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Opinião
Um olhar histórico-geopolítico sobre o conflito da Ucrânia
José Pedro Teixeira Fernandes
29/07/2014 - 12:51
Não é líquido até onde vai o grau
de influência russo sobre os separatistas.
1. Vista a partir da imprensa europeia e norte-americana, a actual crise
política e militar na Ucrânia parece ter um responsável óbvio: a Rússia de
Vladimir Putin.
Não é a Rússia que fornece equipamentos militares e
instiga os grupos separatistas na luta armada contra o poder democraticamente
eleito de Kiev, no leste da Ucrânia? Não foi a Rússia que forneceu aos
separatistas o míssil terra-ar que terá abatido o voo MH17 das linhas Aéreas
Malásia? Não tem a Rússia ambições imperialistas de recuperar os territórios
perdidos com o fim da União Soviética? A anexação da Crimeia não é uma prova
clara dessas intenções expansionistas, tal como foi a guerra com a Geórgia em
2008? Não teceu Putin uma “rede de mentiras” como intitula a capa da revista
britânica The Economist desta semana? Não é Putin um “pária” da
comunidade internacional e o “inimigo número um do Ocidente”, como intitula a
norte-americana Newsweek?
2. As interpretações simplistas e a-históricas de um problema complexo e
multifacetado, como é a crise da Ucrânia, podem ser politicamente nefastas.
Tendem a gerar uma sensação de (falso) conhecimento do problema e a dar um
suposto fundamento moral para a actuação política. Todavia, tais certezas não
resistem a uma análise mais minuciosa. Vamos por partes. Olhemos, primeiro,
para a realidade geopolítica da Ucrânia. Estamos perante um Estado de grande
dimensão para os padrões europeus/ocidentais - mais de 600.000 km2, com a
península Crimeia, actualmente sob o poder de facto russo. (A fronteira
terrestre entre os dois Estados é de mais de 1.500 km). Seria o maior Estado da
União Europeia se fosse membro. Já a população não é muito significativa para
esta dimensão geográfica. Desde o final da União Soviética que tem decrescido,
rondando actualmente os 45 milhões de habitantes. Mas, neste conflito, o
principal problema da Ucrânia não é a dimensão do seu território, nem a
dimensão da sua população, mas a falta de coesão interna. A isto acresce um
Estado com crónicas dificuldades em fornecer segurança, justiça e bem-estar aos
seus cidadãos. Levanta-se, aqui, uma questão sensível: existe uma nação
ucraniana com a qual a generalidade da população se identifica? É a identidade
nacional ucraniana inclusiva para grupos minoritários substanciais, como os
mais de 17% de russos étnicos e os cerca de 24% de falantes de russo como
língua principal? Estas faixas da população sentem-se reflectidas na ideia
oficial de nação ucraniana?
3. A heterogeneidade e falta de coesão interna da Ucrânia explicam-se
essencialmente pela sua história. Um Estado ucraniano independente, com as
atuais fronteiras, é uma realidade nova. A parte mais ocidental do país esteve
ligada, sucessivamente, à Lituânia, à Polónia e ao antigo Império
Austro-Húngaro. Só com os ajustamentos de fronteiras após a II Guerra Mundial
esse território foi integrado na Ucrânia. Por sua vez, a parte a leste do rio
Dniepre (desde meados dos século XVII) e a Crimeia (finais do século XVIII, sob
Catarina a Grande), têm uma ligação histórica muito mais enraizada à Rússia. O
caso da Crimeia é um exemplo disso. Em 1954, sob o poder soviético liderado por
Nikita Khrushchev, passou de região autónoma da República Soviética da Rússia,
para região autónoma da República Soviética da Ucrânia. Na altura,
comemoravam-se os trezentos anos do Tratado de Pereyaslav, de 1654. O Tratado
garantia a protecção do czar da Rússia aos cossacos ucranianos que se
sublevaram e combateram o domínio polaco. Marcou o início de uma ligação
política entre os dois povos, mas sob crescente domínio russo. Na propaganda
soviética da época simbolizava a “amizade eterna” entre os povos russo e
ucraniano. Teve consequências imprevistas. Com desmembramento da União
Soviética, em finais de 1991, as antigas fronteiras das repúblicas soviéticas
passaram a ser as novas fronteiras internacionais.
4. Não é só a questão territorial que explica a falta de coesão da Ucrânia.
Esta resulta, entre outras coisas, das memórias de um passado, frequentemente
marcado por grande violência e horrores no último século. O problema é, sobretudo,
a maneira como este é lembrado e incorporado no presente. Uma parte da Ucrânia
recorda a memória trágica do
holodomor, a morte provocada pela fome de
alguns milhões de pessoas durante o período Estalinista dos anos trinta. Outra
parte da Ucrânia lembra a luta contra os nazis durante a ocupação da II Guerra
Mundial e os crimes hediondos cometidos por estes, com a colaboração de parte
da população ucraniana. O nacionalista Stepan Bandera, é o símbolo extremado
das memórias que dividem no presente: herói nacional e defensor de uma Ucrânia
soberana e independente para uns; fascista, xenófobo e colaboracionista para
outros. A clivagem na selectividade das memórias do passado acompanha, grosso
modo, a fractura geográfico-política entre a parte ocidental e parte leste do
país.
