sexta-feira, 8 de março de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Paulo Herkenhoff e o MAR, o Museu de Arte do Rio

Na TV da Folha de São Paulo sobre o MAR
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http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=100762729



E no jornal:



Paulo Herkenhoff, diretor cultural da nova instituição de arte do Rio


- Você tem metas para o aumento da coleção?

PH - Eu sou borgeano, freudiano e warburguiano [referente ao historiador da arte alemão Aby Warburg (1866 - 1929)]. Parar de colecionar é conversar com a morte. O que é a pulsão de vida em um coleção é a coleção viva, continuando. Eu sou warburguiano pelas formas transversais. Estou muito interessado em livros de artistas.
Eu escrevi um artigo chamado "Pum e cuspe no museu" para lidar com os pequenos atos, para quem não entende o conceito de "inframince", de Marcel Duchamp, em que ele fala dos pequenos fatos na vida que nos atordoam, que criam diferença, que nos capturam no estranhamento.
Para isso, ele cita como exemplo o roçar da calça de veludo como um som que se dispara e nos dá uma outra percepção do mundo. Se eu não souber diferenciar um "inframince" de um barulho qualquer, eu posso achar que isso é um pum.
Da mesma maneira, se eu não estudar o informe, certos pequenos gestos, eu vou pensar que o escarro, que é origem da noção de informe, é cuspe. Aí, eu não vou entender a obra do porco empalhado do Nelson Leirner. Eu vou achar que é porco, e a obra é arte, assim como posso pensar que é arte, quando é apenas porco.
E, para terminar com Borges, ele dizia que os argentinos tinham direito a Hamlet e ao cosmos.

- Você diz que o MAR não é um museu de eventos, você acha que os museus no Brasil são muito preocupados com eventos?

PH - Não sei. Posso dizer que este [o MAR] não é um museu de eventos. É o museu necessário. Há dez anos eu quis fazer um programa de educação para atender 200 mil crianças de rede municipal e me puxaram o tapete. Este projeto aqui era para o Museu de Belas Artes. A ideia de um museu para a rede pública era de 2003.

- E por que não aconteceu, quando você era diretor do Museu de Belas Artes?

PH - Porque o dinheiro foi negado. Então qual é missão de um museu no Rio? Primeiro, colecionar. Quais museus do Rio têm missão clara? Acho que o MAM (Museu de Arte Moderna) está construindo uma visão clara, tem um programa de exposições muito importante, um programa de debates, mas não está colecionando. Sem colecionismo não existe ideia de museu.

- Qual era a ideia original? É verdade que se pensou em uma Pinacoteca, ou em um museu para guardar o acervo de Roberto Marinho?

PH - Sobre isso você nunca vai ver algo escrito, apenas intriga. Quem disse isso? Intriga é fácil fazer.

- Mas Pinacoteca era a ideia original...

PH - Não vamos misturar alhos com bugalhos. Esse é um museu da cidade do Rio para a população do Rio, pensado para a rede pública municipal de ensino. Se for bom para a rede pública, será bom para os cidadãos do Rio, e se for bom para o cidadão do Rio, será bom para os turistas. Se a gente fizer um museu que discuta bem o Rio, vai ser bom para nós e para o Rio. Esse é o primeiro ponto.
Esse museu, inicialmente, foi pensando, não por mim, para abrigar, temporariamente, coleções privadas, mas sem nenhuma conexão com os organizadores do museu. Ou seja, era um museu que parecia museu mas não era. Museu sem coleção é centro cultural. Isso foi entendido. A ideia de chamar Pinacoteca não é minha, mas o nome Museu de Arte do Rio de Janeiro é meu. Pinacoteca é coleção de pinturas, então seria inadequado. Temos que ser lógicos na escolha das palavras.
Quando se incorpora o nome museu, incorpora-se tudo que é da civilização de museus: que forma coleção, que estuda sua coleção, que registra. Nós temos trabalhos já começados a serem feitos com universidades para o estudo da coleção.
Não é um museu que tem um penduricalho de gente, mas que trabalha com muita gente. De uma universidade vêm 12 professores, o que é um trabalho de troca mútua, porque não envolve dinheiro. A universidade quer pesquisar, nós desejamos pesquisadores e é a universidade que define a pauta. Nós não vamos substituir a universidade, mas ser um espaço de reflexão.
Mais: não tem "interior decoration", não tem shopping. Tudo aqui tem sentido. Se você me perguntar sobre qualquer obra que você viu, eu vou lhe explicar porque ela está na coleção, porque ela está na exposição e porque ela está naquela posição na exposição. Eu não prego uma obra na parede sem saber que obra é essa, qual seu sentido histórico, qual é sua relação em uma exposição. Eu não faço decoração de interior e nem defendo consumo.

