Mangueira? Mas a escola da Estação Primeira é mais nova do que ela. Carmen Costa não torce. Nós é que torcemos por ela. Carmen Costa é a Rainha-Mãe do carnaval de rua, é o Rio Antigo, vivo, é a sofisticação dos Anos Dourados, que podem não voltar mais, mas que o Clube do Cordão da Bola Preta é hoje uma grande instituição, não resta dúvida.
Acabo de bater um papo com Dona Carmen Costa. Na véspera do aniversário, ela se queixou de uma estranha palpitação cardíaca. Sua agenda está aberta. Lamentamos não ter havido tempo para costurar parcerias em torno de uma homenagem mais do que merecida. Pena que o Bola Preta, a Mangueira e o Flamengo, marcas nacionais, não tenham podido articular uma festa neste 5 de julho. Pena que a Cidade do Rio de Janeiro não tenha conseguido promover a justa homenagem. A cantora Carmen Costa, que já se apresentou com Carmen Miranda, no mesmo palco em plena Praça 15, que já se apresentou também no mesmo palco de João Gilberto, em pleno Carnegie Hall, em Nova York, não demanda explicações. Mas qualquer pessoa que hoje não conheça Carmen Costa merece uma única: é jovem demais. Não tem culpa de não saber.
Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não. É sucesso de Carmen Costa. Ou essa? Foi numa casca de banana que eu pisei, pisei, escorreguei, quase cai... Mas a turma lá de trás gritou: Xi! Tem nego bebo aí, tem nego bebo aí.... Ou ainda? Quem não chora não mama, segura meu bem, a chupeta, lugar quente é na cama, ou então no Bola Preta...
Com tantos primeiros lugares, Carmen Costa, acima da paixão do futebol e das grandes escolas, é a voz forte e suave da alegria carioca, é o Brasil preservando esplendor...
O Cordão do Bola Preta, que levou 85 mil pessoas num corso animado no sábado do último carnaval, poderia, hoje, ter tido a honra de receber a grande intérprete do seu hino e convidados especiais para uma noite de gala, com shows, homenagens e elegância. A nossa diva, que também é compositora, poderia interpretar velhos sucessos no salão do antológico clube da Avenida 13 de Maio, no coração da Cinelândia.
Ricardo Cravo Albin até se prontificou a fazer as honras da casa. O pesquisador dicionarista, aliás, dirigiu, nos anos 70, show de Carmen Costa lado a lado do saudoso Ismael Silva. Percorreram o Brasil com aquele espetáculo em que ambos contavam as suas histórias. Ismael está agora sendo lembrado pelo centenário de nascimento.
Mas quase nada foi possível lembrar de Carmen Costa neste 5 de julho. Houvesse a festa de aniversário de Carmen Costa, no Bola Preta, no mesmo dia e horário do Prêmio Multishow, no vizinho Teatro Municipal, muita gente não teria dúvida em escolher ver um espetáculo, cada vez mais raro, daquela que foi eleita figura emblemática do carnaval pela Associação dos Blocos de Rua (Sebastiana) e pelo Bloco das Carmelitas. Vale lembrar: Carmen Costa é nome artístico de Carmelita Madriaga, nascida em Trajano Morais, Estado do Rio, em 5 de julho de 1920.
A noite de gala para Carmen Costas não se tornou possível porque, idealizada com menos de um mês de antecedência, não obteve o apoio mínimo necessário de diversas autoridades que não cabe aqui nomear. Ninguém tem mesmo culpa de nada quando um país inteiro fica paralisado, em estado de choque entre escândalos enlameando a imagem já não muito boa dos nossos dirigentes.
A CANTORA DO JARRO DA SAUDADE
Filha de um casal de meeiros da fazenda Agulha, Carmen Costa aprendeu a cantar hinos religiosos ao trabalhar para uma família protestante. Tinha nove anos de idade. Freqüentou programas de calouros. Em 1937, conheceu o compositor Henricão (Henrique Filipe da Costa), que lhe sugeriu o nome artístico de Carmen Costa.
Em novembro de 1945, Carmen Costa se casou com o americano Hans van Koehler. Viveu vários anos nos Estados Unidos, entre New Jersey e New York. Apresentava-se também em Caracas, Bogotá, etc. Lançou em 1952 a marcha Cachaça não é água (Mirabeau Pinheiro, Héber Lobato e Lúcio de Castro), um dos grandes sucessos do carnaval de rua de todos os tempos. Passaria a viver com Mirabeau, segundo ela, o grande amor de sua vida. Mirabeau, alfaiate capixaba radicado em Niterói, era exímio arranjador e compositor.
Foram casados por 15 anos. Entre os sucessos de Carmen Costa, destacam-se ainda Eu sou a outra (Ricardo Galeno), de 1953; Quase (Mirabeau e Jorge Gonçalves), de 1954; Obsessão (Mirabeau e Milton de Oliveira), de 1956; e Jarro da saudade (Mirabeau, Geraldo Blota e Daniel Barbosa), sucesso no carnaval de 1957. Apareceu nos filmes Carnaval em Marte; Depois eu conto e Vou te contar, todos dos anos 50. Excursionou nos EUA com o sanfoneiro Sivuca. Apresentou-se regularmente em boates paulistas. Atuou num espetáculo na Igrejinha da Glória do Outeiro, no Rio, sob direção do saudoso Artur Laranjeira e Antônio Crisóstomo. A propósito, o padre Sérgio, capelão da igrejinha, diz que a acústica ali é uma das melhores do Brasil. Carmen Costa interpretou hinos sacros, benditos e rezas, com arranjos do saxofonista Paulo Moura. O disco teve edição pequena e se esgotou logo. Realizou recitais sacros em várias cidades, como na igreja do Embu, na catedral de Brasília e no Teatro Guaíra. A discografia de Carmen Costa se encontra dispersa. O último CD, Tantos Caminhos, é dos anos 90, lançado pela Som Livre. Uma jóia rara.
Silézia Koehler (apesar do sobrenome, é filha de Carmen com Mirabeau), vive modestamente com a mãe em Jacarepaguá. Carmen Costa, apesar de preservar o vozeirão por nunca ter fumado nem bebido, enfrenta problemas para subir escadarias. Mas a filha faz um apelo: a mãe precisa trabalhar, precisa cantar. Silézia se queixa muito dos agentes da cultura no Rio, dizendo que na cidade falta grana e sobra falta de criatividade.
Mulher que tanta alegria e emoção deu ao Brasil, Carmen Costa é um escândalo diário: o mensalinho dela é coisa de 700 reais por mês. Muito já se queixou sobre esta injustiça, mas como se trata de cultura... Carmen Costa disse que nunca viu um tostão de direitos autorais. Nada mal para quem teve como marido o craque Mirabeau, que pontificou em muitos carnavais. Alô Ecads da vida...
