sexta-feira, 8 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
Paulo Herkenhoff e o MAR, o Museu de Arte do Rio
Na TV da Folha de São Paulo sobre o MAR
.
http://www.skyscrapercity.com/ showthread.php?p=100762729
E no jornal:
PH - Não sei. Posso dizer que este [o MAR] não é um museu de eventos. É o museu necessário. Há dez anos eu quis fazer um programa de educação para atender 200 mil crianças de rede municipal e me puxaram o tapete. Este projeto aqui era para o Museu de Belas Artes. A ideia de um museu para a rede pública era de 2003.
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http://www.skyscrapercity.com/
E no jornal:
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Paulo
Herkenhoff, diretor cultural da nova instituição de arte do Rio
|
- Você
tem metas para o aumento da coleção?
PH - Eu
sou borgeano, freudiano e warburguiano [referente ao historiador da arte alemão
Aby Warburg (1866 - 1929)]. Parar de colecionar é conversar com a morte. O que
é a pulsão de vida em um coleção é a coleção viva, continuando. Eu sou
warburguiano pelas formas transversais. Estou muito interessado em livros de
artistas.
Eu
escrevi um artigo chamado "Pum e cuspe no museu" para lidar com os
pequenos atos, para quem não entende o conceito de "inframince", de
Marcel Duchamp, em que ele fala dos pequenos fatos na vida que nos atordoam,
que criam diferença, que nos capturam no estranhamento.
Para
isso, ele cita como exemplo o roçar da calça de veludo como um som que se
dispara e nos dá uma outra percepção do mundo. Se eu não souber diferenciar um
"inframince" de um barulho qualquer, eu posso achar que isso é um
pum.
Da mesma
maneira, se eu não estudar o informe, certos pequenos gestos, eu vou pensar que
o escarro, que é origem da noção de informe, é cuspe. Aí, eu não vou entender a
obra do porco empalhado do Nelson Leirner. Eu vou achar que é porco, e a obra é
arte, assim como posso pensar que é arte, quando é apenas porco.
E, para
terminar com Borges, ele dizia que os argentinos tinham direito a Hamlet e ao
cosmos.
- Você
diz que o MAR não é um museu de eventos, você acha que os museus no Brasil são
muito preocupados com eventos?
PH - Não sei. Posso dizer que este [o MAR] não é um museu de eventos. É o museu necessário. Há dez anos eu quis fazer um programa de educação para atender 200 mil crianças de rede municipal e me puxaram o tapete. Este projeto aqui era para o Museu de Belas Artes. A ideia de um museu para a rede pública era de 2003.
- E por
que não aconteceu, quando você era diretor do Museu de Belas Artes?
PH - Porque
o dinheiro foi negado. Então qual é missão de um museu no Rio? Primeiro,
colecionar. Quais museus do Rio têm missão clara? Acho que o MAM (Museu de Arte
Moderna) está construindo uma visão clara, tem um programa de exposições muito
importante, um programa de debates, mas não está colecionando. Sem colecionismo
não existe ideia de museu.
- Qual
era a ideia original? É verdade que se pensou em uma Pinacoteca, ou em um museu
para guardar o acervo de Roberto Marinho?
PH - Sobre
isso você nunca vai ver algo escrito, apenas intriga. Quem disse isso? Intriga
é fácil fazer.
- Mas
Pinacoteca era a ideia original...
PH - Não
vamos misturar alhos com bugalhos. Esse é um museu da cidade do Rio para a
população do Rio, pensado para a rede pública municipal de ensino. Se for bom
para a rede pública, será bom para os cidadãos do Rio, e se for bom para o
cidadão do Rio, será bom para os turistas. Se a gente fizer um museu que
discuta bem o Rio, vai ser bom para nós e para o Rio. Esse é o primeiro ponto.