- Estamos em um momento no Brasil que o mercado define as relações com a arte?

PH - Quais são as notícias que mais saem nos jornais? O mercado é necessário, mas é necessário na instância própria do mercado.
Esse museu é um trabalho onde a sociedade civil participa em um eixo entre o Estado e o mercado, cada um em uma posição. Isso se chama esfera pública na teoria habermasiana. Qual é o lugar da arte na esfera pública do Rio? Quais são os museus que estão introduzindo a esfera pública, pensada como tal?
Quando eu digo que nós temos mais de 40 fundos, isso significa que nós temos mais de 40 decisões de apoiarem a constituição de um acervo para o Rio, para o sistema educacional.
Como eu disse, não é cultura do espetáculo. Não há preocupação com recorde. Eu não disse em nenhum momento o valor de uma obra. Eu não falei de raridades.
Eu digo que a incorporação mais importante no MAR é a aquisição de um Aleijadinho, o que não havia em nenhum museu da cidade. É preciso pensar o que significa uma cidade que não tem Aleijadinho e nem o está buscando, em termos da história da arte brasileira e o que ele representa no presente, como ele alimenta o presente em valores simbólicos e para a população afro-brasileira.

Há uma questão essencial no MAR que é a preocupação com o educativo, mas museus, como o MAM nos anos 1960, tiveram uma papel importante para estimular a produção artística. Existe essa preocupação aqui?

PH - Há alguns pontos que sustentam o arco da educação no MAR, entre esses pontos há um projeto de pequenos cursos profissionalizantes para adolescentes das comunidades, sem grandes oportunidades, que é como ensinar fazer moldura, montar uma exposição, ou seja, preparar jovens que possam adquirir uma profissão. Isso já está em marcha.
Depois teremos também seminários de curadoria, coordenados pela Lisette Lagnado. Isso ainda não começou, talvez no segundo semestre, ou mesmo no ano que vem. Mas a ideia é ter seminários, que durem três ou quatro meses. Primeiro as pessoas passam uma semana no Rio, depois viajam e voltam.
Depois nós vamos ter residências de artistas. Já temos autorização para alugar uma casa no Morro da Conceição, só não está sendo trabalhado agora, porque a prioridade é o processo de institucionalização.
O Rio tem uma dificuldade para criar um sistema de massa de arte e educação. Qualquer capital importante, você pega Belém do Pará, por exemplo, eles levam dez mil crianças ao Arte Pará, com monitoria, ônibus, pessoas que ajudam. Isso em Belém do Pará, na Amazônia, um lugar distante, fora do sistema de lei Rouanet.
Você vai a Porto Alegre e há uma tradição histórica. Há 30 anos eu vou a Porto Alegre, com a Evelyn Ioschpe, e há 30 anos já se trabalha lá com arte e educação.
Na Bienal de São Paulo, eu levei 200 mil crianças, um projeto de massa. E isso é muito importante. Temos dois desafios: um é como você traz, não é fácil trazer, custa dinheiro; o outro problema é como você individualiza, lidando com a massa, quais os sistemas de poder que se estabelecem e precisam ser rompidos.
O professor de arte não é o que não sabe, é o que pode. Se você diz que uma curadoria é um saber superior, você diz que o professor, que rala com a criança, não sabe. Claro que ele sabe, inclusive dar a dimensão da incomunicabilidade.
Nesse sentido, o MAM do Rio tem um trabalho importante, o [Guilherme] Vergara, no MAC de Niterói, tem um trabalho importante, a Casa Daros vai ter um papel importantíssimo. Mas cadê os outros museu? Eles não têm recursos.