Talvez o Sesc de São Paulo a homenageie neste dia 5 de julho com um show de surpresa na capital paulista. Talvez a Rede Globo a exiba de surpresa. Qualquer coisa que se faça por ela, será ainda muito pouco. Talvez Nelson Motta faça menção a ela logo mais no Municipal, dando-lhe um Multishow de surpresa. Qualquer homenagem, mesmo de improviso, é a certeza merecida. Por ora, só podemos gritar: Viva Carmen Costa! Parabéns para você com muito amor! E quem puder, que lhe envie um dinheirinho...
Banco Itaú Agência 6021-5 -- c/c: 14821-5 – Correntista: Carmelita Madriaga Koehler Banco 341 - Telefone de Carmen e Silézia: 021.3342.1820)
DESABAFO DE CLAUDIO JORGE COM A MORTE
É foda por tudo. Pela morte, com quem até hoje não cheguei a um acordo, principalmente porque ela não tem critérios. Pode vir aos 85, aos 64 ou aos 2 ou 15 anos.
É foda porque não é mole ser velho no Brasil civilizado, bem diferente do Japão ou das nossa tribos indígenas.
É foda porque não é mole ser "velho" e artista num país que tem o corpo aberto pra tudo que vem de outros povos e é rancorosamente reticente com os que se deliciam com as coisas daqui, colocando-se numa postura apática, sem vibração, sem combate, dizendo simplesmente que o mundo assim. Eu particularmente, acho que o mundo é o que a gente faz dele.
É foda ser "velho", artista e negro num país que finge que tá tudo bem entre os diferentes e o couro vai comendo dia após dia em mortes sucessivas, umas por conta de Deus, outras pelas mãos dos homens e outras ainda vitimas da indiferença do estado, das instituições, das pessoas.
É foda mermão. Me resta ficar triste por conta da Carmem, com quem tive a honra de trabalhar, por conta da família e por conta da minha amiga Zilmar que vem experimentando um processo de perdas há algum tempo. De uma certa forma, nossa tristeza e o nosso choro servem como estímulo pra gente ir em frente. Não há outro jeito. Essas coisas sempre nos dão um pouquinho mais de bronca de tudo e isso pode ser muito bom a longo prazo. Um beijo. Parabéns pelo texto.
GENTE BOA NA FOLIA
A confraria dos taurinos de tantos Mários
num pratinho de lentilhas com salame
na farra do Lago e do Linho
O samba dando sopa com Leogevildo, Júnior, Capacete
Feijoada de Mangueira, bate papo com Jamelão
Stephan, Chico da Curimba e zoeira
A solidariedade brasileira no geral
A carioca em particular
A quadra, o tititi
Renatinho Partideiro, Marcia Moura e Meriti
A quadra no calor do coração
preto sábado de música e paz
o bom prato no Bar do Meio
Piratininga com Zé Catimba
e com você, fera faminta, garimpando prazer
O cozido na roça de Xerém
Zeca-Feira a semana inteira
E tome Samba do Trabalhador segunda-feira
Com a fé e o violão do Moacyr Luz
O Pagode do Trem, Marquinho de Oswaldo Cruz
O baile no Clube Democráticos quinta-feira
O Nova Capela com o bom cabrito que não mais berra
beberrão a noite inteira
Beth Carvalho, Tânia Machado, Preta Gil e Maria Rita
Quem não gosta de um bom papo com Haroldo Costa?
Viva Paulinho, Chico, Braguinha, Dorival
Túlio Feliciano, Sukman e Marechal!
Thiago Mocotó, sardinha e bacalhau!
Claudio Jorge, Dorina, Arquivo Nacional
Zezinho... Mariana, Fernando Gama, Diniz...
e eu quase me esquecia de você... Cléria, Rainha da Lapa
E por mais que o tempo não permita ou nos renegue
Vamos ao almoço de domingo na Lona em Vista Alegre
Vamos ao gol que se espraia pelo Maracanã e pela praia
Com o gingado na paisagem de Copacabana
Alfredinho Bip Bip, Marceu Vieira e Noca cantam Silas
Aquarela, Ary Barroso, Noel e Lalá
porque é tudo nosso, guarani e guaraná, é natural
num lindo desfile da nossa fome em alto astral
BETO MONTEIRO E SUA HISTÓRIA
Beto Monteiro é aquele autêntico malandro carioca,usando naturalmente calça de linho, sapato bicolor e panamá. Beto é cantor e compositor que reina na boemia, especialmente da Lapa, por onde passaram e passam as gerações dos maiores artistas do Brasil. Beto Monteiro interpreta canções próprias e clássicos de Geraldo Pereira, Moreira da Silva, Ismael Silva, Cartola, Ciro Monteiro, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Chico Buarque.
Por cultuar o jeito carioca de ser, Beto Monteiro está acima dos modismos e faz um trabalho cultural de resistência,inventando um samba de alta qualidade e ajudando a preservar o melhor da música popular. Em três ocasiões o samba vencedor do Bloco das Carmelitas foi feito por Beto Monteiro e o parceiro Kelson Montanha. Aliás, Beto Monteiro gravou um CD reunindo toda a sua experiência como principal compositor do Bloco das Carmelitas.
Beto Monteiro gosta de compor em parceria, tendo canções com gente como, por exemplo, Serginho Meriti (autor de Deixa vida me levar), com o fotógrafo Roberto Garcia e até com o saudoso ator Grande Otelo.O artista tem dois CDs em gestação, parcialmente gravados,incluindo arranjos de Paulão Sete Cordas e participações de Esguleba, Zé Luiz Maia e Roberto Marques.Também tem gravações esparsas em coletâneas.
Em vários momentos de sua vida agitada, criou projetos e dirigiu espetáculos, como o Chorinho da Gafieira, na Estudantina. Este projeto
contou com a participação especial do Chapéu de Palha e homenageou em vida – nos anos 80, figuras ntológicas como Jackson do Pandeiro e Rafael Rabelo.
Beto Monteiro lembra como abraçou a profissão: "A música surgiu por paixão. Ainda garoto, eu via meus irmãos ensaiando na minha casa com Taiguara. Desde adolescente freqüento a Lapa. Sou do tempo do Velho Capela, restaurante que ficava no antigo Largo da Lapa, pertinho da Cecília Meireles. No carnaval, eu saía com meu pai, que me levou ao Velho Capela. Eu admirava aquelas colunas de mármore.