Vamos agora ao caso da Rússia e à sua memória histórica.
Na Europa
ocidental é bem conhecida expansão russa para ocidente, seja na versão dos
czares, ou na versão soviética, feita sobretudo à custa da Polónia e dos
Estados Bálticos. O que já é mal conhecido é que a Polónia, tal como a Suécia,
foram grandes potências do leste europeu até ao século XVII e XVIII, com
ambições imperiais. No seu apogeu de poder, atacaram várias vezes a Rússia,
ameaçando a sua existência como Estado. É, aliás, isso que os russos comemoram
no actual feriado nacional de 4 de Novembro, mantendo viva a memória
levantamento popular de 1612, que expulsou as forças da Polónia-Lituânia. A
data tinha grande simbolismo durante o tempo dos czares e foi reintroduzida na
Rússia pós-soviética em 2005, como “dia da união”. Isto ocorre em contraste com
a União Europeia, onde se vive uma era pós-nacional, na qual as ideias
clássicas de nação, de estado e de soberania tendem a ser vistas como coisas do
passado. Todavia, na Rússia atual, como noutras partes do mundo, estão bem
vivas e nada indicia entusiasmo por uma via pós-nacional. Mas há, pelo menos,
mais outro acontecimento que alimenta o ressentimento histórico dos russos
contra a Polónia, também ocorrido num período crítico da sua história. Com o
fim império dos czares em inícios de 1917, a revolução bolchevique de Outubro e
o Tratado de Brest-Litovsk de 1918, a Rússia saiu da I Guerra Mundial com
grandes perdas territoriais. A Segunda República da Polónia, que emergiu na Paz
de Versalhes de 1919, viu na fragilidade russa uma oportunidade de ganhar
território. Avançou militarmente para leste, tentando conquistar o actual
território da Ucrânia ocidental e da Bielorrússia ao poder bolchevique. As suas
tropas chegaram a ocupar Kiev em 1920, só retrocedendo pela contra-ofensiva do
exército vermelho.
5. Tudo isto seriam meras curiosidades históricas se a União Europeia e a
Rússia estivessem num mesmo tempo histórico pós-nacional. Não estão. Por isso,
não é difícil imaginar como a iniciativa da Parceria Oriental da União
Europeia, foi vista sob o prisma russo à medida que foi ganhando contornos
palpáveis no terreno. Lançada em 2009, após a guerra da Rússia com a Geórgia de
2008 e o conflito sobre o gás natural entre a Rússia e a Ucrânia de inícios de
2009, teve como destinatários países do espaço ex-soviético: Arménia,
Azerbaijão, Bielorrússia, Geórgia, Moldávia e Ucrânia. O facto de ser promovida
pela Polónia e Suécia - com o apoio entusiástico dos Estados Bálticos – deu
argumentos aos nacionalistas russos para vê-la como uma manobra dos seus
inimigos históricos, nomeadamente da Polónia.
A crescente presença de um poder
estrangeiro no espaço ex-soviético e ex-russo, levou Putin a desencadear a
contra-iniciativa de uma União Euroasiática, a partir de finais de 2011. A
Ucrânia, o principal Estado em disputa, ficou no meio destas duas iniciativas
antagónicas. Independentemente das intenções, a União Europeia avaliou mal a
previsível reacção russa de forte oposição. Vista da Rússia, tratava-se de uma
“invasão” do seu espaço de influência tradicional. Tem, por isso, a sua quota
de responsabilidades na cadeia de acontecimentos.
Por outro lado, a crise
ucraniana não parece ter solução sem entendimentos pragmáticos com a Rússia.
Mesmo que o poder de Kiev readquira o controlo sobre o leste do país, as forças
separatistas podem transformar-se num movimento de guerrilha, com apoio do
outro lado da fronteira. Se o conflito evoluir dessa forma será uma ferida
permanente para a Ucrânia e um ponto de instabilidade crónica internacional.
É
compreensível a indignação europeia e ocidental subsequente à trágica queda do
voo MH17, bem como a pressão política sobre a Rússia. O que é menos
compreensível é a atitude política de culpabilizar unicamente a Rússia. Não é
líquido até onde vai o grau de influência russo sobre os separatistas.
Nem é
compreensível a falta de pressão pública europeia sobre o governo ucraniano
para um entendimento de paz no terreno. A coberto da onda de indignação
internacional, este parece ter aproveitado a ocasião para intensificar as
operações militares. Neste contexto, a escalada da retórica de condenação e das
sanções económicas arriscam-se a ser mais um passo mal calculado e a
intensificar o conflito.