- E o papel dos centros culturais, como o CCBB?

PH - É bom, mas eles têm outra dimensão. Há os centros culturais financiados por empresas, que têm uma necessidade de performatividade importante, ligado ao sistema de marketing. O banco fez 150 anos, tem uma campanha vinculada a crianças, então faz uma exposição de novos artistas. Isso não é o que a gente quer. A gente quer independência. A gente não pretende ter a maior visitação do ano.
Nós pretendemos explorar ao máximo o resultado social do custo financeiro que tem um museu. Quanto custa para a cidade produzir um museu como esse? Esse custo tem que ser defendido a cada centavo, ele tem que produzir uma irradiação correspondente. Eu sei fazer uma exposição bonita, mas fazer uma exposição que realmente signifique algo para pessoas que nunca vieram ao museu é o nosso desafio.
Como receber uma pessoa que cruza esse espaço desconhecido, que para ela é uma barreira social, já que ela nem sabe se está vestida corretamente, ela tem medo de se comportar. Isso tudo tem que ser visto com enorme afetividade.

- Mas metade da verba para o funcionamento do museu será buscado no mercado, via Lei Rouanet...

PH - Não uso esse conceito de mercado porque eu não trabalho com produtos. Nunca trabalhei com produtos. Trabalho com livros, curadorias, textos, aulas, visitas mediadas, esse é meu processo.
O mercado é muito importante, mas dentro do MAR há um grupo de empresários que vai trabalhar isso, mas não para desenvolvimento econômico, e sim para desenvolvimento social. E nós seremos avaliados por isso, por instituições como a Fundação Roberto Marinho, que tem a Vera Guimarães, que nos anos 1960 foi assistente do Paulo Freire, e já alfabetizou cinco milhões de crianças.

- Como é a estrutura do MAR?

PH - Nós não queremos uma penca de gente aqui, nós queremos abrir espaço para as pessoas. Por isso, a exposição da coleção Fadel, eu estou fazendo junto com o [Roberto] Conduru, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A exposição do Rio é feita por um professor universitário e um curador da Pinacoteca de São Paulo e professor da USP. Não se trata de criar um corpo burocrático com funcionários donos de seus espacinhos. Isso é um museu onde o pensamento é vivo. A biblioteca vai começar, em julho, com 5 mil volumes. Você tem ideia de como estão as bibliotecas do Rio? O Museu Nacional de Belas Artes tem comprado livros? Comprar livros não dá resultado político!
Eu não vou mudar o mundo, mas com essa equipe a gente pode transformar essa cidade. Eu vou trazer o [filósofo francês Jacques] Rancière, o [cineasta alemão Harun] Farocki, o [historiador francês] George Didi-Huberman, mais os do Brasil, como o Daniel Lins, especialista em Deleuze, no Ceará, isso vai transformar o Rio.
O Rio ficou à margem, o que se passa de importante no Rio de Janeiro, que realmente produza transformação? Eu sempre salvo o MAM, porque acho que ele faz um trabalho sensacional, mas o MAM não esgota as necessidades do Rio.

(FABIO CYPRIANO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO)
 


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Yoani Sánchez no Poder depois de Havel, Mandela, Walesa e Dilma Rousseff



De mim mesmo

By Alfredo Herkenhoff
Correio da Lapa
Para Yoani Sánchez


Yoani Sánchez! Yoani Sánchez!

Peço desculpas aos cubanos por escrever sobre vocês e o seu país sem nunca ter pisado aí.
 Mas gosto de lembrar do meu conterrâneo, o socialista Rubem Braga, ao visitar Cuba meses depois da vitória da Revolução, escrevendo o seguinte: Fidel fala muito, mente e não cumpre promessas.

Depois da Polônia de Lech Walesa, da África do Sul de Nelson Mandela, da Techoeslováquia de Vacláv Havel e do Brasil da Dilma Rousseff, não é difícil pensar que num futuro não distante Cuba estará sob influência crescente da pacifista Yoani Sánchez. Não que ela necessite de cargo de presidência. Na Índia Gandhi também não precisou. Mas é notório que o processo é este.