Ficava maravilhado com a música e a folia, os pierrôs, as colombinas, os marinheiros. Sou do tempo da lança-perfume amarela, que jogávamos nas pernas das meninas. Nessa época era o nosso torpedo. A agente jogava o jatinho frio nas pernas para que as meninas olhassem. E a gente piscava o olho. A política só surgiria depois.
E com a cascadura militar de 64, minha formação se valeu de bambas como Edu Lobo, Geraldo Vandré e Chico Buarque". Beto Monteiro já se apresentou nos lugares mais inusitados. Já cantou em São Paulo, em Recife, em João Pessoa, em Lima, no Peru, em Roma e Paris. Só no Terreirão do Samba, foram diversos carnavais da Riotur. Mas o que mais o caracteriza é realmente a roda de samba em pequenas casas e bares, espetáculos como o que rolava no Instituto do Arquitetos na Praça Tiradentes, ou como o que rola no Hotel The Maze, do inglês Bob NadCarny, incrustrado numa viela da favela Tavares Bastos. No fins de semana, no coração da favela rola o Bossa Samba e Jazz, que atrai gente do mundo inteiro para a casa do antigo cinegrafista da BBC.
Beto Monteiro relembra um pouco de sua carreira: "Já fiz shows homenageando Noel, Vinicius, Cartola, Wilson Batista, Geraldo Pereira e tanta gente boa. Participei do show da Anistia, promovido pelo Partido Comunista Brasileiro em São Paulo. Trabalhei na Ponta do Corredor Cultural, no Caju, na antiga casa de banho de Dom João VI. Uma das coisas de que mais gostei de inventar e dirigir foi a série Chorinho da Gafieira. Levei ao Estudantina nomes como Altamiro Carrilho, Jackson do Pandeiro, Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Hélio Delmiro, Rafael Rabelo, Monarco e Velha Guarda da Portela. Já me apresentei algumas vezes no Circo Voador. Gosto de trabalhar muito com músicos como Zé da Velha, o pianista Zezinho Moura, Roberto Marques, Paulão Sete Cordas. Gosto dos festivais de Santa Teresa, dos espetáculos no Parque das
Ruínas"
Beto Monteiro diz que foi "criado em Santa Teresa e domesticado na Lapa". Os dois bairros vizinhos têm muita coisa em comum além do casario do Rio antigo, Sobre Santa Teresa, Beto Monteiro costumam brincar: "É o único lugar do mundo onde avião anda de bonde". Sobre a Lapa, hoje revigorada pela abertura de tantas casas, Beto Monteiro lembra do período antes deste boom: "Tínhamos o Resendão, aquele bar ali na Rua do Resende. Saíamos do saudoso Saci, berço de boêmios em Vila Isabel, e íamos ao Resendão, onde o fim de noite reunia uma sopa salvadora, boa conversa e música tocada e cantada por gente como Pedro Mateus, João Nogueira, o compositor Garça. Aliás João Nogueira chegou a gravar Garça num dos seus primeiros discos. De Garça ele gravou Sétimo Dia. Mas no Resendão cantava o Pedro Mateus,que era cego e tocava um violão e cantava lindamente. Adelzon Alves produziu um trabalho especial com o Pedro Mateus, que já morreu".
Se fosse relembrar tudo o que já ouviu, ou cantou, Beto Monteiro teria de escrever um livro. O artista conhece um amplo material de alta qualidade e que se acha disperso, por dificuldades de mercado e modismos da mídia. Por isso, toda vez que surge uma oportunidade, Beto Monteiro não perde viagem.Apresenta as suas principais composições, que misturam saborosamente samba de breque,humor, balanço de gafieira, chorinho,e canta também clássicos da melhor MPB.
Com toda a sua experiência,Beto Monteiro defende a criação de um Memorial da Lapa, um espaço com homenagens e informações sobre o bairro que é o ambiente mais fascinante da cultura no Rio de Janeiro. Com a palavra, os arquitetos.
Beto Monteiro não tem dúvida de que na Lapa faltam informação e dicas para turistas, estrangeiros e brasileiros, falta informação para as escolas, para os estudantes. "A Lapa é o útero do samba carioca", garante o velho malandro. Os shows de Beto Monteiro não deixam de ser um memorial de toda essa emoção.
O QUE DIZEM SOBRE BETO
O produtor de shows Nano Ribeiro: "Esse Beto Monteiro é muito bom.Tem a cara de Santa Teresa, e é por isso que ele ganha quase todo ano o samba do Bloco das Carmelitas. Sou fã dele desde pequenininho –
O diretor de shows Mário Lago Filho: "Beto Rio de Janeiro Monteiro"
O cartunista Jaguar: "Pelo trailer que me apresentou do seu show no Beco da Pimenta, eu recomendo Beto Monteiro no escuro. O cara sabe tudo de música popular e brasileira"
O jornalista e produtor Alfredo Herkenhoff: "Beto Monteiro tem uma extensa folha corrida de excelentes serviços prestados ao samba e à boemia"
O artista plástico Tulio Cordeiro, que morreu agora neste início de 2009, escreveu:
"SUA ALMA CANTA"
Beto Monteiro é uma expressão do Samba. Amigo dos bambas,que como ele, integram o universo da música nessas "Noites Cariocas". Canta para os corações,pelos bares, pelas mesas... Canta pelos cantos,é íntimo da Noite. Levanta a "galera’. Canta pelo Bonde, por Santa Teresa, pelos Arcos, pela Lapa... Pela miséria e pela grandeza. Beto Monteiro leva o estigma da Arte e da internacionalidade, é inquilino de honra nas madrugadas, autoridade no Samba, pela Zona Norte, Zona Sul. Ele sobe uma oitava nas ladeiras... Sua música tem Cheiro, tem Cor. Quando Sua Alma Canta, até Pombagira vira Santa.
(Estes textos saíram em novembro de 2008 no jornal mensal do sindicado AASJT-Rio, da Justiça Trabalhista, por influência da militante Nely Cabral. A reportagem contou com o apoio do editor do Correio da Lapa)
quinta-feira, 5 de março de 2009
Desemprego PEGA MAIS AS mulheres
Franquia com batom
Pesquisa da Rizzo Franchise, consultoria especializada em estudos de mercado sobre varejo e franchising, apontou que unidades de franquias comandadas por mulheres têm faturamento bruto 45% maior em relação às comandadas por homens. A pesquisa revelou ainda o interesse crescente das mulheres por segmentos específicos, como escolas de idiomas.
Sócias
Desemprego PEGA MAIS AS mulheres
O crescimento econômico do País em 2008 beneficiou mais os homens que as mulheres no mercado de trabalho. Essa é uma das conclusões da pesquisa realizada pela Fundação Seade e pelo Dieese sobre a participação feminina no mercado de trabalho da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) no ano passado, por ocasião do Dia Internacional da Mulher.