Esse
museu, inicialmente, foi pensando, não por mim, para abrigar, temporariamente,
coleções privadas, mas sem nenhuma conexão com os organizadores do museu. Ou
seja, era um museu que parecia museu mas não era. Museu sem coleção é centro
cultural. Isso foi entendido. A ideia de chamar Pinacoteca não é minha, mas o
nome Museu de Arte do Rio de Janeiro é meu. Pinacoteca é coleção de pinturas,
então seria inadequado. Temos que ser lógicos na escolha das palavras.
Quando se
incorpora o nome museu, incorpora-se tudo que é da civilização de museus: que
forma coleção, que estuda sua coleção, que registra. Nós temos trabalhos já
começados a serem feitos com universidades para o estudo da coleção.
Não é um
museu que tem um penduricalho de gente, mas que trabalha com muita gente. De
uma universidade vêm 12 professores, o que é um trabalho de troca mútua, porque
não envolve dinheiro. A universidade quer pesquisar, nós desejamos
pesquisadores e é a universidade que define a pauta. Nós não vamos substituir a
universidade, mas ser um espaço de reflexão.
Mais: não
tem "interior decoration", não tem shopping. Tudo aqui tem sentido.
Se você me perguntar sobre qualquer obra que você viu, eu vou lhe explicar
porque ela está na coleção, porque ela está na exposição e porque ela está
naquela posição na exposição. Eu não prego uma obra na parede sem saber que
obra é essa, qual seu sentido histórico, qual é sua relação em uma exposição.
Eu não faço decoração de interior e nem defendo consumo.
- Estamos
em um momento no Brasil que o mercado define as relações com a arte?
PH - Quais
são as notícias que mais saem nos jornais? O mercado é necessário, mas é
necessário na instância própria do mercado.
Esse
museu é um trabalho onde a sociedade civil participa em um eixo entre o Estado
e o mercado, cada um em uma posição. Isso se chama esfera pública na teoria
habermasiana. Qual é o lugar da arte na esfera pública do Rio? Quais são os
museus que estão introduzindo a esfera pública, pensada como tal?
Quando eu
digo que nós temos mais de 40 fundos, isso significa que nós temos mais de 40
decisões de apoiarem a constituição de um acervo para o Rio, para o sistema
educacional.
Como eu
disse, não é cultura do espetáculo. Não há preocupação com recorde. Eu não
disse em nenhum momento o valor de uma obra. Eu não falei de raridades.
Eu digo
que a incorporação mais importante no MAR é a aquisição de um Aleijadinho, o que
não havia em nenhum museu da cidade. É preciso pensar o que significa uma
cidade que não tem Aleijadinho e nem o está buscando, em termos da história da
arte brasileira e o que ele representa no presente, como ele alimenta o
presente em valores simbólicos e para a população afro-brasileira.
Há uma
questão essencial no MAR que é a preocupação com o educativo, mas museus, como
o MAM nos anos 1960, tiveram uma papel importante para estimular a produção
artística. Existe essa preocupação aqui?
PH - Há
alguns pontos que sustentam o arco da educação no MAR, entre esses pontos há um
projeto de pequenos cursos profissionalizantes para adolescentes das
comunidades, sem grandes oportunidades, que é como ensinar fazer moldura,
montar uma exposição, ou seja, preparar jovens que possam adquirir uma
profissão. Isso já está em marcha.
Depois
teremos também seminários de curadoria, coordenados pela Lisette Lagnado. Isso
ainda não começou, talvez no segundo semestre, ou mesmo no ano que vem. Mas a
ideia é ter seminários, que durem três ou quatro meses. Primeiro as pessoas
passam uma semana no Rio, depois viajam e voltam.
Depois
nós vamos ter residências de artistas. Já temos autorização para alugar uma
casa no Morro da Conceição, só não está sendo trabalhado agora, porque a
prioridade é o processo de institucionalização.