 As acusações desferidas contra a Yoani em sua presente passagem pelo Brasil exibem contradições impressionantes. De um lado, os detratores sem argumentos, repetindo à distância os chavões castristas: Yoani é mercenária, está a serviço dos EUA, agente da CIA e congêneres. Do outro, o incensar pura e simples, com denúncias de que governos do Brasil e de Cuba teriam firmado um plano para desmoralizar ou esvaziar a figura da doce blogueira.

 Não vi em nenhuma das bandas uma reflexão no estilo doa general comunista  Woyciech Jaruzelski: hoje até eu votaria em Lech Walesa. Especulo que, ao autorizar a viagem de 80 dias de Yoani ao redor das principais democracias do mundo, Raul Castro assinalou, no plano do seu subconsciente, um pedido de socorro ou uma anuência íntima: Cuba precisa de todos os cubanos, a sociedade real não é partido único. 

Os indicadores sociais da Cuba de Fulgencio Batista (tempo das torturas, cassinos e turismo sexual para americanos) eram impressionantes. O índice de analfabetismo em Cuba era um dos menores senão o menor da América Latina mesmo antes de Fidel descer a Sierra Maestra.

  Fazendo caricaturas: os Estados Unidos são um resumo do mundo. O Brasil, um resumo dos Estados Unidos. Cuba, um resumo do Brasil. Três nações bem diversificadas. 

Os Estados Unidos,  o pais mais racista, têm o negro Obama comandando a massa na Casa Branca.

 O Brasil, o mais promissor no sentido de inclusão social de massas de desassistidos, vive hoje na dependência de altos preços de commodities agrícolas e minerais.  Até quando isso vai ser possível com tantos gargalos na nossa infra e nos desequilíbrios da carga tributári

 E Cuba, a Ilha-Presépio-Última-Esperança-de-um-Jesuscristinho-socialista-para-sempre, é a situação mais universalmente ditatorial.

 Nos tempos de internet, com acesso livre, essas censuras no Irã, na China e em Cuba vão caindo por terra a cada semestre – não dá mais para segurar o fluxo de informação nem alegar que se vive assim por causa do inimigo. Aquela coisa sartreana de o inferno são os outros, o meu mal é o bloqueio comercial americano, isso não cola mais...  Os jovens chegaram...

 No romance cubano “Neblinas del Ayer”, de Leonardo Padura, ambientado já no Século 21, há descrições surpreendentes de uma Havana que nenhum turista brasileiro conhece. Há bolsões na charmosa capital caribenha que se assemelham a pequenos morros do Alemão, lugares onde nem a polícia castrista apita.
O filme Guantanamera, filme cubano de 25 anos atrás, já mostrava as sementes desse mercado negro e informal ditando regras reais da oferta e demanda. 

Em fins dos anos 80, ou seja, também uns 25 anos atrás, ocorria um fenômeno pouco noticiado pelos jornais brasileiros da época: nos cinemas em Cuba, os filmes eram precedidos de uma eterna propaganda política incensando Che Guevara, Fidel e a Revolução. Mas a garotada, aproveitando o escurinho do cinema, vaiava e vaiava, e isso constrangia do lanterninha ao comandante Fidel.

 Lembro essas coisas para frisar que o fenômeno Yoani não é algo que eclode agora, que começa agora, mas simplesmente culmina um longo processo em que cubanos estão amadurecendo para chegar ao tempo de uma distensão lenta, gradual e segura com um objetivo pétreo: a redemocratização... Tirem-me tudo, já tiraram, menos a liberdade, também já tiraram. Então, por favor, devolva-me. Se você não topar...

 Mil Yoanis vão se multiplicar por mil a cada minuto. A oposição cubana não quer derrubar nem matar Raul. Isso é resquício de velhos anticastristas ridiculamente apoiados pelo Congresso americano.  O oposição quer espaço e inventa esses espaços para discutir bons caminhos para um reencontro da sociedade cubana. Yoani e Padura amam Cuba e respeitam o poder de Raul Castro, não promovem revolução, apenas querem restabelecer a conversa amistosa entre cubanos sobre as melhores  opções para os próximos anos.