De acordo com a pesquisa, o desemprego caiu para homens e mulheres, mas a redução foi intensa para homens. Já o rendimento cresceu para homens e diminuiu para mulheres. Dessa forma, a distância entre mulheres e homens no mercado de trabalho, que já era considerável, aumentou ainda mais no ano passado.
NÃO ADIANTA MUDAR O CANAL DE TV
Algumas razões para se desesperar com a TV!
A primeira razão é que a televisão, na visão de muitos especialistas, é um comercial interrompido por pedaços de filmes. Como todas as redes de televisão são financiadas pela publicidade, qual delas escapa da definição proposta? A televisão, segundo fórmula consagrada pela publicidade, vende seu público aos anunciantes.
O elemento-chave de um programa é o comercial, aquele que escapa das variações da grade de programação, e é em função desta publicidade que serão agendados os programas, de maneira a trazer o máximo de audiência. E, sobretudo, de modo a evitar - custe o que custar – a evasão de espectadores para os canais concorrentes.
Porque muito mais do que falar de programação estamos falando agora de contra-programação, numa técnica que consiste considerar como mais importante saber qual o programa cada concorrente veicula em tal horário e propor algo mais demagógico e populesco. Mais do que propor um programa sofisticado ou experimentar suas próprias idéias. Desta maneira, um programa como o Jornal da BAND tenta passar a perna na audiência do Jornal Nacional da Globo etc, numa disputa em que a grade importa mais do o que as imagens veiculadas. E, nesse contexto, é impossível procurar alguma coisa de inovadora em que a premissa de ideal é conquistar o máximo de audiência com o mínimo de investimento...
Um outro ponto a ser considerado é que a televisão está em vias de trocar de mãos (as grandes redes comerciais, bem entendido!) e seus novos proprietários são grandes grupos comerciais da indústria transformados, pela natureza do novo empreendimento, em produtores audiovisuais, os quais visualizam um novo setor de investimento ou mercado futuro, depois dos investimentos em imobiliários ou da siderurgia, teleguiando mais comumente seus interesses em direção ao poder, uma vez que televisão é cada vez mais um assunto de Estado-Nação. E isto pode ser comprovado nas novas ações dos governo sobre a legislação, assim como na programação da redes, como também pela grade dos vários canais de TV.
Uma vez que não podemos empreender todas as aventuras financeiras e estéticas dentro desse monopólio político-industrial no qual se transformou a TV, como numa grande padaria, o preço do pão conta como a produção de imagens: quanto mais barato e mais vendido, maiores são os lucros. Isso é o que importa para os grandes canais de TV!
Antigamente, a televisão se queria uma janela sobre o mundo... Mas, hoje em dia, com o empreendimento audiovisual se transformando em palco de um duelo de gigantes, a TV, como empresa, joga um jogo próprio. Ela só pensa e enfoca a si mesma; ela é o centro de tudo que é mostrado em toda a sua programação. O conteúdo e o estilo desses seus programas escondem as principais questões de um canal de TV, que apresenta o mundo através do prisma de suas relações comerciais e institucionais. Mas estamos presos a esse circuito fechado da rede! Um pouco de perigo que um evento possa provocar na mesmice televisual, mais rapidamente ele será banido da grade – e as redes colocam no ar seus comerciais... Nada como uma mensagem publicitária para acalmar os ânimos da audiência!
É desesperador que para a televisão não possa existir nenhum risco envolvendo a área comercial, e que isso possa esticar ao limite as regras e fórmulas que regem os programas em termos vendáveis ou não aos anunciantes. É de doer! E é dessa maneira que alguns programas estão há 20 anos em exibição. Assim, os felizes beneficiários desses canais produtores podem ver Dallas em reprise duas ou três vezes por semana, e assim economizar dinheiro, na política de faturar com o mínimo de investimento.
Uma vez que as vias de comunicação seguem todas na mesma direção e quase à mesma velocidade, em breve estaremos falando numa carência de programas para abastecer todos esses espaços. Seria o caso de se falar em oportunidade para produtores independentes, não fosse a possibilidade de, na obrigação de se render à ideologia e à formatação das redes, correr-se o risco de virar mais do mesmo, misturando-se e assumindo a estética da TV comercial ela mesma.
Mesmo os canais de TV pública, e sobretudo aqueles que dependem de alguma receita adicional de publicidade, tem a mesma tendência de reproduzir os modelos já citados para resistir à concorrência das outras redes. Resultado: vemos aqui uma programação parecida, com poucas variações. Mesmo com algum esforço, nós espectadores, esperaríamos um pouco mais de cultura e criatividade, já que esta é uma das premissas impressas na idéia de canal educativo!
Porém a situação em que se encontra a Televisão é desesperadora, pelas razões acima e tantas outras que se queira adicionar... E o pior é que não adianta mudar de canal!
CHOQUE DE ORDEM E LICENÇA ESPECIAL
(Na foto, o editor do Correio da Lapa dá uma de Cicerone explicando a Rodrigo Pian (à esquerda) que o Bar da Feira também é cultura e contra a desordem no Rio de Janeiro. Foto de Sartori em 4/3/2009)O carioca Rodrigo Pian, novo funcionário de sub-prefeitura do Eduardo Paes, voltou ao Bar da Feira, em Botafogo, 13 dias depois de comandar uma blitz que levou mesinhas no calçadão diante da casa, na Rua Vicente de Souza. Desta vez, apesar do susto na clientela, muitos temendo uma nova tormenta com PMs e guardas municipais, Rodrigo Pian, em vez de acompanhado de força, chegou sozinho, no estilo descontraído da melhor carioquice, com flores na mão. Revelou o sub-prefeitinho que naquela noite de quarta-feira, com o Flamengo goleando o Ivanhoé de Mato Grosso, a "dura" ia acontecer em Laranjeiras. Alívio na galera.
Em seguida, os fregueses comentaram com o representante do Dudu Portela que olhasse com carinho para a casa, tão respeitadora dos bons costumes, nunca nenhuma briga, tudo limpeza. Rodrigo Pian foi determinado e, sem temer um linchamento, insistiu: "Essas poucas mesas aqui na calçada ainda são ilegais. Mas é possivel legalizar".
Foi aplaudido com uma salva de palmas, entre perguntas curiosas sobre como conseguir a tal licença especial? Qual o percurso burocrático do processo? Quais os critérios? Atração musical? Gastronomia? Turismo? Civilidade? Higiene? Espaço amplo que não atrapalha ninguém? Nada da barulho tarde da noite? Tudo isso ali tem. O português dono do boteco, Seu Antonio, botou até uma risca branca na calçada ampla, duas linhas sutis, tracejadas, mostrando o território de passagem livre para quem não está nem aí diante daquela felicidade de tiragostos e libações.