O Rio tem
uma dificuldade para criar um sistema de massa de arte e educação. Qualquer
capital importante, você pega Belém do Pará, por exemplo, eles levam dez mil
crianças ao Arte Pará, com monitoria, ônibus, pessoas que ajudam. Isso em Belém
do Pará, na Amazônia, um lugar distante, fora do sistema de lei Rouanet.
Você vai
a Porto Alegre e há uma tradição histórica. Há 30 anos eu vou a Porto Alegre,
com a Evelyn Ioschpe, e há 30 anos já se trabalha lá com arte e educação.
Na Bienal
de São Paulo, eu levei 200 mil crianças, um projeto de massa. E isso é muito
importante. Temos dois desafios: um é como você traz, não é fácil trazer, custa
dinheiro; o outro problema é como você individualiza, lidando com a massa,
quais os sistemas de poder que se estabelecem e precisam ser rompidos.
O
professor de arte não é o que não sabe, é o que pode. Se você diz que uma
curadoria é um saber superior, você diz que o professor, que rala com a
criança, não sabe. Claro que ele sabe, inclusive dar a dimensão da
incomunicabilidade.
Nesse
sentido, o MAM do Rio tem um trabalho importante, o [Guilherme] Vergara, no MAC
de Niterói, tem um trabalho importante, a Casa Daros vai ter um papel
importantíssimo. Mas cadê os outros museu? Eles não têm recursos.
- E o
papel dos centros culturais, como o CCBB?
PH - É
bom, mas eles têm outra dimensão. Há os centros culturais financiados por
empresas, que têm uma necessidade de performatividade importante, ligado ao
sistema de marketing. O banco fez 150 anos, tem uma campanha vinculada a
crianças, então faz uma exposição de novos artistas. Isso não é o que a gente
quer. A gente quer independência. A gente não pretende ter a maior visitação do
ano.
Nós
pretendemos explorar ao máximo o resultado social do custo financeiro que tem
um museu. Quanto custa para a cidade produzir um museu como esse? Esse custo
tem que ser defendido a cada centavo, ele tem que produzir uma irradiação
correspondente. Eu sei fazer uma exposição bonita, mas fazer uma exposição que
realmente signifique algo para pessoas que nunca vieram ao museu é o nosso
desafio.
Como
receber uma pessoa que cruza esse espaço desconhecido, que para ela é uma
barreira social, já que ela nem sabe se está vestida corretamente, ela tem medo
de se comportar. Isso tudo tem que ser visto com enorme afetividade.
- Mas
metade da verba para o funcionamento do museu será buscado no mercado, via Lei
Rouanet...
PH - Não
uso esse conceito de mercado porque eu não trabalho com produtos. Nunca
trabalhei com produtos. Trabalho com livros, curadorias, textos, aulas, visitas
mediadas, esse é meu processo.
O mercado
é muito importante, mas dentro do MAR há um grupo de empresários que vai
trabalhar isso, mas não para desenvolvimento econômico, e sim para
desenvolvimento social. E nós seremos avaliados por isso, por instituições como
a Fundação Roberto Marinho, que tem a Vera Guimarães, que nos anos 1960 foi
assistente do Paulo Freire, e já alfabetizou cinco milhões de crianças.
- Como é
a estrutura do MAR?
PH - Nós
não queremos uma penca de gente aqui, nós queremos abrir espaço para as
pessoas. Por isso, a exposição da coleção Fadel, eu estou fazendo junto com o
[Roberto] Conduru, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A
exposição do Rio é feita por um professor universitário e um curador da
Pinacoteca de São Paulo e professor da USP. Não se trata de criar um corpo
burocrático com funcionários donos de seus espacinhos. Isso é um museu onde o
pensamento é vivo. A biblioteca vai começar, em julho, com 5 mil volumes. Você
tem ideia de como estão as bibliotecas do Rio? O Museu Nacional de Belas Artes
tem comprado livros? Comprar livros não dá resultado político!