Mas toda essa digressão é para especular que, caso se confirme aquela primeira especulação, Yoani chegando ao Poder não para acertar contas, mas para conciliar uma sociedade maravilhosa, o futuro ministro da Cultura será Leonardo Padura Fuentes.


 
Eis o que fala  secamente o Wikipedia em língua portuguesa sobre Leonardo Padura (foto), mas de pronto aviso:  li o seu livro ”Neblinas del Ayer”, presente que ganhei de uma amiga diplomata que serve em Londres e que já esteve pessoalmente com Fidel, e depois comento a obra...: 


Leonardo Padura Fuentes, nascido em Havana, 1955 — ou simplesmente Leonardo Padura, como é conhecido internacionalmente — é escritor e jornalista cubano, considerado um dos melhores de seu país.

Padura assumiu a cadeira de literatura latino-americana na Universidade de Havana. Destacou-se como jornalista investigativo e, depois, como ensaísta, roteirista e autor de novelas policiais.


Seu livro Paisaje de otoño conquistou o Prêmio Hammett (uma homenagem a Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltês) da International Association of Crime Writers — que não deve ser confundido com o prêmio homônimo concedido pela filial estadunidense da associação a autores nascidos nos Estados Unidos e Canadá.



Sua tetralogia Las cuatro estaciones, com histórias do detetive Mario Conde, começou a ser publicada em inglês. Os livros são:



    Pasado perfecto ("Havana Blue", 2007), 1991

    Vientos de cuaresma ("Havana Yellow", 2008)), 1994

    Mascaras ("Havana Red", 2005), 1997

    Paisaje de otoño ("Havana Black", 2006), 1998.



Padura publicou também dois livros subseqüentes apresentando o detetive Conde: Adios Hemingway e La neblina del ayer Neste momento, Padura está a finalizar um romance em que os protagonistas são o revolucionário russo León Trotsky e o seu assassino, Ramón Mercader.



Livros seus já foram traduzidos para o italiano, o alemão e o português.



Livros de Padura editados em português (Portugal)



    Adeus, Hemingway

    Morte em Havana (Máscaras)

    A neblina do passado

    Paisagem de Outono

    O Romance da Minha Vida

    Um Passado Perfeito

    Ventos de Quaresma

    O Homem Que Gostava De Cães


Canção da blogueira - Pour Yoani Sánchez

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Meteorito na Rússia - TV no Brasil e o futuro



Meteorito na Rússia...

TV no Brasil e o futuro...


Em 1970, uma Copa do Mundo – a do México - teve transmissão ao vivo para o Brasil pela primeira vez. Mas apenas os ricos e os generais da ocasião puderam ver os jogos a cores. Naquela altura, a TV em preto e branco já existia no Brasil há 20 anos, mas o povão ainda não tinha grana pra comprar. Via televisão na calçada das lojas e na calçada do vizinho. Na mesma época, com sua TV ainda estatal, a RAI, a Itália só tinha sistema PB, enquanto os ingleses há anos já curtiam as transmissões a cores.