A esperança renasceu. Há quem aposte que em breve o botafoguense doente e filho da PUC (Rodrigo Pian fez Psicologia na Gávea) será visto sentado legalmente no Bar da Feira, papeando com o maestro e saxofonista Humberto Araújo, que trabalha para a secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, e também é habitué do pedaço. Juntos comemoraremos comentando o resultado do futebol.
Curiosidade: Rodrigo Pian nada consumiu, mas usou o banheiro do Bar da Feira e não reclamou da limpeza.
Dias atrás, antes do nascimento deste Correio da Lapa, a questão da política do choque de ordem foi levada ao blog do amigo Marceu Vieira, da turma do Ancelmo Gois, com uma ampla especulação sobre urbanidade, economia, cultura etc. Quem quiser ver o teor, um calhamaço de sete páginas, é só clicar em
oglobo.globo.com/rio/ancelmo/marceunalapa/
quarta-feira, 4 de março de 2009
Cabrocha, madrinha, rainha: Morreu Cléria
Morreu Dona Cléria
do Bola, Capela e Amarelinho
Cléria Delacrétaz, nascimento em 1922. Sepultamento: 4 de março de 2009, meio-dia e meia: Cemitério São João Batista,
Rio de Janeiro - RJ
Será que ela mandou mesmo Sinatra à merda?
Primeira mulher negra a ganhar grana fora do Brasil com o samba(Do projeto-livro-inédito Carrosel da Lapa, trecho lavrado em 2007)
Hoje, anos depois da seguinte documentaçao gravada,
rendo-me à emoção; Linda mulher, querida Cléria
por que morreste?
Cléria Delacrétaz é um símbolo vivo do Rio. Nasceu em 1922, não longe da Lapa, ali nas Minas Geraes, mas já em 1935, 13 aninhos (vão ter que me engolir!), caía não na vida, mais exatamente na Avenida Mem de Sá, na boemia onde logo se tornaria mãe. Esbelta, mulataça fashion com faro para parada certa, esbanja saúde, beleza e elegância no alto dos seus 85 anos de idade. Freqüenta o Bola Preta, o Amarelinho e, principalmente, o Capela. É a madrinha oficial do Capela. Sua grande foto, em tonalidade sépia, antiga, está entre os quadros acima do caixa do restaurante.
Dona Cléria, na imagem, está ali eternizada aos 44 anos, exibindo como sempre o suave sorriso de cabrocha, que sustenta, não importa a longevidade, com charme, roupas vistosas e informalidade. Dona Cléria, sem exagero, é uma das primeiras brasileiras a conseguir ganhar da malandragem oficial do Brasil, a conseguir ganhar dinheiro no exterior com o samba nos pés.
Sua vida teve lances de sofrimento. Enfrentou preconceitos, racismo e outras dificuldades. Perdeu o único filho, vítima da violência. Dona Cléria viveu muitas emoções, mas não gosta de falar em datas. Embaralha-as. O passado em sua voz nostálgica flui aos borbotões, magicamente. Diz que não dá entrevista. Então a invento, sou fruto de muitas conversas. Verdade ou mentira? Tudo o que se segue pode ser a mais completa conseqüência de uma mente, a minha, imaginosa, de cronista delirante. Tudo que digo dela é pura invenção etílica. Se bobear, já a convidaram até para dançar na Lua. Mas Dona Cléria não quer saber de rabo de foguete, nem de Nasa.
Ganhava a vida dançando samba por aqui até descobrir que ganharia muito mais no exterior. Casou-se com um suíço, que, depois de vários anos de êxtase, amor, respeito, atenção, enfartou e lhe deixou, além do sobrenome, uma pensão civilizada e respeito dos demais parentes europeus.
Dona Cléria tem razão de não gostar de dar entrevistas. Uma vida tão intensa se transforma, em minutos, numa cascata superficial desses jornalistas irresponsáveis. Mas, ali, no noite-a-noite tilintante da Lapa, está sempre lembrando, e esquecendo.
Quando fala da vida, dos guizos de seu carnaval, o faz de maneira relaxada, sem medo de usar palavrões, tal como Dercy Gonçalves. Para que não sofra, que não tenha que desmentir, ou ser desmentida no tocante a essas revelações, desde já aviso: todo erro desse capítulo é meu. Tudo o que ela desmentir significa que estou desmentido.
Ao retornar da Europa para o Brasil, viúva, a cabrocha até pensou em formar de novo um conjunto de dança, mas os entraves eram muitos, são muitos, e agora ela desdenha da possibilidade de voltar a sambar. Não poupa críticas ao país.
No pequeno depoimento a seguir, existem devaneios, argumentos que exagerei sim. Ninguém vá questionar Dona Cléria. Tudo o que não se encaixar na realidade dos fatos por ela vividos terá sido fruto de minha total irresponsabilidade, numa noite em que Dona Cléria, uma das personalidades mais importantes da Lapa, estava com um pouquinho de mau humor no nosso querido Nova Capela. Em toda declaração de Dona Cléria, existem coisas imaginadas por mim. Então o relato a seguir é mais um jogo de sete erros do que a mais completa expressão da história. Descubra algumas verdades e se dê por feliz. Dona Cléria é uma rainha e, mesmo que ela me dê um desconto, vai sobrar muita dúvida. Mas vai sobrar, e isso é o mais importante, uma certeza: aos 85 anos, bem vividos, Dona Cléria é uma senhora pastora.
Eis as palavras dela, que falsifiquei de brincadeira, com o coração na mão porque não me tomo por mitômano:
Minha arte já terminou. Fiz Orfeu Negro. Fiz o Descobrimento (sic) de Brasília, com Juscelino Kubitschek. Por que vou ficar fazendo presepada? Pra ganhar 200 merréis? Não preciso de dinheiro. O meu passaporte é suíço. Não dependo nada do governo brasileiro. O governo brasileiro não me dá nada. Tem nego aí que quer entrar nos Estados Unidos e não pode. Eu não me casei na Suíça com um pilantra. Casei com um homem direito, de dinheiro, de gabarito. Dava tudo pra mim. Homem honrado. Hoje meu negócio é com o consulado e com a Federal. Meu documento não é do Brasil.
Já trabalhei na Globo. Já dancei no Copacabana Palace. Mas nunca fui de dançar na rua. Meu negócio não é carnaval de rua, é samba no teatro, é teatro. Com Ataulfo Alves eu poderia trabalhar no começo, mas ele nunca gostou muito de negro e eu não gosto muito de macaco. Quando comecei, comecei ganhando dinheiro dançando. Mas nego agora não dá valor. Acha que todo mundo é prostituta. Eu não sou prostituta.