Eu não
vou mudar o mundo, mas com essa equipe a gente pode transformar essa cidade. Eu
vou trazer o [filósofo francês Jacques] Rancière, o [cineasta alemão Harun]
Farocki, o [historiador francês] George Didi-Huberman, mais os do Brasil, como
o Daniel Lins, especialista em Deleuze, no Ceará, isso vai transformar o Rio.
O Rio
ficou à margem, o que se passa de importante no Rio de Janeiro, que realmente
produza transformação? Eu sempre salvo o MAM, porque acho que ele faz um
trabalho sensacional, mas o MAM não esgota as necessidades do Rio.
(FABIO CYPRIANO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO)
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO)
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Yoani Sánchez no Poder depois de Havel, Mandela, Walesa e Dilma Rousseff
De mim mesmo
By Alfredo Herkenhoff
Correio da Lapa
Para Yoani Sánchez
Yoani Sánchez! Yoani
Sánchez!
Peço desculpas aos
cubanos por escrever sobre vocês e o seu país sem nunca ter pisado aí.
Mas gosto de lembrar do meu conterrâneo, o
socialista Rubem Braga, ao visitar Cuba meses depois da vitória da Revolução, escrevendo
o seguinte: Fidel fala muito, mente e não cumpre promessas.
Depois da Polônia de Lech Walesa, da África do Sul de Nelson
Mandela, da Techoeslováquia de Vacláv Havel e do Brasil da Dilma Rousseff, não
é difícil pensar que num futuro não distante Cuba estará sob influência
crescente da pacifista Yoani Sánchez. Não que ela necessite de cargo de
presidência. Na Índia Gandhi também não precisou. Mas é notório que o processo
é este.
As acusações desferidas
contra a Yoani em sua presente passagem pelo Brasil exibem contradições impressionantes.
De um lado, os detratores sem argumentos, repetindo à distância os chavões
castristas: Yoani é mercenária, está a serviço dos EUA, agente da CIA e congêneres.
Do outro, o incensar pura e simples, com denúncias de que governos do Brasil e
de Cuba teriam firmado um plano para desmoralizar ou esvaziar a figura da doce
blogueira.
Não vi em nenhuma das
bandas uma reflexão no estilo doa general comunista Woyciech Jaruzelski: hoje até eu votaria em Lech
Walesa. Especulo que, ao autorizar a viagem de 80 dias de Yoani ao redor das
principais democracias do mundo, Raul Castro assinalou, no plano do seu subconsciente,
um pedido de socorro ou uma anuência íntima: Cuba precisa de todos os cubanos,
a sociedade real não é partido único.
Os indicadores sociais da Cuba de
Fulgencio Batista (tempo das torturas, cassinos e turismo sexual para
americanos) eram impressionantes. O índice de analfabetismo em Cuba era um dos
menores senão o menor da América Latina mesmo antes de Fidel descer a Sierra
Maestra.
Fazendo caricaturas: os Estados Unidos são um
resumo do mundo. O Brasil, um resumo dos Estados Unidos. Cuba, um resumo do
Brasil. Três nações bem diversificadas.
Os Estados Unidos, o pais mais racista, têm o negro Obama comandando
a massa na Casa Branca.
O Brasil, o mais promissor no sentido de inclusão
social de massas de desassistidos, vive hoje na dependência de altos preços de
commodities agrícolas e minerais. Até
quando isso vai ser possível com tantos gargalos na nossa infra e nos
desequilíbrios da carga tributári
E Cuba, a Ilha-Presépio-Última-Esperança-de-um-Jesuscristinho-socialista-para-sempre,
é a situação mais universalmente ditatorial.
Nos tempos de
internet, com acesso livre, essas censuras no Irã, na China e em Cuba vão caindo
por terra a cada semestre – não dá mais para segurar o fluxo de informação nem alegar
que se vive assim por causa do inimigo. Aquela coisa sartreana de o inferno são
os outros, o meu mal é o bloqueio comercial americano, isso não cola mais... Os jovens chegaram...
