A Constituição garante o sigilo bancário de cada um, nenhuma mídia pode publicar contracheque. Então ninguém sabe bem do que está falando quando o assunto é Eike Batista. A Receita Federal tem as informações sobre a fortuna, mas, corretamente, nada comenta diante do que se exibe na TV. A revista Forbes se tem não as explica. Resta ao carioca desconfiar e torcer para que o oitavo mais rico do mundo chegue ao topo da pirâmide, e que, nessa ascensão, ajude a política posta em marcha pelo igualmente vitorioso governador Sérgio Cabral, que inventou a UPA e a UPP e trouxe a Fifa e as Olimpíadas. Aliás, Eike entrou com mais de 20 milhões para ajudar o Rio na campanha que garantiu os Jogos de 2016 na cidade. Eike também conta no seu livro que doou 20 milhões para a UPP, a polícia pacificadora de seu amigo Sérgio Cabral. É muita generosidade!
Eike Batista com o livro O X da Questão escreveu num etilo temerário. Cometeu alguns erros ao subestimar a capacidade crítica de quem pouco está ligando para a sua vaidade. Sim, está na Bíblia: Vanitas vanitatis, omnia vanitas, mais ou menos para alertar o ser humano de que tudo nesta vida é vaidade. Cristo disse: Não saiba a mão direita o que faz a esquerda, ou vice-versa, isso para dizer que a caridade ou a ajuda ou o patrocínio deve rolar em segredo de alma.
Um capítulo é intitulado A Perfeição é uma Utopia. Mas até no mea culpa o ego engrandece. O leitor tende a acreditar que Eike Batista é uma exceção, um homem de qualidade em tudo o que faz. Parece não existir nada errado em sua vida, felicidade plena, nenhuma enxaqueca, até a asma, o primeiro susto na infância, superou a partir da adolescência nadando em piscinas europeias. A malária das primeiras minas ele evitou com cachacinha e alho, e claro, nada de pesca na happy hour, nada ao cair da noite na farra da mosquistolândia à beira rio antes de chegar o breu da mata fechada. Não, ninguém é perfeito, mas há exceções... Todo cuidado é pouco, Lula e Collor também já passaram a imagem de que seriam celebridades movidas apenas pela felicidade, nenhum defeito, nenhuma falha, nenhuma doença...
Seguem três belas frases do livro de Eike Batista aqui reunidas ao sabor do acaso: A realização de alguém não está atrelada ao patrimônio que acumulou. A ousadia deve ser bebida com moderação. Com muita pesquisa em mãos e investimento elevado, transformei minas desprezadas em negócios fabulosos.
Segue um trecho do estilo Eike de se proclamar intrépido: “Eu não aspiro à perfeição. Aspiro ao êxito. Aspire ao êxito você também. Eu desejo entregar ao mercado, aos acionistas, aos colaboradores, à sociedade, o que me comprometi a entregar. Quero realizar negócios que sejam alvo de admiração permanente. Tenho uma ideia e me dedico noite e dia a levá-la adiante. A paixão – quando acompanhada de racionalidade – é um elemento fundamental para concretizar os planos”.
São incontáveis as vezes em que no livro Eike se elogia como uma personalidade arrojada e que supera desafios. Alberto Roberto, o personagem símbolo da ego-trip, de Chico Anysio, perde em matéria de vaidade. Numa passagem, Eike nega que tenha semelhanças com Indiana Jones. Garante que nunca pensou em sair correndo atrás do Santo Cálice.
Eike parece gostar não da Arca Perdida do Rei Salomão, mas das minas bem encontradas. Soa quase poético Eike dizer que começou vendendo seguros de porta em porta porque tinha vergonha de pedir ajuda ao pai para complementar as despesas de um estudante numa faculdade de engenharia metalúrgica. Alega que seu pai com sete filhos não merecia fazer sacrifício. Dizendo não gostar de pedir, Eike discorre como se ninguém achasse estranho ler que ricos no Rio de Janeiro lhe emprestaram grana para se embrenhar na Amazônia e faturar seus primeiros 6 milhões de dólares aos 23 anos de idade. Não que seu pai fosse rico, mas como executivo de uma gigante estatal, Eliezer fez, só ao Japão, 170 viagens, segundo revelação dele próprio no prefácio.
Aliás, soa estranho como Eike, elogiado nesse prefácio assinado por Eliezer Batista, quase não cita seu pai no livro. Também praticamente não toca na política do BNDES, base do renascimento da indústria naval brasileira. Mas, em entrevistas, Eike estimou que este banco tem entre 4 e 5 bilhões de dólares investidos no Grupo X. (continua)