Trabalhei com Carlos Machado, Silva Pinto, Walter Pinto. Sou artista antiga. Trabalhei com Colé. Com Grande Otelo. Trabalhei no Teatro Recreio, no Carlos Gomes. Dancei para a Rainha da Inglaterra, no Itamarati. Dancei muito em navios. Tenho história nos cabarés da vida, mas agora quero que vocês todos se fodam. Preto aqui não tem valor. Racismo não mudou nada no Brasil. Mas pelo menos aqui na família do Capela não tem racismo. Me tratam com respeito. Podem roubar aquele meu retrato ali no alto da parede que tenho muitos outros em casa. Um dia eu quis subir na vida e fiz um conjunto: Cléria e suas cabrochas. Fui pra Europa e me arrumei. Não dei mais confiança. Maria Mercedes foi comigo (dançarina, também aposentada, morando no subúrbio do Rio de Rocha Miranda). Ela saiu do Brasil comigo. Foi muita gente comigo. Sou empresária e dona de conjunto. Faço negócio direito, mas no Brasil falou em qualquer coisa nego já quer trepar. Isso que me dá raiva.
Uma vez até o Frank Sinatra empombou com a gente. Estávamos ensaiando num transatlântico e ele se queixou de atraso. Queria passar o som, sei lá. O problema é que eu tinha comido uma macarronada e o espartilho não estava fechando. E vem aquele metido, só por causa do sucesso, dizendo que a gente não podia atrasar. Eu não vou trabalhar com fome. O fecho do espartilho também estava com defeito. Mas mandei o Frank Sinatra à merda. Eu mandei e mandaria de novo. Passar fome... Manda a mãe dele passar pra ver o que é bom pra tosse!
O Mário Lago, esse menino dele (Mário Lago Filho), vi desse tamaninho, agora é um gigante. Por isso que ele me respeita. O pai dele me deu uma luz. Esse garoto (Mariozinho) andou me desmentindo, dizendo que eu nunca tinha dançado valsa com o pai dele. Nunca dancei valsa com ninguém, quanto mais com Mário Lago no Teatro Municipal. Sou sambista. Por que ele me desmentiu se eu não falei aquilo? Mário Lago conheci muito bem. Se bobear, também foi meu amante. Também conheci muito bem Madame Satã. Esse filme que levou aí tá tudo errado.
Conheço a Europa inteira que fala francês. Viajei pra Montevidéu. Tenho 45 anos de Europa. Trabalhar aqui no Brasil pra ganhar o quê? Uma cerveja? Um sanduíche?
Vivo na minha casa: eu, meu cachorro, meu gato, que eu achei na rua, e minha afilhada, a Cláudia. Em Copacabana. Tem quarto de empregada, tem tudo. Moro sozinha. Não tenho marido. Não tenho amante. Não tenho nada. Eu gosto de viver, gosto de comer. Não quero nem saber mais de amante. Graças a Deus, se eu gastar 200 reais, 500 reais por dia, estou com dinheiro. Eu preciso de uma pessoa, que eu possa acabar meu resto dos dias, que me dê atenção, não que queira comer o meu dinheiro. Aqui no Brasil só arruma isso, cafetão.
Meu filho morreu muito novo. Quem mandou ele se casar com uma cachaceira? Só tinha que morrer. Meu marido morreu, mas deixou o sustento. Tenho uma neta na Suíça. Ela é manequim.Vem aqui me visitar.
Sou sócia proprietária do Bola (Clube Cordão do Bola Preta). Guardo foto e recorte de muita coisa que vivi. Tive muitos amantes. Fui amante de um dos gerentes do Capela (um que já se mandou). Sou madrinha dessa porra aqui (Capela). Chico eu conheço de criança (atual gerente do restaurante e que confirma que Cléria despertava muitas paixões em homens bem sucedidos). Mas nunca dei pro Chico não. No tempo que eu vivia na Lapa, tive sim muitos amores. Fui amante de um diretor do Jornal do Brasil, Pellegrini. Fui amante do Albertinho Limonta do Direito de Nascer, Mamãe Dolores, aquela novela.
Agora eu só quero saber de cuidar de mim.
Uma coisa que eu posso fazer agora é ajudar criança desamparada. Não quero mais nada. Não preciso trabalhar nem de dar entrevista.FIM
Perto da Morte -
João Baptista Herkenhoff *
Próximo da morte, o papa João Paulo II optou por morrer dentro dos muros do Vaticano, e não em Roma. Nos limites do território do Vaticano as possibilidades de prolongamento da vida eram restritas. Em Roma, um grande centro médico, a vida do papa seria prolongada indefinidamente. João Paulo preferiu que a morte seguisse seu curso.
O grande e saudoso arcebispo capixaba Dom João Baptista da Motta e Albuquerque, à face da morte, aceitou que tinha chegado ao fim. Não quis que esforços extraordinários fossem realizados, numa insubmissão à finitude da vida. Em Paz, entregou sua alma a Deus.
Tanto à luz da Ética, quanto sob a ótica do Direito, não se pode impor a ninguém a obrigação de recorrer a uma técnica que, embora já em uso, ainda não esteja isenta de perigos ou é demasiado onerosa. A recusa de tais técnicas não equivale a um suicídio. Significa, antes, aceitação da condição humana ou preocupação de evitar dispositivos médicos desproporcionados com os resultados que deles se podem esperar.
O Direito brasileiro não acolhe a eutanásia, prática que é admitida por algumas legislações do mundo. Nunca é permitido ao médico ou outro profissional da saúde praticar um ato que produza a morte de um paciente, mesmo que o paciente peça sua morte.
Nestes casos, o ato é considerado homicídio privilegiado, ou seja aquele praticado por motivo de relevante valor social ou moral.
A pena do homicídio – seis a 20 anos de reclusão – pode ser reduzida de um sexto a um terço, nessas circunstâncias.
Entretanto, se o doente já teve morte cerebral, nem a lei, nem a ética médica exigem procedimentos para prolongar artificialmente a vida. Note-se a diferença: num caso, pede-se um ato para pôr fim à vida, isso é crime. Noutro caso, trata-se de abter-se de atos que prolongam a vida artificial, essa abstenção não é crime.
Assim, em face de um doente terminal, com morte cerebral, o médico, com o consentimento da família, pode desligar os aparelhos que prolongam artificialmente a vida. Esse ato não configura um crime, nem constitui atentado à ética.