No romance cubano “Neblinas
del Ayer”, de Leonardo Padura, ambientado já no Século 21, há descrições
surpreendentes de uma Havana que nenhum turista brasileiro conhece. Há bolsões
na charmosa capital caribenha que se assemelham a pequenos morros do Alemão,
lugares onde nem a polícia castrista apita.
O filme Guantanamera, filme cubano de 25 anos atrás, já
mostrava as sementes desse mercado negro e informal ditando regras reais da oferta
e demanda.
Em fins dos anos 80, ou seja, também uns 25 anos atrás, ocorria
um fenômeno pouco noticiado pelos jornais brasileiros da época: nos cinemas em Cuba,
os filmes eram precedidos de uma eterna propaganda política incensando Che
Guevara, Fidel e a Revolução. Mas a garotada, aproveitando o escurinho do
cinema, vaiava e vaiava, e isso constrangia do lanterninha ao comandante Fidel.
Lembro essas coisas
para frisar que o fenômeno Yoani não é algo que eclode agora, que começa agora,
mas simplesmente culmina um longo processo em que cubanos estão amadurecendo
para chegar ao tempo de uma distensão lenta, gradual e segura com um objetivo
pétreo: a redemocratização... Tirem-me tudo, já tiraram, menos a liberdade, também
já tiraram. Então, por favor, devolva-me. Se você não topar...
Mil Yoanis vão se
multiplicar por mil a cada minuto. A oposição cubana não quer derrubar nem matar
Raul. Isso é resquício de velhos anticastristas ridiculamente apoiados pelo Congresso
americano. O oposição quer espaço e
inventa esses espaços para discutir bons caminhos para um reencontro da
sociedade cubana. Yoani e Padura amam Cuba e respeitam o poder de Raul Castro,
não promovem revolução, apenas querem restabelecer a conversa amistosa entre
cubanos sobre as melhores opções para os
próximos anos.
Mas toda essa digressão é para especular que, caso se
confirme aquela primeira especulação, Yoani chegando ao Poder não para acertar
contas, mas para conciliar uma sociedade maravilhosa, o futuro ministro da
Cultura será Leonardo Padura Fuentes.
Eis o que fala secamente o Wikipedia em língua portuguesa
sobre Leonardo Padura (foto), mas de pronto aviso:
li o seu livro ”Neblinas del Ayer”, presente que ganhei de uma amiga
diplomata que serve em Londres e que já esteve pessoalmente com Fidel, e depois
comento a obra...:
Leonardo Padura Fuentes, nascido em Havana, 1955 — ou
simplesmente Leonardo Padura, como é conhecido internacionalmente — é escritor
e jornalista cubano, considerado um dos melhores de seu país.
Padura assumiu a cadeira de literatura latino-americana na
Universidade de Havana. Destacou-se como jornalista investigativo e, depois,
como ensaísta, roteirista e autor de novelas policiais.
Seu livro Paisaje de otoño conquistou o Prêmio Hammett (uma
homenagem a Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltês) da International
Association of Crime Writers — que não deve ser confundido com o prêmio
homônimo concedido pela filial estadunidense da associação a autores nascidos
nos Estados Unidos e Canadá.
Sua tetralogia Las cuatro estaciones, com histórias do
detetive Mario Conde, começou a ser publicada em inglês. Os livros são:
Pasado perfecto
("Havana Blue", 2007), 1991
Vientos de
cuaresma ("Havana Yellow", 2008)), 1994
Mascaras
("Havana Red", 2005), 1997
Paisaje de otoño
("Havana Black", 2006), 1998.
Padura publicou também dois livros subseqüentes apresentando
o detetive Conde: Adios Hemingway e La neblina del ayer Neste momento, Padura
está a finalizar um romance em que os protagonistas são o revolucionário russo
León Trotsky e o seu assassino, Ramón Mercader.