 É claro que a Itália poderia ter feito a toque de caixa a migração do PB para as cores. Mas o governo ponderou: praticamente toda a população italiana possuía TV preto e branco. Pra que, então, gastar dinheiro com o supérfluo? O aparelho a cores poderia demorar um pouco mais. E iria ficar bem mais barato. A população italiana tinha outras prioridades. Atrasar a TV a cores foi um ato sagaz do governo da Itália. No Brasil, então muito pobre, as cores na TV foram uma precipitação desnecessária. A oferta da novidade foi um escárnio social. Afinal, em 1970, ao contrário da Itália, o Brasil possuía cidades inteiras sem sequer luz elétrica, muita pobreza e analfabetismo demais.
Quando a TV chegou ao Brasil, em1950, quase toda a população tinha acesso ao rádio, que abrangia grande parte do território nacional.  O rádio continuou fortíssimo durante os primeiros 20 anos depois que a TV Tupi foi inaugurada pelo visionário Assis Chateaubriand em São Paulo e logo no Rio.
A massificação de aparelhos de televisão postos ao alcance de todos os brasileiros, ou quase todos, deu-se a partir da década de 1990 e avançou ainda mais nesses anos 2000. Por isso estamos na primeira geração de todos os brasileiros vendo televisão.
O resultado é que a televisão se apropriou de toda a população brasileira. Criou-se uma extravagante consciência da realidade e que pode ser resumida na seguinte perversão: se não passa na TV não existe. A TV Globo, campeã de audiência há várias décadas, não faz outra coisa. As outras, cada uma em seu confortável nicho de audiência – confortável porque também estão quase todas ganhando bom dinheiro – seguem o líder.  
E porque há tão pouco tempo – só 25 anos, uma só geração? – todos os brasileiros têm acesso, temos um dos maiores países, uma das maiores economias, uma das maiores populações do planeta, uma grande nação inteira sequestrada, ocupada por um invasor sem culpa. Mas eis que veio a internet – como uma espécie de castigo tecnológico - e erigiu nova situação: fora das transmissões esportivas, o grande universo de telespectadores da TV aberta no Brasil de hoje envelheceu inapelavelmente. Ou não dispõe de suficiente curiosidade intelectual para compreender o que está se passando no bairro, na cidade, no país, no mundo e no cosmo. Em outras palavras: no Brasil por ela ocupado TV é coisa de gente mais velha, menos informada e menos exigente.