A interrupção da sustentação vital, uma vez estabelecida a morte encefálica, não se confunde com a eutanásia ou eventual direito de morrer, no sentido de precipitar o evento morte, o qual, efetivamente, já ocorreu. Por respeito à dignidade humana o médico deve evitar que o paciente em morte encefálica seja submetido a terapêutica desnecessária, não só inútil como fútil.
No caso da eutanásia (morte por piedade), a competência para julgamento será do Tribunal do Júri. Como o Tribunal do Júri é um tribunal leigo, que se compromete a julgar “de acordo com a consciência”, esse Tribunal não está preso à lei. Pode o Tribunal do Júri, num caso de morte por piedade, praticada por médico, enfermeiro ou outra pessoa, absolver o agente, isto é, a pessoa que praticou o ato. Essa decisão dependerá da consciência dos jurados e, naturalmente, das circunstâncias do caso que os jurados devam julgar.
João Baptista Herkenhoff é livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo, professor de mestrado em Direito e escritor.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Literatura - Conto
(do livro inédito Conto para fugir de balas perdidas)
Por Alfredo Herkenhoff
Sou o verdadeiro símbolo universal da sobra, do mal feito, do desejo de sorte na estréia teatral, do encerramento de uma relação amorosa, da escatologia, do adubo, do contraditório, do prazer e do desprezo.
Sou material de exame de saúde e alimentação. Sou remédio e veneno. Enveneno cursos d’água. Sou a exigência de saneamento e boa educação.
O problema de ser merda é que nem sempre se está num cenário saudável. Embora produto dos intestinos, do movimento peristáltico perfeito, nem sempre a merda está bem acompanhada de um sistema admirável da natureza animal. Triste é a merda acompanhada de gases mortíferos ou transitando em corredores contaminados por células cancerígenas, aproximando perigosa e ameaçadoramente das funções esfincterianas.
Mas deixemos a natureza inevitável. Melhor viajar pelas palavras que unem merda e matemática. Sim, cada pessoa, por melhor que seja a fama, ou a biografia, pode ser mensurada pela quantidade de material que defecou ao longo da vida. Merda por cabeça. Merda pro-rata dia. Merda per capita. Biografia a peso de merda. Diga o quanto come, o quarto pesa e logo saberá o quanto evacuou. Uma vida inteira... Quanto caga? Os mares de merda. A floresta e a merda. O aperto atrás da bananeira. O Rio de Janeiro e a merda. Ou como teria dito o compositor Tom Jobim, explicando que se ouve bossa nova em Manhattan e rock nos palcos cariocas: Nova York é um barato, mas é uma merda. O Rio de Janeiro é uma merda, mas é um barato.
Merda cara pra chuchu num mercado de merda. Mercado persa. Jornalismo de merda. A vaidade é uma merda. Tudo é uma merda. Omnia vanitas.
Com desculpas aos proctologistas salvadores pela análise da merda in loco, aos técnicos do Embrapa operando em nome da pujança da agricultura, aos jovens médicos que aprendem que apendicite é o primeiro ganha-pão dos cirurgiões novatos, podemos dizer, e eu mais do que a maioria, já que sou a própria merda, que a merda é uma beleza.
Quem não teve prazer em dizer uma vez, ou ouvir numa ocasião, um sonoro vai à merda?
E merda no ventilador? Quem não já curtiu seus efeitos? Emprego de merda é o que mais rola. País de merda há grandes e pequenos. Falar merda é mais fácil do que criticar políticos. Merda de filme não vale o ingresso que custou. Merda e merda. Merdalhão. Seu Merda. Poesia de merda. Texto de merda.
domingo, 1 de março de 2009
Manhã de domingo de sol no Rio, 444 anos depois
Ler em seguida:
Rio de Janeiro urgente: Choque de ordem do prefeito Dudu Portela, que caiu no samba
Memória: Show aéreo Redbull, Monobloco e documentaristas cariocas no Youtube
A Praça Paris, entre o bairro da Glória e o Passeio Público, mantém um certo esplendor durante o dia, um esplendor tipo Anos Dourados no Rio de Janeiro, apesar da imensa grade que protege o espaço da pobreza mendicante. A grade encerra a praça noutra espécie de pobreza. O verde da grama e arbustos parece peça de museu e não uma possibilidade de respirar tranquilidade do saudoso Rio Antigo.
A Glória sempre se caracterizou à noite pela luz amarela dos seus postes. Nessas décadas todas, a iluminação pública mudou bastante em diversas partes das cidades brasileiras. Luz mais eficiente, novas tecnologias. A própria luz do Aterro, em toda a sua extensão, incluindo a parte diante da Glória, com aqueles postes altíssimos, de cimento, dá ao conjunto de Roberto Burle Marx um ar noturno enluarado. Uma luz branca que parece Lua cheia ou Lua nova, mas sempre Lua, Lua que a gente nem sempre vê, mas pressente, numa ilusão de que o satélite natural está logo acima das copas das árvores.
Mas mexer com a luz da Praça Paris e entorno, apenas por sacanagem, não dá pé. O termo é chulo, sim, mas não ocorre outra adjetivação. Entre a Rua Augusto Severo e a segunda pista de carro rente à Praça Paris, a iluminação, que era fraca, mas era aquele amarelo-manga de sempre, romântico até, agora é um horror infernal porque, no apagar das luzes da administração do prefeito Cesar Maia, aconteceu a surpresa: substituíram a coloração tradicional por uma luz branca forte, ofuscante, apontada para fora da Praça Paris.
Qual a razão de tamanha afronta? Apenas incompetência? Ousemos especular. A razão terá sido esconder o jardim da Praça Paris? É possível sim. Ou será esconder a ação dos travestis naquela parte mais vazia e sombria entre a Praça Paris e as pistas do Aterro? Sim, é possível que seja este o motivo. Mas a ação da turma da marmota, das tais paraguaias, não se alterou no outro lado da Praça, rente ao meio-fio da Augusto Severo. Então terão mudado a iluminação da Praça Paris apenas para ofuscar os motoristas passando por ali, procedentes do Flamengo em direção ao Centro ou à Lapa? Ofuscar motoristas e ofuscar passageiros também... Sim, também é uma motivação possível.
Qualquer que tenha sido a causa de urbanistas, a nova luz é anti-Rio de Janeiro, pelo menos este é o efeito imediato, isso já está óbvio. A agresão é perigosa para o trânsisto. Não faltarão atropelamentos de mendigos ou bêbados por falta de visualização a tempo de motoristas pisarem no freio, sejam profissionais ou amadores.