Livros seus já foram traduzidos para o italiano, o alemão e
o português.
Livros de Padura editados em português (Portugal)
Adeus, Hemingway
Morte em Havana
(Máscaras)
A neblina do
passado
Paisagem de Outono
O Romance da Minha
Vida
Um Passado
Perfeito
Ventos de Quaresma
O Homem Que
Gostava De Cães
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Meteorito na Rússia - TV no Brasil e o futuro
Meteorito na Rússia...
TV no Brasil e o futuro...
Em 1970, uma Copa do Mundo – a do México - teve transmissão ao vivo para o Brasil pela primeira vez. Mas apenas os ricos e os generais da ocasião puderam ver os jogos a cores. Naquela altura, a TV em preto e branco já existia no Brasil há 20 anos, mas o povão ainda não tinha grana pra comprar. Via televisão na calçada das lojas e na calçada do vizinho. Na mesma época, com sua TV ainda estatal, a RAI, a Itália só tinha sistema PB, enquanto os ingleses há anos já curtiam as transmissões a cores.
É claro que a Itália poderia ter feito a toque de caixa a migração do PB para as cores. Mas o governo ponderou: praticamente toda a população italiana possuía TV preto e branco. Pra que, então, gastar dinheiro com o supérfluo? O aparelho a cores poderia demorar um pouco mais. E iria ficar bem mais barato. A população italiana tinha outras prioridades. Atrasar a TV a cores foi um ato sagaz do governo da Itália. No Brasil, então muito pobre, as cores na TV foram uma precipitação desnecessária. A oferta da novidade foi um escárnio social. Afinal, em 1970, ao contrário da Itália, o Brasil possuía cidades inteiras sem sequer luz elétrica, muita pobreza e analfabetismo demais.
Quando a TV chegou ao Brasil, em1950, quase toda a população tinha
acesso ao rádio, que abrangia grande parte do território nacional. O rádio continuou fortíssimo durante os
primeiros 20 anos depois que a TV Tupi foi inaugurada pelo visionário Assis
Chateaubriand em São Paulo e logo no Rio.
A massificação de aparelhos de televisão postos ao alcance de todos os
brasileiros, ou quase todos, deu-se a partir da década de 1990 e avançou ainda
mais nesses anos 2000. Por isso estamos na primeira geração de todos os
brasileiros vendo televisão.
O resultado é que a televisão se apropriou de toda a população
brasileira. Criou-se uma extravagante consciência da realidade e que pode ser
resumida na seguinte perversão: se não passa na TV não existe. A TV Globo,
campeã de audiência há várias décadas, não faz outra coisa. As outras, cada uma
em seu confortável nicho de audiência – confortável porque também estão quase
todas ganhando bom dinheiro – seguem o líder.
E porque há tão pouco tempo – só 25 anos, uma só geração? – todos os
brasileiros têm acesso, temos um dos maiores países, uma das maiores economias,
uma das maiores populações do planeta, uma grande nação inteira sequestrada,
ocupada por um invasor sem culpa. Mas eis que veio a internet – como uma
espécie de castigo tecnológico - e erigiu nova situação: fora das transmissões
esportivas, o grande universo de telespectadores da TV aberta no Brasil de hoje
envelheceu inapelavelmente. Ou não dispõe de suficiente curiosidade intelectual
para compreender o que está se passando no bairro, na cidade, no país, no mundo
e no cosmo. Em outras palavras: no Brasil por ela ocupado TV é coisa de gente
mais velha, menos informada e menos exigente.