Meteorito

Horas atrás, por exemplo, a bela Sandra Annenberg no Jornal Hoje perguntava a um colega da TV Globo em Nova York, acho que se chama Júlio Mosqueira, sobre o que tinha acontecido na Rússia. Que meteorito foi esse? Caraca! O que é que um colega em Nova York, por mais operoso, pode saber sobre o meteorito russo a não ser pelas vias de informação ao alcance de qualquer um em qualquer parte, a começar pela bela Annenberg em São Paulo? É um teatro do absurdo. Um cara em Nova York está tão longe dos Montes Urais, onde o tal meteorito se enfiou, quanto eu aqui em Botafogo, diante do Google News ou do Youtube! Essas duas ferramentas já tinham me exposto uma tempestade de informações que a TV brasileira demora a editar, demora a dar, enredada que está em suas próprias armadilhas da forma papai-mamãe, feijão-com-arroz, caretésimas, em violento desprezo pelo conteúdo. Não que a Annenberg (fingindo não saber o que estava acontecendo com o meteorito, precisando perguntar ao colega de Nova York) e o Mosquera sejam uns patetas. Nada disso. São ótimos profissionais. Patetas são os caciques da Globo, da Record, do STB, da Band e do resto da turma. Patetas e prósperos, mas perdidamente aparvalhados na mesmice que envolve as TVs na mesma névoa turva em que a TV envolveu o Brasil.
E essa parvoíce se repete o tempo todo. Diante de um grande acontecimento em Roma, o apresentador da TV aqui no Brasil pergunta a uma menina em Londres o que é que está se passando na capital italiana.  Como se a boa menina só por estar em um ponto qualquer da Europa – em plena era da internet, do Google, do Youtube - soubesse mais que qualquer mortal de Botafogo sobre alguma coisa que está abalando Roma.
Não se pode negar que TV aberta e TV paga produzem eventualmente reportagens excelentes no Brasil. O que se observa aqui é a estratégia para uma derrocada anunciada.
 Não que o apresentador do eixo Rio-São Paulo e a menina de Londres sejam dois idiotas. Nada disso. São profissionais corretos. Idiotas aparentemente parvos são, outra vez, os caciques e editores dessa TV caldo ralo que rola por aí a caminho do ralo das audiências minguantes. A Globo e todas as suas afiliadas, por afiliadas se entenda a Record, o SBT, as Band e o resto da turma porque todas se fazem à imagem e semelhança do líder – Follow the leader! Follow the money - todas elas têm que fingir uma dinâmica cosmopolita sem saber que falam a um país de seres eminentemente locais. Mas não têm aquela gana em buscar novidade com quem tem algo de novo a dizer ou mostrar. Então, os jornalistas ficam ali trocando figurinhas para a audiência anciã ou desligada da velha e insubstituível curiosidade intelectual. A garotada do lado de cá não fica diante da telinha. Só ficam os avós e bisavós, além dos analfabetos digitais.
Alguém no Brasil pergunta alguma coisa a alguém em Londres e o pobre Alguém de Londres proclama o que todo mundo já sabe e já viu na internet. O Alguém de Londres também já viu na internet à beira do Tâmisa...
Mas a parvoíce, ou idiotia, extravagância, patetice aparvalhada, escorreu para além dos limites da TV aberta. Chegaram aos canais por assinatura.
Resultado: alguns dos melhores jornalistas da TV brasileira, meia dúzia deles, merecem, há meses, minibiografias de propaganda pessoal insossa. Trinta segundos a cada um várias vezes dia e noite, semana após semana, mês após mês. Mini verbetes, micro currículos, mera auto divulgação, mini auto celebração. Céus! O que é que o distinto público tem a ver com isso? Por que os caciques e editores não dão uma olhada na melhor TV que se faz no mundo e não aproveitam os “intervalos” obrigatórios para minirreportagens, mini-informação, miniprestação de serviço, miniutilidade, minicrítica?
Não que os colegas incensados à exaustão sejam patetas. Nada disso! São ótimos profissionais experientes, antenados, bem educados. O distinto público gosta do trabalho de todos eles. Mas, obviamente, está se lixando para as irrelevâncias. Há uns bons 15 anos , a tiragem dos principais jornais em papel do Rio e de São Paulo vem despencando dramaticamente. Vários impressos dando adeus às bancas. O nosso JB! Putz! Jornal da Tarde, Gazeta Mercantil, Tribuna da Imprensa... Uma das razões é que trocaram a informação pela divulgação e, ultimamente, trocam pela celebração. Pois a TV por assinatura desanda pelo mesmo caminho.
 Não contentes com a Divulgação-Celebração de empresários, políticos e governantes, passam, agora, a divulgar e celebrar os próprios repórteres e comentaristas, propaganda pessoal diária. Até a esplendorosa Maria das tardes e seus Beltrão Boys entraram nessa... Jornalista incensar jornalista... Caraca!
Não entro no mérito brechtiano de que a propaganda é o altar do demônio ou o próprio inferno. Nem concordo com isso. Mas gosto da imagem. E, por essas e outras, o vale tudo pelos 15 segundos de glória está cada vez mais prevalecendo sobre o jornalismo da TV. Assim como a TV “prevaleceu” sobre os gostos, os hábitos, os cacoetes, as manias do Brasil inteiro, subjugando-o e criando uma nova sociedade, uma nova enorme população de 200 milhões de submissos e indefesos.
E antes que me esqueça, tem também os diretores de jornalismo, diretores disso e daquilo cujos nomes aparecem depois de cada programa. Até ao fim de um programa qualquer feito pela BBC na Groenlândia, ou a CNN na Indonésia, ou a Fox News na Nova Zelândia – putz! – lá está a assinatura do cacique ou da “cacica” daqui do Rio ou de São Paulo. Caraca! Neguinho faz um especial sobre Rubem Braga, e termina lá com o créditos dos diretores. Neguinho faz um belo especial, como o Geneton fez sobre Joel Silveira, e aparecem lá os nomes dos diretores. Os caras fazem há anos o Manhattan Connection lá em Nova York, são uns craques do bate-papo bem antenado, e o nome dos diretores fecha o programa. Arre que é ter ego! – como diria o velho Eça. Arre que é ser caipira!
Mas eis que me alongo nessa queixa vã e paro por aqui. Arre que é ter saco!!! Prefiro de novo assistir ao Youtrends no Youtube, 700 mil visualizações nos últimos seis dias, sem nenhuma propaganda na grande mídia, apenas o velho bom humor nessas novidades do mashup...
(Por Alfredo Herkenhoff,  Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2013)