Mas, afinal, qual terá sido a verdadeira razão para a troca de iluminação para pior da Praça Paris? A verdadeira razão certamente foi uma mentira, uma mentira a mais nesse riacho que passou poluindo a nossa vida. Talvez o motivo tenha sido o conjunto da obra, talvez simplesmente a vontade de gastar, raspar o cofre, talvez a vontade de desaparecer no clarão da mediocridade.
CHOQUE DE ORDEM PERFEITO PELAS MÃOS DO PREFEITO DUDU
Dudu Portela, o novo apelido do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, por ter desfilado durante 20 minutos, entre as escolas campeãs, como membro uniformizado da bateria da grande agremiação de Madureira, é até um jeito carinhoso de se espantar, positivamente, com a intrepidez do nosso primeiro mandatário. Paes gostou tanto que se poupou para sair um pouquinho em outras escolas campeãs.
Outra prova de intrepidez de Dudu Portela foi a decisão, à ultima hora, de cancelar o megasshow na Enseada de Botafogo neste fim de semana em que a Cidade Maravilhosa comemora 444 anos de fundação. O espaço é lindo e propício a espetáculos, mas não para grandes concertos populares com determinadas características.
Apesar do apoio da TV Globo, apoio que sempre serve de chancela para tranquilizar o espectador curioso, para induzi-lo a comparecer a eventos, este espetáculo cancelado misturava samba, pagode, funk e tragédia anunciada. A cidade até tem exemplos no passado de festas positivas e negativas na Enseada de Botafogo. Aglomerações que causaram transtornos e engarrafamentos históricos.
Juntar milhares de pessoas, jovens sem dinheiro no primeiro fim de semana depois do carnaval, o que pensar? Faltaria grana e sobraria fome no meio de uma consciência coletiva em fase de amadurecimento. Uma fome dessas no meio da natural rebeldia juvenil implicaria riscos terríveis.
Parabéns pela difícil decisão de suspender o evento quando este era noticiado pela TV e por todos os suplementos culturais da imprensa diária.
Restam umas últimas curiosidades: qual o tamanho do prejuízo para os contribuintes? Multas por cláusulas contratuais descumpridas etc... Quem paga? A cantora Perla, por exemplo, que direito tem por terem agendado um fim de semana e retirado o palco do seu orçamento de artista? Quem paga?
Quem bolou e produziu o evento? Não ficou claro, de pronto, que tenha sido aprovação da nova administração Eduardo Paes... Terá sido mais uma das últimas da era César Maia? Mas como a TV Globo caiu nessa?
AVIÕES, SHOW REDBULL, NÃO PRODUZIRAM CAOS TOTAL NO RIO
Por falar em Enseada de Botafogo, surge uma oportunidade para lembrar de um mega-evento, aqueles pequenos aviões fazendo piruetas numa estranha competição aérea sob patrocínio da bebida energética Redbull dois anos atrás. Centenas de milhares de pessoas foram para o bairro de passagem entre Copacabana e Flamengo. Transtorno, sim, houve pelo tamanho inesperado da multidão, uma grandeza que, segundo alguns meios de comunicação, alcançou hum milhão de almas curiosas ou emocionadas das ruas. Mas, mesmo tendo faltado camelô para atender a tanta demanda num dia de sol e mormaço - acabou cerveja em todos os bares e supermercados da área, faltou até água de copinho plástico, banheiros, um certo caos -, sobrou civilidade: famílias inteiras unidas em torno da novidade... Aviões da Força Aérea complementando as manobras no ar, pára-quedistas...
Um esplendor de fim de semana carioca, provando que não é a quantidade exagerada que propicia o caos, mas sim o caos é que propicia a quantidade errada no lugar errado, na data errada e no evento errado. De outra forma, o Dudu Portela teria de suspender os festejos de cada réveillon na orla do Rio de Janeiro.
MONOBLOCO ATRAI 500 MIL À AVENIDA RIO BRANCO
Ou Dudu Portela teria de proibir o desfile do Monobloco em 2009? Claro que não . A "escola" de Pedro Luiz e a Parede atraiu meio milhão de jovens para a festa na Avenida Rio Branco, uma multidão carioca no estilo do Bola Preta em pleno domingo de aniversário do nosso querido Rio de Janeiro. Faltou banheiro, e o choque de ordem não coibiu a urinação em público, apenas pegou meia-dúzia de bodes expiatórios para exaltar a força da lei diante da impossiblidade. óbvia .
Bem fez o prefeito Dudu Portela ao manter o show de aniversário do Rio na Cidade de Deus, com MV Bill, Caetano Veloso, Dudu Nobre e outros. A questão da conveniência não é o tamanho da multidão, mas o lugar certo na hora certa. O show rolou e.... No stress!
DOIS DOCUMENTARISTAS CARIOCAS NO YOUTUBE
Muitas pessoas registraram de forma amadoristica aquele evento da Redbull. Entre estas pessoas, dois cariocas de Botafogo, praticamente quase profissionais, no sentido de perseverança, qualidade e empenho constantes. São eles Ed Sartori, que detém o título TV Enseada, e João Saboia, que se mudou para Resende e lá se tornou um cronista visual da cidade por meio de sua Resende TV, um simples título, um "canal" de imagens registrado no Youtube, que mostra centenas de vídeos desses dois cariocas.
(Um parêntese a propósito do Youtube: esta ferramenta pertencente ao Google está criando jurisprudência, funcionando na prática como um moderno cartório, com os títulos e seus proprietários ganhando foro de legitimidade internacional)
João Saboia registrou a volta dos torcedores do Resende, chegando em pleno carnaval à pequena cidade ao Sul da capital, depois de eliminar o Flamengo no Maracanã. Aguarda-se o resultado do que terá documentado depois da vitória maravilhosa do Botafogo sobre o Resende, por 3 a 0, levando assim a Taça Guanabara para General Severiano.
A cidade de Resende, além de empresários entrando no ramo de futebol, tem também ali sediada parte da indústria de montadoras do Brasil. Saboia registra esses avanços, a riqueza, a tristeza e a alegria de Resende. E segue registrando as coisas do nosso Rio, que aqui Saboia passa pelo menos dois dias por semana. Ed Sartori, por sua vez, registra qualquer evento especial que se dê em Botafogo. Sartori virou um plantonista do bairro.
Esses dois cariocas têm em comum, além do fato de serem de Botafogo, usarem essas câmeras digitais, cada vez mais baratas e mais eficientes. São dois documentaristas, novos antropólogos do cotidiano, antropólogos do futuro. Não pedem nada a ninguém. Não enchem o saco. Apenas oferecem material audiovisual à democracia dos acessos na internet.
Este jornal Correio da Lapa vai começar a oferecer de forma mais consolidada esses registros independentes, via câmeras digitais, para comprovar e valorizar cada frase que aqui nasce ou aqui ganha guarida.