Meteorito
Horas atrás, por exemplo, a bela Sandra Annenberg no Jornal Hoje perguntava a um colega da TV Globo em Nova York, acho que se chama Júlio Mosqueira, sobre o que tinha acontecido na Rússia. Que meteorito foi esse? Caraca! O que é que um colega em Nova York, por mais operoso, pode saber sobre o meteorito russo a não ser pelas vias de informação ao alcance de qualquer um em qualquer parte, a começar pela bela Annenberg em São Paulo? É um teatro do absurdo. Um cara em Nova York está tão longe dos Montes Urais, onde o tal meteorito se enfiou, quanto eu aqui em Botafogo, diante do Google News ou do Youtube! Essas duas ferramentas já tinham me exposto uma tempestade de informações que a TV brasileira demora a editar, demora a dar, enredada que está em suas próprias armadilhas da forma papai-mamãe, feijão-com-arroz, caretésimas, em violento desprezo pelo conteúdo. Não que a Annenberg (fingindo não saber o que estava acontecendo com o meteorito, precisando perguntar ao colega de Nova York) e o Mosquera sejam uns patetas. Nada disso. São ótimos profissionais. Patetas são os caciques da Globo, da Record, do STB, da Band e do resto da turma. Patetas e prósperos, mas perdidamente aparvalhados na mesmice que envolve as TVs na mesma névoa turva em que a TV envolveu o Brasil.
Horas atrás, por exemplo, a bela Sandra Annenberg no Jornal Hoje perguntava a um colega da TV Globo em Nova York, acho que se chama Júlio Mosqueira, sobre o que tinha acontecido na Rússia. Que meteorito foi esse? Caraca! O que é que um colega em Nova York, por mais operoso, pode saber sobre o meteorito russo a não ser pelas vias de informação ao alcance de qualquer um em qualquer parte, a começar pela bela Annenberg em São Paulo? É um teatro do absurdo. Um cara em Nova York está tão longe dos Montes Urais, onde o tal meteorito se enfiou, quanto eu aqui em Botafogo, diante do Google News ou do Youtube! Essas duas ferramentas já tinham me exposto uma tempestade de informações que a TV brasileira demora a editar, demora a dar, enredada que está em suas próprias armadilhas da forma papai-mamãe, feijão-com-arroz, caretésimas, em violento desprezo pelo conteúdo. Não que a Annenberg (fingindo não saber o que estava acontecendo com o meteorito, precisando perguntar ao colega de Nova York) e o Mosquera sejam uns patetas. Nada disso. São ótimos profissionais. Patetas são os caciques da Globo, da Record, do STB, da Band e do resto da turma. Patetas e prósperos, mas perdidamente aparvalhados na mesmice que envolve as TVs na mesma névoa turva em que a TV envolveu o Brasil.
E essa parvoíce se repete o tempo todo. Diante de um grande acontecimento
em Roma, o apresentador da TV aqui no Brasil pergunta a uma menina em Londres o
que é que está se passando na capital italiana.
Como se a boa menina só por estar em um ponto qualquer da Europa – em
plena era da internet, do Google, do Youtube - soubesse mais que qualquer
mortal de Botafogo sobre alguma coisa que está abalando Roma.
Não se pode negar que TV aberta e TV paga produzem eventualmente reportagens excelentes no Brasil. O que se observa aqui é a estratégia para uma derrocada anunciada.
Não que o apresentador do eixo Rio-São Paulo e a menina de Londres sejam
dois idiotas. Nada disso. São profissionais corretos. Idiotas aparentemente parvos
são, outra vez, os caciques e editores dessa TV caldo ralo que rola por aí a
caminho do ralo das audiências minguantes. A Globo e todas as suas afiliadas,
por afiliadas se entenda a Record, o SBT, as Band e o resto da turma porque
todas se fazem à imagem e semelhança do líder – Follow the leader! Follow the
money - todas elas têm que fingir uma dinâmica cosmopolita sem saber que falam
a um país de seres eminentemente locais. Mas não têm aquela gana em buscar
novidade com quem tem algo de novo a dizer ou mostrar. Então, os jornalistas
ficam ali trocando figurinhas para a audiência anciã ou desligada da velha e
insubstituível curiosidade intelectual. A garotada do lado de cá não fica diante
da telinha. Só ficam os avós e bisavós, além dos analfabetos digitais.
Alguém no Brasil pergunta alguma coisa a alguém em Londres e o pobre
Alguém de Londres proclama o que todo mundo já sabe e já viu na internet. O
Alguém de Londres também já viu na internet à beira do Tâmisa...
Mas a parvoíce, ou idiotia, extravagância, patetice aparvalhada,
escorreu para além dos limites da TV aberta. Chegaram aos canais por assinatura.
Resultado: alguns dos melhores jornalistas da TV brasileira, meia dúzia
deles, merecem, há meses, minibiografias de propaganda pessoal insossa. Trinta
segundos a cada um várias vezes dia e noite, semana após semana, mês após mês.
Mini verbetes, micro currículos, mera auto divulgação, mini auto celebração.
Céus! O que é que o distinto público tem a ver com isso? Por que os caciques e
editores não dão uma olhada na melhor TV que se faz no mundo e não aproveitam
os “intervalos” obrigatórios para minirreportagens, mini-informação, miniprestação
de serviço, miniutilidade, minicrítica?
Não que os colegas incensados à exaustão sejam patetas. Nada disso! São
ótimos profissionais experientes, antenados, bem educados. O distinto público
gosta do trabalho de todos eles. Mas, obviamente, está se lixando para as
irrelevâncias. Há uns bons 15 anos , a tiragem dos principais jornais em papel
do Rio e de São Paulo vem despencando dramaticamente. Vários impressos dando
adeus às bancas. O nosso JB! Putz! Jornal da Tarde, Gazeta Mercantil, Tribuna
da Imprensa... Uma das razões é que trocaram a informação pela divulgação e,
ultimamente, trocam pela celebração. Pois a TV por assinatura desanda pelo
mesmo caminho.
Não contentes com a
Divulgação-Celebração de empresários, políticos e governantes, passam, agora, a
divulgar e celebrar os próprios repórteres e comentaristas, propaganda pessoal
diária. Até a esplendorosa Maria das tardes e seus Beltrão Boys entraram
nessa... Jornalista incensar jornalista... Caraca!
Não entro no mérito brechtiano de que a propaganda é o altar do demônio
ou o próprio inferno. Nem concordo com isso. Mas gosto da imagem. E, por essas
e outras, o vale tudo pelos 15 segundos de glória está cada vez mais prevalecendo
sobre o jornalismo da TV. Assim como a TV “prevaleceu” sobre os gostos, os
hábitos, os cacoetes, as manias do Brasil inteiro, subjugando-o e criando uma nova
sociedade, uma nova enorme população de 200 milhões de submissos e indefesos.
E antes que me esqueça, tem também os diretores de jornalismo, diretores
disso e daquilo cujos nomes aparecem depois de cada programa. Até ao fim de um
programa qualquer feito pela BBC na Groenlândia, ou a CNN na Indonésia, ou a
Fox News na Nova Zelândia – putz! – lá está a assinatura do cacique ou da “cacica”
daqui do Rio ou de São Paulo. Caraca! Neguinho faz um especial sobre Rubem
Braga, e termina lá com o créditos dos diretores. Neguinho faz um belo
especial, como o Geneton fez sobre Joel Silveira, e aparecem lá os nomes dos
diretores. Os caras fazem há anos o Manhattan Connection lá em Nova York, são
uns craques do bate-papo bem antenado, e o nome dos diretores fecha o programa.
Arre que é ter ego! – como diria o velho Eça. Arre que é ser caipira!
Mas eis que me alongo nessa queixa vã e paro por aqui. Arre que é ter
saco!!! Prefiro de novo assistir ao Youtrends no Youtube, 700 mil visualizações
nos últimos seis dias, sem nenhuma propaganda na grande mídia, apenas o velho bom humor
nessas novidades do mashup...
(Por Alfredo Herkenhoff, Correio da Lapa, Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2013)
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